Janeiro, o 1º mês, traz no nome a divindade romana de Janus e suas duas faces: o passado e o futuro. É a face resplandecente de Janus que abre 2026, assinalando quinhentos anos de multiculturalidades tecidas – da memória histórica à construção do futuro. Há cinco séculos, em 25 de novembro de 1526, o navegador italiano Sebastião Caboto, a serviço da Espanha, batizou a Ilha e terras continentais de “Santa Catarina” em homenagem à mártir Santa Catarina de Alexandria(nascida em 287d.c. e falecida aos 18 anos, por volta de 305d.c.) Para alguns, teria sido um agrado à mulher Catarina Medrano, controvérsias à parte, os historiadores catarinenses, Osvaldo R. Cabral, Henrique Fontes, Walter Fernando Piazza, Carlos Humberto Corrêa e Jali Meirinho, reconhecem que o nome se deve à figura mítica de Santa Catarina de Alexandria. Dados documentais registram a presença de Caboto no sul da Ilha de Santa Catarina no dia 25 de novembro. Sebastião Caboto parte de Sanlúcar em 1526 e chega à costa catarinense a 19 de outubro daquele ano e, aqui permanece até 15 de fevereiro de 1527, no Sul da Ilha, na região do atual Ribeirão da Ilha, quando segue rumo ao sul do continente, retornando à Ilha um ano depois. Ao batizar à ilha e às terras continentais o nome de Santa Catarina, o navegador Sebastião Caboto uniu para todo o sempre o nosso destino à figura mítica da mulher, Santa Catarina de Alexandria. Do batismo à Ilha e terras continentais em 1526, passou a nomear a Capitania de Santa Catarina em 11 de agosto de 1738, foi Província de Santa Catarina do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e, depois, do Império do Brasil em 28 de fevereiro de 1821, finalmente, Estado de Santa Catarina. A data magna do Estado é 11 de agosto, quando se celebra a criação da Capitania. E, também, 25 de novembro, dia da Padroeira do Estado há 5 séculos.
Por todos os 295 municípios, sobretudo em Florianópolis, a capital dos catarinenses, é tempo de celebrar os 500 anos de Santa Catariana, conhecendo as múltiplas significações que dignificam o topônimo “catarinense”, a valoração social, o trabalho e a riqueza de sua composição étnica. “Catarinense” é símbolo de gente aguerrida, empreendedora, realizadora. Verdadeiro dínamo gerador de energia criativa! Dos povos originários, dos povoadores açorianos e madeirenses, dos imigrantes nasceu a identidade da multiculturalidade tecida por tantas etnias. Povos de todas as geografias que fizeram deste solo a sua “terra prometida”. Basta reconhecer os processos de assimilação e aculturação que configuram o amálgama da gente catarina, tal qual uma liga metálica, um todo coeso que aprendeu na convivência das diferenças impulsionar o cooperativismo, promover o desenvolvimento e a prosperidade.
O verdadeiro DNA da cultura dos catarinenses está na identidade pessoal e coletiva, nas expressões de vida, nas histórias de famílias, ancestralmente plantadas, e que deram frutos singulares assinalados no mapa cultural das diferentes regiões do Estado: no salame colonial dos italianos em Ipumirim, na vindima Goethe de Urussanga, no Kerbfest de Peritiba, na Wigilia, ceia dos 12 pratos no Natal dos eslavos, de Itaiópolis a Papanduva, ou nas pêssankas dos ucranianos de Iracema e região; na arte em madeira dos tiroleses de Treze Tílias (Dreizehnlinden); nas músicas kuruck, dos húngaros de Jaraguá do Sul; nos populares kafta, tabule e o kibe dos árabes; o costume da polistrina dos gregos, a tradição alemã do assustador Pelznickel ( Krampus ) de Guabiruba que desde 1860 aparece ao lado do bondoso São Nicolau (Sinterklaas) até as nossas tradições açorianas das rendas de bilro, dos Ternos de Reis às festas do Divino Espírito Santo entre nós desde 6 de janeiro de 1748.
Não é apenas o topônimo e o louvor à Santa Catarina que celebraremos em 2026. E sim, os 500 anos de formação de um estado ímpar, de uma convergência multicultural de povos de todas as latitudes que fizeram a terra barriga verde, construíram a Santa Catarina do século XXI – da inovação, das tecnologias, da sustentabilidade, das culturas, do novo olhar geracional. É preciso dar a conhecer aos catarinenses a Santa Catarina de 500 anos e, juntos, desenhar o Amanhã que queremos.
Lélia Pereira Nunes, Diretora de Patrimônio Cultural de Santa Catarina





0 Comments