Paramentos indo-portugueses do século XVII oferecidos à paróquia da Horta

by | Jun 22, 2026 | Outras Notícias, Outros

Horta, Açores, 22 jun 2026 (Lusa) – Quatro paramentos litúrgicos indo-portugueses do século XVII, considerados como de grande valor artístico, oferecidos à Paróquia do Santíssimo Salvador, na Horta, na ilha açoriana do Faial, vão integrar um futuro núcleo de arte sacra, disse hoje o pároco local.

As três dalmáticas e uma casula foram entregues este mês por uma família benemérita ao pároco da igreja matriz da Horta, monsenhor António Saldanha Albuquerque.

O sacerdote afirmou hoje à agência Lusa que as vestes litúrgicas “têm uma longa história” de vários séculos e são de proveniência diferente.

Uma dalmática é chinesa, “provavelmente uma oferta do Imperador [da China] a um padre da Companhia de Jesus ou a uma comunidade jesuíta que tenha estado em Pequim, no século XVII”.

“É [de] seda, bordada a ouro, tem toda uma simbologia própria da corte imperial chinesa, como sejam os dragões, aves do paraíso e, portanto, é uma peça notável, não apenas pela sua textura, pela sua qualidade artística, mas também pela carga histórica e simbólica que tem”, explicou.

As outras três peças – duas dalmáticas e uma casula -, pertenciam a um pontifical.

“São produzidas de seda bordada a ouro e a prata. […] Refletem o encontro de culturas que existiu em Goa entre portugueses e indianos. É uma expressão da riqueza fantástica de troca de saberes, de artes, que se deu entre portugueses e artesãos locais”, disse.

Explicou que o contacto entre as duas culturas é patente “na delicadeza do trabalho e também na qualidade dos tecidos que foram utilizados” na sua confeção.

Segundo António Saldanha Albuquerque, as peças religiosas “estiveram ao culto na Índia até há relativamente poucos anos”.

O sacerdote contou que “eram parte de uma coleção particular de arte indo-portuguesa” e quando conheceu a família proprietária falou dos Açores e da relação histórica com a Índia, por força da presença dos missionários açorianos.

“É curioso e importante sempre recordar que os últimos dois patriarcas portugueses [naquele país] eram de origem açoriana – D. José da Costa Nunes e José Alvernaz -, e há uma ligação histórica muito forte entre os Açores e a Índia, chamada então Índia Portuguesa, que era a porta de acesso ao Oriente e a rampa de lançamento, digamos assim, dos missionários que se destinavam à Índia, a Malaca e a tantos outros territórios orientais”, referiu.

Na sua opinião, a oferta das quatro peças à igreja matriz da Horta (Paróquia do Santíssimo Salvador), tem “um grande significado, não apenas pelo seu valor artístico, mas também pela memória histórica que elas contêm”.

“E é curioso, esta feliz coincidência de peças de Goa voltarem, […] a esta matriz, de onde partiram, há tantos séculos atrás, tantos missionários açorianos. E, por isso, tem para nós um valor também sentimental, afetivo, muito especial”, referiu António Saldanha Albuquerque.

Para a paróquia, é “um acontecimento muito importante pelo forte valor simbólico que [as peças] encerram”, mas também “como incentivo e um convite a uma releitura e [a] uma revalorização do património” existente.

Ainda de acordo com o sacerdote, as quatro peças do século XVII serão expostas no futuro núcleo museológico de arte indo-portuguesa, na ilha do Faial.

“Nós temos algumas peças da arte indo-portuguesa, não só no Faial como em várias outras ilhas, e o Museu Diocesano de Arte Sacra possui algumas peças de notável valor. Provavelmente, abrir um núcleo de arte sacra indo-portuguesa é um dos objetivos a que nos propomos e estas peças justificam perfeitamente esta iniciativa”, disse.

Segundo a página na Internet da Diocese de Angra, as duas dalmáticas e uma casula de proveniência goesa “constituem exemplares de grande relevância histórica e artística” e “encontram-se estudadas e referidas na obra ‘História da Arte em Portugal’, dos especialistas Reynaldo dos Santos e Diogo de Macedo, o que atesta o seu reconhecido valor patrimonial”.

“Com esta doação, as peças passam a integrar o património da Paróquia do Santíssimo Salvador, enriquecendo significativamente o acervo de arte sacra da ilha do Faial e da Diocese de Angra”, referiu.

 

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