Quando os espanhóis faziam peregrinação revolucionária a Portugal

by | Apr 8, 2026 | A Descoberta

 

Com quase 300 anos, a Bertrand do Chiado é a livraria mais antiga do mundo. Por ficar numa zona turística de Lisboa, é visitada por muitos estrangeiros, como o casal espanhol que perguntava há dias a uma das funcionárias que livros havia sobre o 25 de Abril. Contaram que alguém da família lhes falou de vir até Portugal na época revolucionária, que coincidiu com o último ano da ditadura de Franco. “Dizia que tinha vindo experimentar a liberdade. Como estou em Lisboa, fiquei curioso”, explicou o homem, que seria criança em 1974/1975.

Meti-me na conversa e sugeri ‘Revolução’, de Maria Inácia Rezola. O espanhol garantiu que se desenrascava a ler português. Também lhe falei de ‘Abril é um país’, de Tereixa Constenla, ex-correspondente em Lisboa do ‘El País’. O livro foi publicado em espanhol e quando saiu a tradução entrevistei a jornalista e confirmou-me que em Espanha se levou muito a sério a Revolução Portuguesa de 1974. Quem estava no poder ficou surpreendido pela facilidade com que a outra ditadura ibérica caiu. Também foi surpresa para eles terem sido os militares a fazer a Revolução dos Cravos, ou ‘Revolución de los Claveles’. Mas não havia risco de imitação do outro lado da fronteira: as forças armadas ainda eram  herdeiras das tropas franquistas que ganharam a Guerra Civil (1936-1939). Por isso houve lá Transição e não Revolução. 

“A seguir ao 25 de Abril, houve autênticas peregrinações de espanhóis que vieram aqui a Lisboa para ver o que era a liberdade, que vieram visitar Portugal, o país da liberdade”, contou-me um dia Constenla, num café no emblemático Largo do Carmo.

Quem estava habituado a visitar Portugal, pois os pais viviam exilados em Cascais, era o herdeiro escolhido por Franco, o futuro rei Juan Carlos. Foi com ele que, após a morte do ditador, se fez a Transição, com os setores reformistas do franquismo a perceberem graças ao exemplo português que era hora de mudar a Espanha. Foi um caminho de sucesso para ambos os países, como contam alguns livros à venda na Bertrand. Em 1986, Portugal e Espanha entravam na CEE. A Europa reconhecia assim que a democracia triunfara na Península Ibérica, mesmo que por dois caminhos diferentes. Mas o caminho português deu uma ajuda a criar o espanhol.

 

* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.

 

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