Os nossos netos distantes

by | Mar 4, 2026 | Décima Ilha

 

Porto Alegre, antigo “Porto dos Casais” e atual capital do Estado mais sulista do Brasil, e Gravataí, a cidade-berço da Casa dos Açores do Rio Grande do Sul, são duas marcas perenes do povoamento açoriano a 10.000 quilómetros marítimos do arquipélago paterno. Mas outros municípios da região gaúcha preservam ainda, com empenho e orgulho, a herança cultural dos primeiros casais açorianos… quase 300 anos depois!

 

As comunidades de base cultural açoriana

Caçapava do Sul, Gravataí, Guaíba, Jaguarão, Canguçu, Osório, Pelotas, Piratini, Porto Alegre, Rio Grande, Rio Pardo, Santa Maria, Santo António da Patrulha e Viamão são as cidades brasileiras envolvidas no projeto “Vestígios Açorianos” que a Secretaria de Estado da Cultura, do governo estadual do Rio Grande do Sul, desenvolveu com a artista plástica Denize Domingos, para “resgatar a memória e valorizar a herança” da cultura açoriana na cultura gaúcha.

Santo António da Patrulha, por exemplo, mantém um núcleo informal de dinamização cultural com eventos como as “Cavalhadas” (em aparente semelhança com a tradição própria da cidade micaelense da Ribeira Grande), a “Moenda da Canção Nativa” (um festival de música tradicional com preferência para temas de origem açoriana) ou o “Baile de Masquê” (uma dança de homens trajados de mulheres que foi aqui desenvolvida pelos primeiros açorianos).

Como outro exemplo, a cidade de Gravataí organiza há quase 40 anos, em outubro, a “Carreteada”, que envolve mais de 100 carros (ou carretas) de bois, recuperando, com impacto turístico, o hábito introduzido pelos açorianos de utilizar este meio de transporte para apoio agrícola e, agora também, para passeio familiar.

Mas outras pequenas cidades testemunham também o legado açoriano no Rio Grande do Sul. É o caso de Mostarda, que se assume com o slogan turístico de “Cidade Açoriana”, uma comunidade agrícola de 10.000 habitantes a 200 quilómetros de Gravataí, tal como o seu semelhante município de Tavares, que lhe fica a 30 quilómetros de distância.

 

Do Divino ao Folclore

Na cidade de Gravataí, a Festa do Divino foi instituída em 1859, interrompida durante três décadas e retomada há cerca de duas décadas. Como explica Célia Fagundes, antiga presidente da Casa dos Açores com mestrado e obra publicada sobre o culto local do Espírito Santo, “um mês antes é levantado o mastro, encimado com uma pomba, para sinalizar que a festa está começando. Inicia-se a recolha de donativos levando as bandeiras pelas casas e comércio. Os devotos fazem seus pedidos colocando fitas nas bandeiras e no fim da festa as fitas são queimadas para formalizar as preces”.

O tríduo preparatório, a missa da coroação do casal imperador, o cortejo do Divino pelas ruas da cidade e o arraial cultural na Casa dos Açores são componentes tradicionais do programa festivo, sempre engalanado com as bandeiras confecionadas pelas próprias bordadeiras de Gravataí. “A festa de doar perdeu-se com os padres de origem alemã e italiana”, mas a Casa dos Açores faz o pão do Divino que o seu grupo folclórico distribui pela população.

O Rancho Folclórico da Província do Quero-Quero é mesmo um dos principais emblemas culturais da atividade permanente da Casa dos Açores. Régis Gomes, o fundador da instituição, é o seu ensaiador há quatro décadas. Com três dezenas de elementos de diferentes idades, incluindo tocadores de viola da terra e bandolim do Pico, o grupo apresenta trajes e temas de quase todas as ilhas. Régis explica que “o Pezinho é a dança mais tradicional do Rio Grande do Sul e o povo até considera que esta é a dança mais gaúcha, porque se aprende na escola”.

 

Os Açores de cá e de lá

Seja na festa do Divino ou no grupo de Folclore, a marca açoriana permanece presente no Rio Grande do Sul – com relações institucionais (Porto Alegre é cidade-irmã da Ribeira Grande há mais de 40 anos e Gramado está geminada com Angra do Heroísmo há menos de 20 anos) e com iniciativas populares, como a Transportadora “Açores” ou o Edifício “Açorianos” em Gravataí.

Aliás, esta cidade regista também o condomínio residencial “Dom Feliciano”, que tem as suas 74 vivendas desde há 10 anos distribuídas por arruamentos designados como “Alameda Açores”, “Rua Terceira”, “Rua Graciosa” e “Rua Faial”, e conta ainda com a “Casa Açoriana”. Este restaurante foi criado há 20 anos por Sebastião Gomes Terra, em homenagem aos seus antepassados, de que muito se orgulha, até porque sua bisavó (Felicidade Gonçalves Terra) foi a primeira professora oficial da sua cidade natal (Santo António da Patrulha).

Ademais, a Região Autónoma dos Açores foi o “país convidado” da Feira do Livro de Porto Alegre, a maior da América do Sul, realizada há mais de 70 anos, em outubro. Foi em 2016, no âmbito das comemorações do 40º aniversário da nossa Autonomia Constitucional. 

 

Diretor Regional das Comunidades do Governo da Região Autónoma 
dos Açores. Texto inspirado na visita realizada em 2015 à comunidade açordescendente do Rio Grande do Sul

 

0 Comments

Related Articles