Éramos uma terra entre nós

by | Dec 17, 2025 | "Circunstâncias"

 

 

No meu imaginário da infância, vejo a minha mãe sentada à mesa, sóbria e modesta, na sala de jantar da casa de adobe, nas Salinas, sul de Angola. Está sob a imensa noite africana. A tépida luz do candeeiro a petróleo emite pequenas e frágeis cintilações ao seu redor enquanto escreve uma carta para a minha avó Irene, em Ponta Delgada.

– Será que chega antes do Natal, José?

 Do lado de fora, algures nos matos, chega-lhes o riso cínico das hienas. De súbito, o farejar de um leão junto à porta. Apreensiva, olha de relance para o meu pai, que já coloca cartuchos na espingarda.

– Ouves, José?

O meu pai pressiona um dedo contra os lábios, pedindo silêncio. Exibe uma expressão determinada no rosto. A luz ambiente reflete-se nas lentes dos óculos, com um tom laranja exangue, enquanto avança em direção à porta, arma em riste. Tem mais duas balas no bolso direito das calças. Nunca se sabe.

Passados momentos, um silêncio carregado de mistério interpõe-se entre eles e o animal.

– Será que se foi embora, José? Ou estará deitado lá fora?

– Não há razão nenhuma para ele estar aqui à espera de uma bala. Escreve. Amanhã vou à Gabela1  deixar a carta. Nem que vá a pé.

***

Mamã

Salinas, Natal de 1956

Temos o Natal à porta. 

Escrevo com o cansaço de um dia imenso. Mais pelas arbitrariedades deste clima inclemente do que por qualquer outro fator. Embora esteja ocupado com a fazenda, José ajuda-me bastante com as crianças. 

Esta manhã, reparei que a minha pele tem perdido a cor europeia. Não está áspera como a casca de uma árvore, mas escureceu sem que me apercebesse. Gosto desta vida, apesar do isolamento social. Mas às vezes a cor dos dias parece esvair-se nas minudências do quotidiano, um sopro entre céu e terra, sem as novidades de uma cidade às quais estava habituada. Se não fosse o Diário dos Açores, que Mamã tem o cuidado de enviar cada vez que escreve, ficaria com a sensação de que o mundo é só este, entre cafeeiros, palmares, calor, sol e chuva. 

A ténue luz do candeeiro ajuda pouco, ainda mais com o vidro chamuscado pelo fumo do uso. Os meninos estão na cama. Tomaram banho na selha lá fora com a água fresca do rio, a metros daqui, e que passa pela nossa propriedade com pequenos peixes e até camarão! É um espaço de deleite, mas que não tem a fascinação do mar das nossas ilhas. 

Tencionava enviar a Mamã algumas fotografias recentes dos meninos, mas José esqueceu-se de levar o rolo na última vez que foi à Gabela. Fica para a próxima vez. 

Improvisámos uma pequena árvore de Natal que um trabalhador trouxe do mato. Está num canto da sala, enfiada numa lata de azeite, dessas grandes, e disfarçada com um papel vermelho que encontrei numa caixa. Não temos presépio, nem o cheiro nem as luzes de Natal, mas sim o espírito dessa tradição. Trouxe tudo isso da ilha – a solenidade, a crença e a devoção ao Menino. É nestas alturas que a saudade aperta mais – estar com a família desse lado, as lembranças. Mas a terra e o mar que nos separam são muito grandes.

Fico por aqui. O José meteu-se no quarto e já deve estar encostado. Acorda muito cedo. Faz o café e vai bebê-lo lá fora, na entrada da casa, mesmo de pé. Ali mesmo fuma o primeiro cigarro. É um hábito de anos. 

Votos de um bom Natal e com as boas recordações daqueles que passámos juntos. Beijinhos para a Mamã e Josezinho dos meninos, e meus. Para a família também. Cumprimentos do José. 

 

Maria Eduarda

 

¹Fundada com o nome N’Guebela em1907, e situada no município do Amboim, Cuanza-Sul. Grande centro agrícola, mormente fazendas de café, tido com dos melhores do mundo nos anos de 1970.

A fazenda Maria Eduarda era um lugar isolado do mundo, a cerca de 30 quilómetros da Gabela, terra onde nasci. Nos anos cinquenta, as estradas em Angola (vulgo picadas) tornavam-se, na estação das chuvas, quase intransitáveis. A valentia dos rústicos automóveis da época não chegava para enfrentar lamaçais e buracos. Era frequente ficarem atolados, e à mercê daqueles que eventualmente pudessem dar um reboque. Por força das circunstâncias, o meu pai fez o trajeto a pé até à Gabela inúmeras vezes, de botas de cano alto e panamá

 

 

0 Comments

Related Articles