Mais um Abril atravessa o meu corpo desde aquele de 1974, ano jubiloso, julgado inalcançável pela plebe.
Trespassaram 52 abris no tempo, mas nenhum até hoje me trouxe a flagrância exótica, exuberante, esperançosa e extremamente bela daquela manhã vivida à distância, mas encurtecida pelas emoções abismalmente profundas e sem explicação espiritual ou temporal plausível.
Até hoje, neste 2026 que me mantém hirto nas ideias, mas sobretudo nas recordações, não consegui ter outro dia completamente límpido de espírito e de aspiração tão sublime. Foi único como é única cada estrela que cintila aos nossos olhos na eternidade universal. E tudo porque a Liberdade é única, genuína e virgem, transparente e resplandecente, sem mácula, cume da perfeição dos sentimentos.
Liberdade, a Deusa que desceu por fim à terra negada ao povo e que o ajudou a refazer uma nova e ampla estrada para o seu destino. Inundou as almas dos que nunca temeram e sempre ousaram enfrentar o monstro sistémico que durante décadas lhes assombrava as noites. Irredutíveis, arremessaram de novo as suas vidas e bens mais preciosos, em defesa da Deusa que os protegia, mas sobretudo inspirava.
Liberdade ou morte! Gritaram em uníssono. Teriam triste final se mais uma vez falhassem no desalgemar da Liberdade. Torná-la livre abrindo a prisão da nação, onde todos e todas vivenciariam intimamente a largada do pensamento, das palavras e das ações. Foi por demais belo. Tão belo que o tempo não consegue distanciar da memória. Parece que foi ontem! E já passaram 52 anos. Desde então, já demos 19 mil voltas à nossa estrela solar. São já dezenas de milhares as pessoas nascidas adentro desta aurora magnânima – no útero da Mãe Liberdade.
Para os cinquentões de idade até aos recém-nascidos hoje e agora, a vida tem significado bem diferente da dos vossos pais e avós. Não são privilegiados por viverem em Liberdade. O contrário é que será desnatural. Foi o caso dos vossos precedentes. Todos e todas que vos antecederam, esses sim, viveram e sofreram em desnaturalidade. Mas também foram eles que ousaram no limite de todas as angústias.
Escasseiam cada vez mais aqueles que o podem ainda verbalizar na primeira pessoa. A morte, grã-final da existência, apodera-se de todos. Mas mesmo os que não vivenciaram o júbilo de 1974, manterão para sempre esta herança que mudou irremediavelmente o destino de um povo que continuará a abraçar a virtude dos seus filhos e netos viverem em liberdade de pensamento, de ação, livre iniciativa e decisão individual, sem quaisquer algemas penduradas ao canto da consciência. Cada um é livre para consciencializar as suas opções, as suas decisões e principalmente as suas restrições.
Ser livres, é sermos aquilo que o Universo nos fez para ser: Humanos.



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