O Verão Quente na Nova Inglaterra, Veiga Simão, um Pide em New Bedford, República nos EUA, e as mortes do 25 de Abril.

by | Apr 29, 2026 | Expressamendes

 

O Verão Quente na Nova Inglaterra

Os dias que se seguiram ao 25 de Abril, o chamado Verão Quente, período conturbado que antecedeu as primeiras eleições livres em Portugal, foram animados na comunidade portuguesa da Nova Inglaterra.

Jaime Gama apareceu por aí apelando ao voto no Partido Socialista e a visita foi seguida com particular atenção pois dias antes tinham deitado fogo à sua casa em São Miguel e o presumível incendiário residia em Fall River.

Francisco Sá Carneiro e Mota Amaral estiveram num comício no auditório da UMass Dartmouth, que então se chamava SMU (Southeastern Massachusetts University), dando conta da criação do Partido Popular Democrático, que hoje se chama PSD.

Na assistência, Veiga Simão, último ministro da Educação do deposto governo caetanista e o primeiro embaixador do Portugal democrático nas Nações Unidas, nomeado pelo novo presidente, general António de Spínola.

Nunca se falou no papel de Veiga Simão durante a revolução portuguesa, mas viria a saber-se que foi intermediário do primeiro-ministro Marcelo Caetano e tentou obter o apoio dos Estados Unidos numa tentativa de solução da guerra colonial seguindo as teses de Spínola no livro “Portugal e o Futuro”.

A 2 de abril de 1974, Veiga Simão almoçou com o número dois da embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, o encarregado de negócios Richard Post, tentando persuadi-lo de que Marcelo Caetano poderia aceitar uma solução política na guerra colonial se tivesse apoio dos Estados Unidos, mas o secretário de Estado Henry Kissinger duvidou que as teses de Spínola contribuissem “para uma política mais flexível de Portugal em África”, conforme disse num telegrama enviado ao embaixador em Lisboa, Stuart Nash Scott, em 20 de abril de 1974, a cinco dias do derrube do governo de Caetano.

António de Spínola, que viria a ser o primeiro presidente depois do 25 de Abril, nomeou Veiga Simão o primeiro embaixador do Portugal democrático nas Nações Unidas, tornando-o no único membro do governo deposto a manter um cargo de relevo no novo regime.

Mas Spínola não se entendeu com os capitães do Movimento das Forças Armadas que instituiu a Junta de Salvação Nacional e abandonou a presidência a 11 de março de 1975 na sequência de uma gorada tentiva de golpe de Estado, exilou-se no Brasil e fundou o MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal), que levou a cabo uma vaga de atentados bombistas à sede de partidos de esquerda.

Nessa altura, Spínola deslocou-se várias vezes aos Estados Unidos tentando arranjar financiamentos comunitários para o MDLP invadir Portugal, mas a CIA ter-lhe-á recomendado que se deixasse de revoluções e gozasse o exílio brasileiro.


 

Veiga Simão em Fall River

Veiga Simão foi demitido das Nações Unidas pelo novo primeiro-ministro português general Vasco Gonçalves e decidiu ficar nos Estados Unidos como professor visitante da prestigiosa Universidade de Yale, de New Haven, Connecticut. Mantinha residência em Fall River e era presidente de uma organização que se propunha converter o Academy Building no Museu da Herança Cultural Portuguesa, mas a ideia nunca se concretizou e o edifício está hoje convertido em apartamentos para idosos.

Veiga Simão tinha a família em Portugal, não gostava de jantar só e jantava frequentemente com outra figura que o 25 de Abril projetou na ribalta política, José de Almeida, professor que Veiga Simão tinha nomeado director da escola técnica de Viana do Castelo quando foi ministro da Educação e que mais tarde Marcelo Caetano chamou para deputado da Ação Nacional Popular, o partido oficial do regime.

Depois do 25 de Abril, José de Almeida tornou-se líder da Frente de Libertação dos Açores (FLA), fixou-se em Fall River e todos esperávamos vê-lo a qualquer momento proclamar a independência dos Açores nas escadarias da igreja de Santo Cristo, na Columbia Street.

Entretanto, em julho de 1974, Mário Soares, ministro dos Negócios Estrangeiros do primeiro governo provisório português, aproveitou uma deslocação ao Canadá para participar numa conferência ministerial da NATO e deu uma saltada aos Estados Unidos para homenagear Abílio de Oliveira Águas, velho e cansado símbolo da resistência antisalazarista nos Estados Unidos.

Abílio Águas tinha sido cônsul de Portugal em Providence, mas reclamou um dia das más condições em que eram transportados os imigrantes cabo-verdianos, foi exonerado e tornou-se porta-estandarte da oposição salazarista nos Estados Unidos.

Conseguiu, por exemplo, que, a 1 de abril de 1970, Mário Soares, então exilado em França, viesse dar uma conferência de imprensa no Overseas Press Club, em New York, organizada pela revista Ibéria com patrocínio da Liga Interamericana dos Direitos do Homem e durante a qual denunciou a política colonial portuguesa e as prisões de Salgado Zenha e de Jaime Gama.

Águas tentou também publicar em língua inglesa o livro “Portugal Baillonné” (Portugal Amordaçado), que Soares tinha publicado em França numa edição de Alain Oulmon, o famoso compositor que renovou o repertório de Amália Rodrigues.

Mas como dizia, Mário Soares aproveitou a visita ao Canadá para se deslocar aos Estados Unidos e associar-se à homenagem a Abílio Águas e fiz parte de um grupo que foi ao aeroporto Logan, em Boston, apresentar-lhe as boas-vindas comunitárias.

O grupo era liderado pelo Jacinto Ferreira, ao tempo presidente da desaparecida LASA (Luso American Soccer Association) e, influenciado pelo espírito socialista do 25 de Abril, Jacinto achou por bem chamar camarada a Soares, dirigente do Partido Socialista Português. Porém, mal Jacinto proferiu “camarada Mário Soares”, foi interrompido pela voz autoritária de alguém que fazia parte da comitiva ministerial e que o corrigiu:

“Camarada não! Senhor doutor, se faz favor!”


 

Um Pide em New Bedford

Um grupo de portugueses aproveitou a presença de Mário Soares para se manifestar à porta do restaurante Venus de Milo, em Swansea, onde decorreu a homenagem a Abílio Águas.

Do grupo faziam parte, entre outros, o dr. Manuel Luciano da Silva, médico em Bristol, e o Raimundo Delgado, professor em New Bedford, dois grandes ativistas da comunidade portuguesa que já partiram e fazem falta pois não surgiu ninguém como eles.

Os manifestantes empunhavam cartazes que reclamavam a demissão do embaixador em Washingon (João Manuel Hall Themido) e a divulgação do nome dos pides existentes nos Estados Unidos.

Nenhum dos pedidos foi satisfeito. Hall Themido permaneceu em Washington até 1981, tendo sido dos poucos diplomatas a manter o posto depois da queda da ditadura e a sua permanência foi para tranquilizar o Departamento de Estado de que não haveria mudanças nas relações de Lisboa e Washington.

Quanto aos informadores da PIDE na comunidade portuguesa haveria com certeza alguns, mas não seriam muitos uma vez que não havia nos Estados Unidos grandes atividades de oposição política a Portugal.

Mas é curioso lembrar que, se naquela altura os manifestantes do Venus de Milo se tivessem deslocado ao consulado de Portugal em New Bedford poderiam eventualmente ter-se cruzado com o fugido sub-director da PIDE/DGS, o inspetor António Rosa Casaco.

No dia 25 de abril, Rosa Casaco encontrava-se no Porto à frente da delegação da PIDE e, quando se tornou claro que o levantamento militar triunfara em Lisboa, abalou para Espanha desaparecendo de circulação. Viria a ser julgado à revelia (apanhou oito anos de prisão que nunca cumpriu) e, apesar do mandado internacional de captura, com a Interpol à perna, o antigo pide passeava-se calmamente pelo mundo valendo-se sem dúvida dos compadrios e ter-se-á deslocado mais de uma vez a New Bedford para abraçar os netos e a filha, que era nem mais nem menos a esposa do cônsul de Portugal, Francisco Henriques da Silva, excelente diplomata, acrescente-se.

Ficaríamos a saber tudo isto em 1999, numa entrevista do próprio Rosa Casaco ao semanário Expresso.

E isto prova afinal que Portugal, 89.000 quilómetros quadrados, é demasiado pequeno e, mesmo em guerra uns com os outros, não deixamos de ser todos primos e primas.


 

Publicação do República nos EUA

O República foi um jornal diário de Lisboa fundado em 1911por António José de Almeida, sétimo presidente da República portuguesa (1919-1925) e que se evidenciou durante 48 anos na luta possível contra a ditadura estadonovista.

O jornal atravessou períodos difíceis, mas em 1972 teve um aumento de capital com a entrada para os seus quadros administrativos de personalidades como Mário Soares, Raul Rêgo e Gustavo Soromenho.

Entretanto, dá-se o 25 de Abril e desencadeia-se forte agitação interna no República pelo controlo do jornal e os gráficos e restante pessoal pertencente ao Partido Comunista expulsaram os socialistas e o República deixou de publicar-se a 20 de maio de 1975.

Nesse tempo eu trabalhava no Jornal de Fall River e Veiga Simão convidou-me um dia para ir jantar lá a casa e foi direito ao assunto: convidou-me a fazer parte da redação do República que o Partido Socialista se propunha relançar como semanário nos Estados Unidos, mas com distribuição em Portugal e noutras comunidades portugueses.

Aderi com agrado e Veiga Simão adiantou que o semanário seria dirigido pelo Raul Rêgo e da equipa redatorial fariam parte jornalistas como Mário Mesquita, Arons de Carvalho, Jaime Gama, António Reis e Álvaro Guerra, que colaborariam a partir de Lisboa, enquanto que eu e outros que viessem a ser contratados assegurariam notícias da diáspora portuguesa.

Veiga Simão calculava que o República made in USA pudesse começar a publicar-se dentro dois ou três meses, mas o projeto não avançou e Veiga Simão não deu nenhuma explicação.

O República que resistiu a 48 anos de ditadura, sobreviveu apenas dois meses em democracia e a razão é simples: em democracia não há ideais a defender.


 

As mortes do 25 de Abril

O 25 de Abril foi uma revolução diferente, teve uma canção como senha (“Grândola Vila Morena”) e ganhou o nome de Revolução dos Cravos pelo facto dos soldados terem colocado flores no cano das espingardas. Infelizmente ficou marcada pela morte de quatro civis frente à sede da polícia política na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, quando agentes dispararam das janelas sobre a multidão que se manifestava na rua.

Os civis mortos foram Fernando Luís Barreiros dos Reis, José James Hartelay Barreto, João Guilherme de Rego Arruda e Fernando Carvalho Gesteira. O luto atingiu uma família portuguesa radicada nos Estados Unidos.

João Arruda nasceu a 13 de janeiro de 1954 na ilha de São Miguel, Açores e tinha toda a família, mãe e 12 irmãos, imigrada na cidade de Fall River, Massachusetts. João pensou ser padre e foi estudar na Universidade Católica, em Braga. Acabaria por desistir, matriculou-se na Universidade de Lisboa e trabalhava no Serviço Nacional de Emprego. No dia 25 de abril, juntou-se a um grupo que se manifestava frente à sede da PIDE/DGS e isso custou-lhe a vida.

 

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