Durante mais de sete décadas, a arquitetura de segurança europeia assentou sobre o pressuposto, raramente questionado, que em última instância os Estados Unidos da América (EUA) garantiriam a defesa do continente. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) transformou-se no pilar central da estabilidade europeia após a Segunda Guerra Mundial, permitindo que os países da Europa Ocidental concentrassem grande parte dos seus recursos na reconstrução económica, no desenvolvimento social e no aprofundamento das instituições democráticas. A proteção americana parecia tão sólida que poucos se interrogavam sobre a possibilidade de um dia deixar de existir ou de se tornar menos previsível.
Entretanto, a história voltou a bater à porta da Europa. A invasão da Ucrânia pela Rússia constituiu o mais grave desafio à ordem de segurança europeia desde o fim da Guerra Fria. Simultaneamente, as oscilações da política americana e as dúvidas suscitadas por sucessivas disputas internas nos EUA levaram muitos líderes europeus a perguntar se a Europa está preparada para garantir a sua própria defesa no caso do amparo americano se revelar menos confiável.
A resposta para aquela pergunta, que durante mais de meio século se manteve desnecessária, ainda não parece clara. Mas agora tornou-se evidente, que a questão deixou de ser meramente académica.
Por toda a Europa observa-se um aumento substancial dos investimentos militares. Países que durante anos reduziram os seus orçamentos de defesa iniciaram programas de modernização, reforçaram os seus efetivos e revitalizam indústrias estratégicas que haviam perdido importância após o colapso da União Soviética. Mais do que uma reação imediata à guerra na Ucrânia, esta tendência sugere uma transformação gradual da mentalidade estratégica europeia.
Nenhum país simboliza melhor esta mudança do que a Alemanha. Durante décadas, a República Federal da Alemanha (RFA) construiu a sua influência sobretudo através da economia, da diplomacia e da integração europeia. O peso da memória histórica aconselhava prudência em matéria militar. Contudo, a nova realidade geopolítica alterou antigas pressuposições. A maior economia da Europa iniciou um processo de rearmamento que seria dificilmente imaginável há apenas alguns anos. O simbolismo tornou-se ainda mais evidente quando a Alemanha decidiu destacar permanentemente uma brigada de cerca de cinco mil soldados para a Lituânia. O facto pode parecer modesto perante os grandes números das guerras do século XX. Contudo, o seu significado histórico é considerável. Pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, uma força da RFA encontra-se estacionada de forma permanente fora do território nacional. Não se trata apenas de uma decisão operacional. Expressa -se um sinal incontestável de que a Alemanha começa a assumir um papel diferente na defesa do continente.
Seria precipitado concluir que a Europa está destinada a transformar-se numa superpotência militar comparável aos EUA. A história raramente segue trajetórias inevitáveis. As diferenças políticas entre os Estados europeus permanecem significativas, e a construção de uma estratégia comum continua a enfrentar obstáculos consideráveis.
Todavia, seria igualmente imprudente ignorar as possibilidades abertas pelos acontecimentos recentes. A União Europeia possui uma das maiores economias do mundo, uma população numerosa, centros científicos de excelência, tecnologia avançada e uma base industrial capaz de sustentar um vasto esforço de defesa. A França dispõe de uma força nuclear independente. O Reino Unido continua a ser uma potência militar relevante. A RFA possui recursos económicos e industriais que poucos países conseguem igualar. Em conjunto, estas capacidades representam um potencial estratégico extraordinário.
O verdadeiro desafio não reside na falta de meios materiais. Consiste na vontade política necessária para transformar recursos dispersos numa capacidade estratégica coerente.
A questão mais importante talvez não seja saber se a Europa se tornará uma potência militar autónoma. A questão é reconhecer que esta hipótese já não pertence ao domínio da especulação remota. Pela primeira vez desde 1945, ela pode ser considerada uma possibilidade real e viável.
Existe aqui uma ironia histórica difícil de ignorar. A Rússia procurou reafirmar a sua influência através da força militar. Por sua vez, o governo de Donald Trump introduziu um elemento de incerteza quanto à continuidade do papel tradicional da América como garante absoluto da segurança europeia. O resultado combinado poderá ser precisamente aquilo que durante décadas pareceu desnecessário: o nascimento de uma Europa armada, mais independente e consciente do seu próprio poder.
Se tal evolução se concretizar, os historiadores do futuro talvez concluam que o início dessa transformação ocorreu quando os europeus compreenderam que a paz duradoura exige não apenas prosperidade económica, mas também a capacidade de assegurar a própria defesa.



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