Na diáspora comunidade significa conservar a identidade e pertença

by | Jan 14, 2026 | Discurso Português

 

Na leitura da excelente crónica de Matthew Arruda sobre Miguel Gomes e o seu uso das Mil e Uma Noites (Portuguese Times, 10-11-2025) como moldura narrativa, encontra-se a chave para repensar a imprensa da diáspora e o papel que ela pode desempenhar na inclusão das novas gerações. Arruda mostra, por exemplo, como o cinema pode ser ponte entre mundos, traduzindo símbolos universais para uma realidade portuguesa marcada pela crise e pela memória. Esta operação, gesto de tradução cultural, constitui o que precisamos de cultivar na imprensa da diáspora: traduzir não apenas a língua, mas também os símbolos, os arquétipos e as narrativas que sustentam a identidade coletiva. Melhor ainda, uma edição paralela em inglês, online, e adaptada no conteúdo editorial – introduzida gradualmente –, daria acesso às gerações – como os meus filhos e netos – que se identificam connosco, mas não leem o idioma dos pais e avós. 

A tradução do trabalho de Arruda – como o de outros colaboradores, e seções da edição em papel – seria um passo largo para consolidar uma imprensa que conserva a identidade para além do idioma. A maior parte dos jovens da diáspora já não dominam o português como língua de uso quotidiano, mas continuam a procurar símbolos que lhes permitam sentir-se parte de uma comunidade diaspórica que já se reconhece como o “Portugal, nação de comunidades”. Ao tornar acessíveis crónicas como a de Arruda, não apenas se abriria espaço para a compreensão estética e política, mas também oferecer-se-ia uma plataforma para que novas gerações se reconheçam na memória e na cultura. A identidade não se perde quando a língua se transforma: conserva-se nos símbolos, nos rituais, nas histórias que atravessam fronteiras.

Não se trata de um modelo único ou inédito. A comunidade “latina” nos Estados Unidos já o experimentou, e dele fez uma prática corrente. A sua imprensa bilingue prospera e caminha para além do presente, abrindo espaço para novas gerações, enquanto, simultaneamente, defende um futuro em que a identidade se conserva para além da língua. É este mesmo caminho que a imprensa da diáspora portuguesa pode seguir, aprendendo com exemplos que mostram que traduzir é incluir. 

Tal como Scheherazade contou histórias para adiar a morte, também a diáspora as conta para retardar o esquecimento. O emigrante português, seja no Canadá ou na Alemanha, ao evocar o mar, manifestar a saudade ou viver as festas do Espírito Santo, não só entretém como molda a identidade dos filhos e netos, cria continuidade cultural, e transforma ausência em presença. À imprensa da diáspora, na sua função que transcende a notícia, cabe assumir este papel pedagógico e simbólico, oferecendo também narrativas que não se limitam a informar, mas que educam e reforçam pertença. O trabalho de Arruda aponta este caminho: uma crítica cultural que é também reflexão sobre identidade – uma narrativa que se adapta à realidade específica da existência para além do espaço territorial da língua portuguesa sem menosprezar ou diminuir a participação no exercício pleno da nacionalidade na sociedade que nos acolheu.

Ao defender esta ligação, não se propõe só a tradução literal de textos, mas outrossim a tradução simbólica de experiências. A comunicação social deve ser capaz de mostrar que a identidade portuguesa na diáspora não se reduz ao idioma, mas se expande em práticas, memórias e símbolos que podem ser partilhados em várias línguas. O essencial é conservar pertença e o afeto através das gerações. A língua constitui veículo, mas não é o único porque a identidade sobrevive quando se transmitem os símbolos, se contam as histórias, e se vivem os rituais.

Ao dialogar com o cinema e com a tradição ocidental das Mil e Uma Noites, a crónica de Matthew Arruda, mostra que a narrativa é istmo entre o passado e o presente, entre Portugal e a diáspora, entre a língua portuguesa e outros idiomas que se tornam parte da vida comunitária. Ao traduzir aquele e outros trabalhos numa edição bilingue, estaríamos a afirmar que a identidade não se dissolve na mudança linguística, mas reinventa-se na adaptação. Estaríamos a manifestar às novas gerações que podem ser parte da comunidade mesmo que falem inglês, francês ou alemão. O que importa é o reconhecimento dos símbolos e das histórias que nos unem no afeto.

À imprensa da diáspora sugiro assumir a responsabilidade de ser espaço de tradução e travessia. Assim, deve conservar a identidade para além da língua, incluir as novas gerações, e adaptar-se às realidades específicas da vida comunitária fora do território português. Tal como Scheherazade, sabemos que na diáspora comunidade significa conservar a identidade, reinventá-la e transmiti-la para além da língua.

 

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