A duas horas rodoviárias da capital uruguaia e a três da fronteira brasileira, a cidade de San Carlos é um símbolo resistente do povoamento açoriano na América do Sul, a par do litoral catarinense e gaúcho. Passados mais de dois séculos e meio, as marcas materiais dessa herança cultural são visíveis ou deduzíveis, mas, também aqui, as pessoas é que fazem a diferença…
Da Praça Açores ao Cemitério Açoriano
Na cidade uruguaia fundada pelos açorianos em 1763, “as antigas casas portuguesas eram de barro e, depois, de pedra; mas não chegaram à atualidade; como não eram classificadas, não foram preservadas; agora são quase todas de estilo espanhol” – explica a presidente da Casa dos Açores do Uruguai, com aparente desconforto. Mas Alícia Quintana Diaz acrescenta também, com evidente entusiasmo, que “volta a estar na moda a casa de pedra; particulares começam a construir muros de pedra sobre pedra, apesar de mais dispendioso, evocando assim o antigo estilo colonial português”.
As dúvidas desvanecem-se quando se chega à “Plaza Islas Azores” – uma ampla praça pública especialmente vocacionada para a prática desportiva da juventude local (talvez por isso inundada de grafitis) – que foi inaugurada há 17 anos, na 7ª festa açoriano-carolina, por obra do Município de San Carlos e por graça da Casa dos Açores. A sua placa toponímica, em azulejos artesanais de azul e branco, exibe a representação iconográfica das nove ilhas açorianas. E uma outra faz a síntese do reconhecimento municipal: “Aqui termino el viajo y empezo la historia – Azorianos Fundadores – 1763”.
Fica-lhe próximo o Teatro Municipal de Verão “Cayetano Silva”. O anfiteatro sazonal presta homenagem ao antigo músico local descendente de escravos ao serviço da família açoriana Silva. Cayetano foi o compositor da “Marcha de San Lourenzo” executada pela guarda de honra do Palácio de Buckingham, em Londres.
Na praça central da cidade, ergue-se a Igreja de San Carlos Borromeu, padroeiro da cidade, também construída na época açoriana de 1801. Detrás desta, o Cemitério Museu expõe lápides funerárias que testemunham o povoamento açoriano: “Juan Pimentel, 16-12-1773, natural de la isla del Pico, marido de Maria de Rosa”. Algumas com aparente imprecisão: “Domingo Pereira Telles, 21-11-1784, presbítero natural de Angra en la isla del Pico de 85 anos”.
Heróis, Presidentes e Alcaides de sangue açoriano
A própria praça central ostenta um monumento que faz adivinhar o contributo açoriano na fundação da cidade e até na independência do país. Homenageia o coronel Leonardo Oliveira, descendente de açorianos, que tomou a fortaleza de Santa Teresa, na fronteira com o Brasil, dos portugueses para os espanhóis. E exibe a seguinte inscrição: “A los heroicos carolinos servidores en las guerras de independencia nacional”.
De resto, há uma dezena de antigos Presidentes do Uruguai com assumida ascendência açoriana, como, por exemplo, Júlio Maria Sanguinetti (1985/90), que foi o primeiro do pós-ditadura, Luís Alberto Lacalle (1990/95) e José Mujica (2010/15), este descendente da família açoriana Terra.
Terá também ascendência açoriana, como o seu antecessor Gregório Quintana, a alcaldesa do Município de San Carlos, Alba Rijo Garcia, empossada em 2015. Alba era diretora municipal de Cultura quando visitou as ilhas de S. Miguel e Terceira em maio de 2013, para participar numa conferência comemorativa dos 250 anos do povoamento açoriano no Uruguai, realizada na Universidade dos Açores. Para ela, “andar pelas ruas dos Açores é como caminhar pelas calles de San Carlos”.
Uma casa cheia de vida
A Casa dos Açores do Uruguai, desde a sua antecessora associação “Los Azorenos”, desempenha um papel fundamental para preservar e valorizar a herança cultural do povoamento açoriano como identidade histórica da cidade de San Carlos.
A sua face mais visível é o grupo folclórico – cuja fundação remonta à comemoração do bicentenário da cidade em 1963 – com danças tradicionais uruguaias e açorianas interpretadas por cerca de 40 elementos em três escalões de formação (crianças, adolescentes e adultos) dos 4 aos 51 anos de idade.
Paralelamente, dinamiza também outros três grupos: o grupo teatral “Azorteatro” (fundado há 22 anos com 17 elementos), o grupo coral “Coroazores” (que há mais de 10 anos interpreta repertório tradicional açoriano) e o grupo musical “Terceira” (com 12 instrumentistas que tanto acompanham as atuações corais como executam as “Criollas” – composições tradicionais do folclore uruguaio que remontam à colonização espanhola sem descartar a influência açoriana).
Mas o evento emblemático da Casa dos Açores do Uruguai é a realização anual das “Fiestas Azoriano-Carolinas”. Desde há 24 anos, são três dias de música, dança, teatro, conferências e exposições de temática açoriana que cativam e mobilizam a comunidade de San Carlos.
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Diretor Regional das Comunidades do Governo da Região Autónoma dos Açores
Texto inspirado na visita realizada em 2015 à comunidade açordescendente do Uruguai





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