Lope Martim de Lagos: pioneiro a cruzar o Pacífico nos dois sentidos

by | Dec 23, 2025 | A Descoberta

 

O português Fernão de Magalhães, ao serviço de Espanha, foi o primeiro a cruzar o Pacífico, oceano que batizou. Viajou do que é hoje o Chile até às Filipinas. Magalhães foi morto em 1521, e Juan Sebastian Elcano acabou por violar o Tratado de Tordesilhas e navegar para Ocidente, através de mar dito português, no que foi a primeira circum-navegação. Quatro outras expedições espanholas às Filipinas falharam depois a chamada Volta, ou Torna-viagem do Pacífico, até que em 1565 foi finalmente possível ir da Ásia para a América. E quem o conseguiu em primeiro lugar foi um piloto português, Lope Martim de Lagos, mulato nascido no Algarve. E fê-lo ao serviço de Espanha, que, porém, não ficou agradecida.

Toda esta aventura da Volta é contada no livro ‘Conquering the Pacific: An Unknown Mariner and the Final Great Voyage of the Age of Discovery’, do mexicano Andrés Reséndez, professor na Universidade da Califórnia, em Davis. De Lope Martim de Lagos sabe-se muito pouco, nem sequer a data de nascimento. Mulato livre, era algarvio, piloto experiente, viveu em Espanha e por isso também é referido como Lope Martín de Ayamonte.

Em finais de 1564, uma frota comandada por Miguel López de Legazpi partiu de Barra de Navidad, México, com destino às Filipinas. A embarcação mais pequena era o San Lucas, um patacho, com Alonso de Arellano como capitão e Lope Martim de Lagos como piloto. Por causa de uma tempestade, afastaram-se dos outros navios e chegaram primeiro às Filipinas. Durante algumas semanas esperaram pelo resto da frota. Depois, carregaram produtos e tentaram o regresso. Falharam o Japão, onde pretendiam reabastecer-se, e foram até águas muito a norte. Finalmente, desceram e chegaram ao vice-reino de Nova Espanha, o atual México, em agosto de 1565. O San Lucas foi recebido em festa.

Passados dois meses, chegou ao México o galeão San Pedro, pilotado por Andrés de Urdaneta, muitíssimo experiente marinheiro e frei, até hoje oficialmente o abridor da rota Manila-Acapulco. Desconfiou-se da proeza do San Lucas, mas a canela, a seda e as cerâmicas trazidas eram a prova de que tinha ido à Ásia. Depois, Arellano e o português foram acusados de desrespeito a ordens, e até traição, e se o capitão espanhol se safou, já a situação do piloto tornou-se séria. Finalmente, surgiu uma bizarra oferta para Lope Martim de Lagos fazer nova viagem como piloto em 1566 às Filipinas, sob comando de Sanchez Pericón, que levava a carta secreta que dava ordens para o português, quando desembarcasse, ser enforcado.

O piloto nascido no Algarve fingiu não perceber o que se passava, mas em alto mar provocou um motim e assumiu o controlo do navio, o San Jerónimo. Tinha-se prevenido contra surpresas contratando no México marinheiros da sua confiança, incluindo portugueses. Mas numa ida a terra, foi a vez de Lope Martim de Lagos ser traído. Foi abandonado com outros marinheiros num atol, nas atuais Ilhas Marshall. É um mistério o seu destino.

 

* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’. 

 

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