“Desvendou o caso”, a afirmação é do procurador-geral de Rhode Island, o lusodescendente Peter Neronha, e ilustra bem a importância da informação atribuída ao sem-abrigo que permitiu à polícia localizar o suspeito do tiroteio na Universidade Brown de Providence, que matou dois estudantes e feriu outros nove, e da morte do português Nuno Loureiro, físico do Massachusetts Institute of Technology (MIT), de Boston.
Um sem-abrigo, identificado como “John”, cruzou-se com o suspeito numa casa de banho do edifício Barus & Holley, onde se localiza a faculdade de engenharia da Brown e onde pouco depois se daria o tiroteio e estranhou que vestisse roupas inadequadas para o frio da Nova Inglaterra nesta altura do ano e depois do tiroteio, voltou a vê-lo num Nissan Sentra cinzento e alertou a polícia.
Dia 13 de dezembro, cerca de 60 alunos, a maioria caloiros, tinham passado duas horas no auditório a preparar-se para o exame. De repente, ouviram-se gritos no corredor do lado de fora e um homem armado e mascarado entrou na sala de aulas e começou a disparar.
Os primeiros polícias não tardaram e encontraram dois alunos mortos, Mukhammad Aziz Umurzokov, 18 anos, e Ella Cook, 19. Ella, aluna do segundo ano, era natural do Alabama, e Mukhammad, aluno do primeiro ano, era de nacionalidade uzbeque.
O cenário era um pesadelo, além dos mortos, nove feridos, alguns em estado crítico. Foram disparados 44 tiros de 9 mm e o atirador deixou dois carregadores com capacidade para 30 cartuchos.
Na manhã do dia 14 de dezembro, com base numa denúncia da polícia de Providence, o FBI seguiu o telemóvel de um possível suspeito até um hotel em Coventry, Rhode Island, a cerca de 32 quilómetros a sul de Providence. Agentes federais e locais detiveram um homem de 24 anos, natural do Wisconsin e no seu quarto encontraram duas armas de fogo. Parecia uma prova convincente, mas os investigadores ainda não tinham recebido os resultados dos testes científicos das provas e, nessa noite, quando os resultados chegaram, ficou claro que tinham detido o homem errado.
Entretanto, analisando as câmaras de segurança na área circundante, os investigadores descobriram imagens de um homem corpulento com um blusão cinzento escuro e máscara cirúrgica que apareceu várias vezes em vídeo ao final da manhã e início da tarde antes do tiroteio, circulando em torno do edifício Barus & Holley. Várias testemunhas identificaram o homem como sendo o atirador.
A polícia pediu a ajuda do público divulgando na televisão um vídeo do suspeito a caminhar na Brown, mas o rosto estava coberto pela máscara. As câmaras de vídeovigilância mostraram que, durante quase duas semanas antes do tiroteio, o indivíduo rondou o campus da Brown.
Foi então que “John” informou a polícia sobre o carro do suspeito. Assim que souberam do carro, os investigadores concentraram-se nas câmaras de trânsito, e localizaram o Nissan num vídeo e o registo levou a uma empresa de aluguer de automóveis em Boston e, depois, ao nome da pessoa que tinha alugado o carro, Cláudio Manuel Neves Valente, natural de Portugal, 48 anos, residente em Miami, Flórida, que tinha frequentado uma pós-graduação em física na Brown desde o outono de 2000 até se afastar na primavera de 2001, e que abandonara o curso em 2003.
Dia 15 de dezembro, outro português, Nuno F.G. Loureiro, 47 anos, professor do Massachusetts Institute of Technology, de Boston, foi assassinado a tiro quando entrava no seu apartamento em Brookline, subúrbio de Boston.
Os investigadores que trabalhavam no caso Brown não viram, a princípio, qualquer ligação entre o massacre em Rhode Island e o assassinato de um professor num subúrbio de Boston, a 80 quilómetros de Providence.
Os polícias foram de porta em porta nos bairros de Brookline à procura de imagens de câmaras de vídeosegurança e a polícia divulgou imagens de Cláudio Valente a menos de um quilómetro do prédio de apartamentos onde Nuno Loureiro residia e há ainda imagens dele a entrar no prédio e, uma hora depois do crime, foi também visto a entrar no armazém de arrecadações em Salem, New Hampshire.
Cláudio Valente tornou-se suspeito não só do tiroteio na Brown, mas também do homicídio de Brookline. No dia 18 de dezembro, uma equipa de intervenção táctica (SWAT) do FBI preparava-se para deter Cláudio Valente no armazém de Salem e deu com ele morto com um ferimento de bala auto-infligido.
Foi encontrado perto da unidade de armazenamento que tinha alugado e junto dele estava uma bolsa que continha duas armas de fogo e provas que “correspondiam exatamente às recolhidas no local do tiroteio”, disse Ted Docks, agente especial do FBI responsável pelo caso.
Não foi encontrada nenhuma nota explicativa de Neves Valente, mas uma coisa é evidente: a autópsia revelou que se suicidou dois dias antes da polícia o ter localizado, portanto no dia em que Nuno Loureiro morreu.
De todas as perguntas pendentes sobre o crime, aquela a que o procurador-geral Peter Neronha disse que mais gostaria de responder é a do motivo: porque é que um antigo e brilhante aluno de física decide matar um antigo colega e dois alunos da universidade que tinha frequentado? Sobre esta questão, os investigadores ainda estão sem resposta.






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