O Natal já esteve proibido em Massachusetts

by | Dec 23, 2025 | Cultura

 

Por incrível que pareça, o Natal já esteve proibido em Massachusetts e a história começa na Inglaterra do século XVII, quando os puritanos quiseram acabar com o Natal considerando-o sem fundamento uma vez que os Evangelhos não mencionam a data de nascimento de Jesus.

Os puritanos eram um movimento protestante de reforma religiosa que pretendia “purificar” a Igreja Anglicana de resquícios católicos, defendendo uma fé baseada estritamente na Bíblia. Vieram para a América do Norte para estabelecer uma sociedade baseada nas suas crenças religiosas e também trouxe os Julgamentos das Bruxas de Salem, onde centenas de mulheres foram acusadas de bruxaria e 19 foram enforcadas num dos episódios mais sombrios da história americana.

Em dezembro de 1620 os puritanos fundaram a colónia de Plymouth, em 1629 a de Massachusetts, em 1635 as colónias de Saybrook e Rhode Island, em 1636 a colónia de Connecticut e em 1638 a de New Haven.

Os puritanos, que tinham vindo para a América para não serem perseguidos pelas suas crenças começaram também a perseguir os outros por causa das suas divergências religiosas e a colónia de Rhode Island foi estabelecida por colonos expulsos de Massachusetts e que eram liderados por Roger Williams, fundador da Igreja Batista nos Estados Unidos.

Para Rhode Island vieram também os quakers, igualmente expulsos de Massachusetts. Os quakers fundaram a colónia da Pennsylvania em 1681 tornando-a um refúgio de liberdade religiosa e tolerância. Acrescente-se que os quakers, hoje cerca de 400.000 e metade dos quais nos Estados Unidos, criaram a American Friends Service Committee (AFSC) e influenciaram o surgimento de organizações como a Amnistia Internacional e o Greenpeace.

Entretanto, na Inglaterra medieval, o Natal popularizou-se com um festival de 12 dias com todos os tipos de comemorações para celebrar o nascimento de Jesus, incluindo banquetes extravagantes como os que eram promovidos pelo rei Henrique III, cujos convidados se empanturraram com 600 bois numa ceia de Natal.

Em 1645, durante o governo puritano de Oliver Cromwell, o Natal deixou de ser considerado feriado religioso em Inglaterra e em 1647 tornou-se mesmo proibido celebrar o Natal. A proibição durou até 1660, quando o rei Charles II retornou ao trono e restaurou o Natal como celebração pública legal.

Seguindo o exemplo de Inglaterra, os puritanos norte-americanos baniram o Natal em Massachusetts em 1659, suspendendo a proibição apenas em 1681, mas a sua hostilidade ao Natal e ao catolicismo de um modo geral manteve-se e agravou-se em certas ocasiões, nomeadamente durante a Revolução Americana pelo facto de muitos católicos serem simpatizantes da realeza britânica.

Nos Estados Unidos, o Natal foi pouco celebrado até à Guerra Civil, que reforçou para muitos a importância do lar e da família.

Até 1850, as fábricas e escolas na Nova Inglaterra funcionavam no dia 25 de dezembro, não se celebrava o Natal. Em Washington, o Senado e a Casa Branca também ignoravam o Natal e só em 1870 é que o presidente Ulysses S. Grand declarou o Natal feriado nacional, assegurando a legitimidade da celebração do nascimento de Jesus Cristo em qualquer estado.

Além disso, com o afluxo de imigrantes na segunda metade do século 19, que trouxeram as suas próprias tradições natalícias, os Estados Unidos apaixonaram-se pelo Natal que se converteu numa celebração nacional.

Hoje, 95% dos americanos católicos e protestantes celebram o Natal com troca de presentes e jantares familiares, grande parte pelas tradições familiares e não pelo aspeto religioso, mas a antiga hostilidade contra a fé católica não desapareceu por completo e um exemplo é o presépio de Pawtucket, RI.

O caso girava em torno de uma decoração natalícia anual num parque público de Pawtucket, o Slater Memorial Park, que incluia símbolos natalícios como o Pai Natal, renas, uma árvore de Natal, uma faixa com as palavras “Boas Festas” e um presépio.

A União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) contestou a inclusão do presépio explicitamente religioso em propriedade pública, argumentando que violava a Cláusula de Estabelecimento da Primeira Emenda. O caso prosseguiu em tribunais federais inferiores (o Tribunal Distrital Federal de Providence e o Tribunal de Recurso do Primeiro Circuito), que consideraram o presépio inconstitucional.

Em 1984, o caso chegou ao Supremo Tribunal e, numa decisão de 5 a 4, os juízes reverteram as decisões anteriores sustentando que a exibição do presépio tinha de retratar as origens históricas do Natal e promover um espírito comunitário amigável, e não era um endosso governamental da religião.

Este caso estabeleceu a chamada “regra da rena” mencionada na concordância da juíza Sandra O’Connor, que permite um símbolo religioso em propriedade pública se fizer parte de uma exposição maior que inclua outros símbolos natalícios, mas um presépio sozinho em propriedade pública é inconstitucional.

O Festival Anual de Inverno de Pawtucket continua a realizar-se no Slater Memorial Park e conta este ano com 650 árvores iluminadas, um carrocel e um Pai Natal gigante, mas sem presépio para evitar confusões.

 

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