Sorriso primaveril

by | Apr 29, 2026 | Crónica da Califórnia

 

Tempo lindo o da minha jovial infância saboreada numa animada ilha atlântica onde também a Natureza colaborava para dali afugentar as chatas tristezas da vida. Abril, nesse meu já distante tempo de menino e moço, abria-nos os sorrisos duma forma diferente dos outros meses do ano. O calendário ajudava imenso, ao brindar-nos com os ares salutares da primavera a libertarem-nos dos massacres atmosféricos do inverno. Os invernos ilhéus, por aquelas paragens, metiam medo e não perdoavam a quem lhes faltava ao respeito. O povo sabia disso e agasalhava-se conforme podia até a Quaresma dar lugar à Páscoa e o Espírito Santo pedir para sair à rua, ao som festeiro dos foguetes e das filarmónicas acompanhado os cortejos sempre coloridos com sorrisos primaveris. No ar havia já um gostoso cheirinho a festa adoçada pela deliciosa massa sovada, que “a minha saudosa mãe cozinhava como ninguém.” Ouvindo agora este nostálgico desabafo das bocas uns dos outros, não discutimos porque crescemos todos fartos de saber que gostos não se discutem.

Discutir gostos, como sabemos, é perder tempo e não dá bom resultado. Já o discutir ideias faz-nos bem e tende a ser tempo bem aproveitado. O mundo pula e avança, no bom caminho, à base de boas ideias debatidas e adubadas com civilidade. Sem prescindir da liberdade, claro está. E foi essa a grande batalha da minha mocidade. Tinha acabado de completar os meus dezoito anos quando aquela nossa histórica primavera nos brindou com esse inesquecível abril florido pela beleza dos rubros cravos enfeitando as armas dos militares felizes por não terem de dispara-las à toa. As balas entraram em greve e o povo saiu à rua, feliz da vida a prometer-lhe mudar para melhor o futuro empenhado em reconstruir-se diante dos seus olhos algo incrédulos pelo que estavam a ver – a ditadura a desaparecer, furibunda, sem apelo nem agravo. A democracia a acenar-lhe, sorridente, na serena simbologia dum cravo.

Foi uma eufórica festa que durou muitos dias, longos meses e, ainda hoje, mais de meio século depois, para quem viveu intensamente todas essas vibrantes emoções, de alma e coração abertos à mudança, apetece celebrar o que de bom se conquistou a doer. Sabe-nos sempre tão bem relembrar como a esperança deve ser sempre a última coisa a morrer. A ela nos apegamos fiados no que há muito reza a História – se o pobre do Zé Povinho se descuidar, esse tirano papão do ditador, a qualquer instante, pode voltar e deitar tudo a perder. Com o mudar dos tempos, como cantava o inspirado trovador desse abril já distante, vão-se mudando também as vontades, e as liberdades, se não forem atentamente estimadas como devem ser, aos poucos e poucos, podem murchar e lixar-nos a vida a valer. O valor de nos exprimirmos livremente, por exemplo, para quem escreve, hoje em dia, sem quaisquer preocupações de ser “censurado” ou até mesmo aprisionado, é deveras precioso.

Desde miudinho da escola primária, fui tomando o gosto pela escrita ingénua das minhas redações, a que o severo senhor professor costumava achar graça, classificando-as de “Muito Boas” por vê-las normalmente bem caligrafadas e sem erros de maior. O meu “erro” infantil, que jamais esquecerei, porque cedo me serviu de lição, foi o de gostar de ser engraçado. Não era o único. Havia mais um ou dois fedelhos do meu feitio. Éramos dos alunos melhorzinhos e, uma vez por outra, lá nos atrevíamos a testar a paciência do professor disposto a poupar-nos das reguadas destinadas aos mais tapados. Até um dia – quando cismámos cada qual rabiscar, em letra miudinha, na capa da sua SEBENTA, o tal manhoso dito então pegado às iniciais – Salazar É Burro E Não Tem Albarda. Apraz-me relembrar este caricato episódio por me continuar a fazer rir do ridículo dessas pesadas reguadas que quase me fizeram chorar. Aguentei-me, ainda não sei bem como e, à minha custa, ali aprendi o que mais tarde haveria de perceber muitíssimo melhor – a liberdade de expressão tem um preço inestimável.

Hei de estimar para sempre a boa memória de um dos meus melhores professores, já na minha juventude, que delirou de contentamento com a chegada festejada dessa liberdade mais do que desejada na vigiada vida de então. Rejubilou porque, como acentuaria depois, poeticamente emocionado, “o medo de se dizer e escrever, à vontade, o que se pensava, acabara ali. Fora-se o pavoroso pesadelo do excomungado lápis azul de que a maldita Censura se servira para torturar mentes cultas impedindo ideias adultas de poderem respirar ao livre. Liberdade, finalmente, deixara de ser apenas um sonho vago do porvir para se tornar na vívida realidade que fez (e faz) o povo sorrir. Pois, nada como ver  tanta gente feliz, abraçando suas liberdades com sorrisos primaveris.”

 

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