Bretanha Paulista

by | Feb 11, 2026 | Décima Ilha

 

Só a cidade de S. Paulo tem 12 milhões de habitantes. Encontrar aqui a presença açoriana é, naturalmente, como “procurar uma agulha num palheiro”. Mas, ainda assim, ela existe e, mais do que isso, dignifica-nos. Primeiro foram as xácaras dos terceirenses a justificar a “Rua Paim” e a “Rua Pamplona” mesmo junto à emblemática Avenida Paulista. Depois os micaelenses, especialmente da freguesia da Bretanha, que vieram nos anos cinquenta trabalhar em tecelagem italiana. Agora é uma Casa dos Açores, já com 45 anos de existência ativa em Vila Carrão, que orgulha uma comunidade multicultural com a sua festa popular em louvor do Divino Espírito Santo. 

 

Vila Carrão

A grande causa da emigração açoriana para a maior cidade brasileira, a partir dos anos 40 e 50, foram os sucessivos contratos de trabalho conseguidos por numerosas famílias micaelenses, especialmente provenientes da freguesia da Bretanha, com colocação garantida na fábrica de tecidos Guilherme Giorgi e Minerva.

A tecelagem de propriedade italiana funcionava maioritariamente com mão-de-obra açoriana no bairro paulista de Vila Carrão. O bairro era então tão distante e precário que a própria fábrica construiu uma vila de casas modestas para acolher os seus trabalhadores, cujo número crescia nas décadas de 60 e 70 e justificou instalar aqui a própria Casa dos Açores de São Paulo em 1980.

Com o encerramento desta fábrica que chegou a empregar cinco mil operários, “alguns viraram açougueiros ou padeiros”. Depois, os filhos dos primeiros açorianos foram procurando os seus próprios espaços em municípios limítrofes como Itupeva ou Mogi das Cruzes. Mogi conta hoje com meio milhão de habitantes e envolve toda a cidade, incluindo a comunidade japonesa, na festa do Espírito Santo, organizada há 400 anos por uma Irmandade brasileira.

Já no sul da cidade de São Paulo, Vila Medeiros é outro bairro que chegou a registar um número significativo de portugueses provenientes das ilhas açorianas – tanto que ainda tentaram fundar ali a própria Casa dos Açores, que acabaria por vingar no bairro predominante de Vila Carrão.

 

Histórias de vida

Em Vila Carrão residem ainda os “açorianos originais”, que carregam décadas de histórias por contar.

António de Medeiros Machado nasceu em Vila Franca do Campo e emigrou para São Paulo com 16 anos de idade. Nunca voltou aos Açores. “Era uma despesa muito alta”. Só mata saudades pela RTP/Internacional. Casou com uma madeirense, tem quatro filhos, todos com dupla nacionalidade, e seis netos, todos formados. “O Brasil para nós sempre foi bom; ultimamente é que bagunçaram com ele” – desabafa ainda com indisfarçável sotaque micaelense.

Eliana dos Anjos Sousa Pimentel, natural das Capelas, rumou a São Paulo aos 15 anos de idade, com os irmãos, em 1954, para se juntar ao pai na tecelagem de Vila Carrão, “porque a crise estava brava lá”. Vinha só por dois anos – “até deixei a cama feita para voltar” – mas ficou para sempre. Trabalhou 30 anos das dez da noite às cinco da manhã. “Nos anos 50 havia uma febre de emigrar para o Brasil, mas quando chegavam quebravam a cara. Tivemos que ficar com uma dívida de mais de 100 mil cruzeiros só para as viagens. No início foi muito difícil. Vivíamos até pior do que lá. Era uma casa muito mixuruca de aluguer. Minha mãe queria ir embora. Até quando a gente conseguia comprar um tapete chamava toda a vizinhança para ver”. Mas hoje, quando se olha para trás, “apesar de tudo, valeu a pena”.

Maria Ana Sousa Salvador Soares deixou o Pilar da Bretanha aos nove anos de idade, em 1952, e veio trabalhar na tecelagem italiana, com os seus pais e seis irmãos. “Minha mãe chorou como gente grande”. A casa era muito pequena, mas, como trabalhavam por turnos, também dormiam por turnos. “A cama estava sempre quente”.

 

História de sucesso

Tal como boa parte dos residentes em Vila Carrão e voluntários da Casa dos Açores de São Paulo, Manuel de Medeiros, o primeiro presidente da instituição, nasceu em São Miguel, na Bretanha. Veio com 14 anos de idade, em 1954, acompanhando os pais e três irmãos, e também começou por trabalhar na fábrica de tecelagem “Guilherme Jorge”.

Há 60 anos, fundou com o seu primo a empresa “Majam”, que fabrica os equipamentos para pintura de marca “Arpex”. Depois, transferiu as instalações da cidade de São Paulo para o condomínio industrial do município vizinho de Mogi das Cruzes. Passou de 3.300 para 12.000 metros quadrados de construção num terreno de 72.000 metros quadrados. Tem 170 funcionários e fornece cerca de 70% do mercado brasileiro. 

O industrial Manuel de Medeiros – fundador, primeiro presidente e benemérito da Casa dos Açores – tem quatro filhos e quatro netos, todos com cidadania portuguesa e brasileira. Recebeu uma comenda de Portugal, atribuída por Mário Soares sob proposta de Mota Amaral. Gosta muito da sua terra, mas acha que “o Brasil é o melhor país do mundo” …

 

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Diretor Regional das Comunidades do Governo da Região Autónoma dos Açores
Texto inspirado na visita realizada em 2015 à comunidade açoriana de São Paulo

 

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