De mentes dementes

by | Jan 28, 2026 | Crónica da Califórnia

 

Acabámos de arquivar o primeiro quarto deste acelerado século XXI. Acelerado, acentuo, simplesmente por não perceber o porquê da sua pressa, ao fazer estes vinte e cinco anos da minha vida passarem-se a uma velocidade que eu bem dispensava. Talvez seja só impressão minha, mas parece-me não ter sido assim há tanto tempo a viragem do milénio que me apanhou todo descontraído então a gozar os benefícios facilitados aos habitantes da acolhedora casa dos quarenta. E não vou mencionar aqui as diferenças para não me chamarem chorão, prestes a bater agora à porta da dos setenta, casota que apenas imagino conhecer pelas queixas dalguns amigos e amigas descontentes com as regalias que nela não encontram. Esta coisa da gente se aposentar desejosos em disfrutarmos a boa vida que sonhamos enquanto andamos a trabalhar como moiros danados para nos reformarmos, tem muito que se lhe diga e bastante mais que se escreva.

Eu é que já não consigo escrever com o mesmo apetite com que o fazia dantes. Cavacos do ofício talvez de quem sente o tempo a fugir e a faltar para tudo o que apetece fazer. Fiz, no entanto, questão de dar ouvidos ao meu médico da saúde mental que, anteontem, me aconselhou e encoraja a não deixar de rabiscar seja lá sobre o que for. “Acredite-me”, disse-me ele, “é uma das coisas que faço porque gosto e também porque preciso para descomprimir a minha mente incomodada com tanto do que vê e bem preferia não ver.” Tive a ousadia de o interpelar, “pode exemplificar-me, doutor?” E ele pareceu-me honesto, ao responder-me, “faz parte da minha especialidade, bem como da minha pessoa, deixar-me sensibilizar com o facto de cada vez topar mais gente desarranjada da sua mente cedendo à quotidiana sobrecarga do stress por aí à solta na sociedade dos nossos dias.” Gosto de conversar descontraídamente com ele por o considerar boa pessoa e achar, igualmente, dono duma mente brilhante.

A minha, longe de o ser, como inúmeras outras, deixou-se ferir, no entanto, pelo desfecho da horrorosa tragédia que, se bem se recordam, trouxe escusadamente Portugal e os portugueses para o centro das atenções americanas, há cerca de um mês, pela pior das razões. Claro que o choque se foi e deixou de ser tema a merecer a devida atenção. A desgraça falou por si, todavia um intrigante pormenor ficou-me a bailar no miolo perplexo com a estranha sina dos tais dois compatriotas nossos (Nuno Loureiro e Cláudio Valente), implacavelmente vitimados à furiosa lei da bala. A curiosa particularidade de ambos terem sido conotados como possuidores de “mentes brilhantes”, enquanto estudantes frequentando o mesmo curso superior ainda em Lisboa, dá que pensar, mas não para perceber de todo. Uma mente, por mais brilhante que seja no académico mérito de absorver o conteúdo seja lá de quantos livros for, jamais poderá permitir ao seu dono pegar numa arma para ceifar cruelmente vidas alheias antes de dar cabo da sua. A não ser que avarie por completo.

É o que mais peço aos céus para o resto dos meus dias cá pela Terra – que me ajudem a conservar a mente razoavelmente sã, à medida que o corpo começa a dar sinais de querer avariar aqui e acolá. Uma mente saudável é um bem sem preço neste mundo, onde nunca sabemos qual o fim que nos espera. Estava bem longe de esperar, Nuno Loureiro, esse aclamado cientista luso, residente há cerca de uma década nos Estados Unidos, ao abrir cordialmente a porta a um ex-colega de curso, que ele viesse venenosamente armado com o vil fim de lhe roubar a vida diante da mulher e filhos. Ainda por cima compatriota, supostamente frustrado ou consumido pelo letal vírus da inveja de não ter atingido o patamar de sucesso de Nuno, Cláudio decidiu entregar imbecilmente a alma ao diabo e provar aos olhos de quem rotulara a sua mente de brilhante, ser afinal possuidor duma mente doente.

Infelizmente, está cheio de razão o meu simpático médico, indignado por demasiadas mentes doentes continuarem com fácil acesso a armas capazes de provocarem tragédias horríveis, inexplicáveis. E o problema a agravar-se de forma preocupante, confiou-me ele, “é vermos, do outro lado da moeda, as tais mentes pintadas de brilhantes dalguns governantes que elegemos provando precisamente o contrário, ao permitirem que esses horrores se vão repetindo sem apontarem medidas ou procurarem soluções que os tentem travar.” … “Estaremos a falar de mentes dementes e irresponsáveis, sempre a quererem sacudir a água do capote?” Insinuei com ironia, antes dele me expressar com desagrado, “dói-me bastante dizer-lhe que sim.” E mais não adianto, por agora, neste arranque para um ano que espero nos brilhe com melhores sinergias do que o anterior.

 

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