Surpresa dia 24 de maio na final da Taça de Portugal em futebol 2025-2026. Contra a maioria das previsões e, pela primeira vez na história da competição que se realiza desde 1939, o troféu foi ganho por uma equipa que não é da I Divisão. A proeza foi do Sport Clube União Torreense, terceiro classificado da II Liga, que bateu (2-1) o vice-campeão nacional da I Divisão, um evaporado Sporting Clube de Portugal.
Foi um momento de alegria para os torreenses que, quatro dias depois, a 28 de maio, no estádio municipal de Rio Maior, amarguravam a derrota (2-0) com o Casa Pia na segunda mão do play-off de promoção à I Liga.
Quanto ao Sporting, tem estado a ferver e alguns sportinguistas revoltados lembram os Cinco Violinos, memória sportinguista com 80 anos.
Os Cinco Violinos (Jesus Correia, Manuel Vasques, Fernando Peyroteo, José Travassos e Albano Pereira), só jogaram juntos três épocas (1946/47, 1947/48 e 1948/49), mas foi o bastante para conquistarem a imortalidade.
Cresci idolatrando os Cinco Violinos e, quando já tinham deixado de jogar, tive oportunidade de os conhecer.
Cinco Violinos foi alcunha posta pelo jornalista e treinador João Tavares da Silva a Vasques, o criativo do grupo, era o Malhoa, também alcunha de Tavares da Silva alegando que a forma de Vasques jogar lhe fazia lembrar a arte do pintor José Malhoa. E Peyroteo, goleador do grupo, ganharia também a alcunha do Stradivarius por ser o mais raro dos violinos.
Fernando Peyroteo foi o maior goleador da história do futebol português e foi provavelmente um dos melhores do futebol mundial, embora não tenha tido projeção internacional por ter vivido numa altura em que ainda não existiam competições europeias e em que a 2ª Guerra Mundial interrompeu os torneios entre seleções.
O mais curioso é estes craques terem sido contratados pela ninharia de 20 contos e o salário de 700 escudos por mês, que era nesse tempo o teto salarial do Sporting, enquanto que hoje o salário médio anual bruto dos atletas de topo do clube ronda 1,3 milhão de euros.
Peyroteo, por exemplo, saiu de borla ao clube. Nasceu em Angola (1918) e começou a notabilizar-se no Sporting Clube de Luanda. Em 1937, tinha 19 anos, viajou para Lisboa no paquete Niassa e à chegada foi recebido por dois dirigentes leoninos que o levaram para o clube e assinou contrato a troco de 500 escudos e um ordenado mensal de 700 escudos.
Acrescente-se que 700 escudos eram o que os melhores jogadores do Sporting recebiam na altura, embora depois houvesse dinheiro por fora para aqueles que mereciam, e Peyroteo tornou-se rapidamente o que mais prémios recebia.
Em 1949, aos 31 anos, encerrou a carreira de jogador, abriu uma loja de artigos desportivos em Lisboa que foi à falência e, na época de 1961-1962, tentou a sorte como selecionador nacional. Mas o Luxemburgo derrotou Portugal por 4-2 logo no jogo de estreia e pôs fim à carreira de Peyroteo como treinador.
Voltou então a Luanda e esteve vários anos ligado à organização do Torneio Popular Cuca, patrocinado pela marca de cervejas e que mobilizava centenas de equipas juvenis dos bairros populares de Luanda.
Nessa altura, Peyroteo teve também vários restaurantes, um dos quais o Tongo, no largo da Mutamba, em Luanda, onde tive oportunidade de conversar várias vezes com ele.
Naquela altura já se queixava dos problemas de saúde de que viria a falecer. Num jogo de veteranos em Espanha, contraiu uma rotura do tendão de Aquiles e a operação correu mal provocando-lhe uma doença no sistema circulatório que obrigou, em 1964, aos 46 anos, a amputação da perna direita. Faleceu em 1978, vítima de ataque cardíaco, aos 60 anos.
Albano Pereira, que chegou ao Sporting em 1943, aos 20 anos, para uma carreira de 13 temporadas (até 1956), contratado por 20 contos e conquistou oito campeonatos nacionais e quatro Taças de Portugal.
Com o dinheiro que conseguiu ganhar no Sporting, Albano adquiriu um café no Seixal e fiz nessa altura duas ou três reportagens sobre ele para o Jornal de Almada, mas o café foi um fracasso.
Albano ainda tentou (sem sucesso) a carreira de treinador, mas acabou por se empregar como corticeiro na fábrica Mundet, continuando a gozar a vida a seu jeito e faleceu em 1990, aos 67 anos.
Não se conhece o montante do contrato de José Travassos, que chegou ao Sporting em 1946 com o salário de 700 escudos, mas em 1950 o Sporting financiou o negócio de arcas e balcões frigoríficos que ele montou de sociedade com Vasques e foi nessa altura que o conheci.
Quando o meu pai precisou de balcões frigoríficos para o café que tinha em Cacilhas (o Central de Cacilhas) e recorreu a Travassos, que se deslocou ao café para tirar medidas, ultimar o negócio e dar autógrafos a toda a gente.
Após 13 épocas de leão ao peito, Travassos decidiu pendurar as botas e deixar o negócio das arcas refrigerantes, para se dedicar à caça, a sua outra grande paixão. Faleceu em 2002, aos 75 anos.
Manuel Vasques nasceu no Barreiro (1926), começou a jogar na CUF, estreou-se pelo Sporting em 1946 e em treze épocas (até 1959), ganhou oito campeonatos e duas Taças de Portugal.
Começou a trabalhar como aprendiz de carpinteiro na CUF, aos 17 anos já jogava na equipa principal da companhia e transferiram-no para os escritórios como prémio pelos seus golos.
Vasques recebeu 18 contos pela assinatura do contrato e representou o Sporting treze épocas. Encerrou a carreira em 1959 aos 33 anos. Casou com a atriz Aida Batista, passou a explorar a tabacaria do Estádio de Alvalade e trabalhava na Loja Verde. Faleceu em 2003.
Jesus Correia, popularmente o Necas, foi um desportista de eleição distinguindo-se no futebol e no hóquei em patins. Começou por jogar futebol na Associação Académica de Paço de Arcos, assinou pelo Sporting por 12 contos e logo na sua primeira época sagrou-se campeão nacional. Viria a conquistar sete campeonatos nacionais e três Taças de Portugal ao longo das nove épocas em Alvalade, e deixou o futebol em 1952, quando tinha apenas 29 anos, optando pelo hóquei em patins, onde se sagrou seis vezes campeão mundial, outras tantas vezes campeão europeu e oito vezes campeão nacional.
Vim a conhecer Jesus Correia apresentado por uma namorada que ele arranjou em Cacilhas e que era das relações da minha mãe. Casaram e tiveram um filho e uma filha. Quando Jesus Correia faleceu em 2003, aos 79 anos, já era o último dos Cinco Violinos.
No tempo dos Cinco Violinos o futebol era diferente, não havia competições internacionais e até mesmo jogos de seleções tinham deixado de realizar-se devido à Segunda Guerra Mundial. Hoje existem centenas de torneios internacionais.
Oficiais e organizadas pelas confederações ou pela FIFA há mais de 30 grandes competições regulares, a maior das quais é o Campeonato Mundial da FIFA a cada quatro anos e cuja 23ª edição tem lugar este ano, de 11 de junho a 19 de julho, realizado no Canadá, Estados Unidos e México, e com participação de 48 seleções (entre as quais as de Portugal e Cabo Verde).
Entretanto, sábado passado (30 de maio) tivemos a final da Liga dos Campeões Europeus 2026, a maior competição a nível de clubes, organizada pela confederação europeia UEFA e o Paris Saint Germain, que na época passada conquistara o troféu ao golear o Inter de Milão (5-0), revalidou o título ao vencer o Arsenal de Londres por 4-3 nos penáltis, após o empate 1-1 no tempo regulamentar e no prolongamento.
Da equipa parisiense fazem parte quatro portugueses: Nuno Mendes, João Neves, Vitinha e Gonçalo Ramos. Vitinha foi eleito pela UEFA o melhor jogador da final.
O Paris Saint Germain é treinado pelo espanhol Luis Enrique, mas o diretor técnico da equipa parisiense é o português Luís Campos, que já trabalhou no Real Madrid, Monaco e Lille.
O futebol é hoje um mercado internacional. Há presentemente 77 treinadores portugueses a orientar equipas estrangeiras e cerca de 500 jogadores portugueses a competir 135 ligas profissionais de futebol estrangeiras.
Na Premier League inglesa há quatro treinadores portugueses e 14 jogadores, um dos quais, Bruno Fernandes, do Manchester United, foi eleito oficialmente o melhor da época.
Quanto a treinadores, o Mamelodi Sundowns, de Pretoria, África do Sul, treinado pelo português Miguel Cardoso, venceu no passado domingo o AS FAR de Marrocos por 2-1 e venceu a Liga dos Campeões Africanos que já tinha vencido em 2016 com o mesmo técnico.
No tempo dos Cinco Violinos nada disto acontecia, o primeiro futebolista português transferido para outro país foi Rogério Lantres de Carvalho, o popular Pipi, que o Benfica contratou por dez contos.
A transferência pioneira de Rogério para o Brasil foi em 1947, o Botafogo contratou o português para atrair a colónia portuguesa no Rio de Janeiro, que só apoiava o Vasco da Gama. O Botafogo pagou 100 contos ao Benfica e ofereceu 40 contos ao jogador.
Antes de seguir para o Brasil, Rogério antecipou o casamento. O Botafogo instalou o casal num hotel de Copacabana, Rogério treinava de manhã e ia para a praia à tarde, mas entretanto a esposa engravidou, quis ter o filho em Portugal e decidiram voltar a Lisboa.
Mal chegou, Rogério usou os 50 contos que tinha ganho no Brasil para comprar um carro na Auto-Boavista e o dono convidou-o para vendedor. Como era figura popular não lhe faltavam clientes e tempos depois dizia que ganhava mais num dia a vender carros do que num mês a marcar golos no Benfica.
Em 1954, Rogério deixou o Benfica, onde fez 310 jogos e 210 golos, conquistando três campeonatos nacionais, seis Taças de Portugal e uma Taça Latina, em 1950, o primeiro grande troféu internacional do clube.
Rogério Lantres de Carvalho, o Pipi, foi o primeiro grande ídolo dos benfiquistas. Faleceu a 8 de dezembro de 2019 um dia depois de completar 97 anos.
Curiosamente, hoje em dia não faltam em Portugal e noutros países torneios de velhas glórias, os Liga Legends por exemplo, mas as velhas glórias que o público português continua a lembrar são o Pipi, os Cinco Violinos e outros.
Ainda há quem recorde uma piada dos anos 50, quando Peyroteo jogava no Sporting e Guilherme Espírito Santo no Benfica, contava-se que o verdadeiro sportinguista ao benzer-se devia dizer sempre em nome do pai, do filho e do Peyroteo, que o Espírito Santo é do Benfica.



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