Foram a primavera e o inverno mais lindos da minha vida, até àquele ponto. Brindava-me a fogosa idade dos dezoito, acabadinhos de festejar num fevereiro sempre “frio c’ma burro” naquelas nossas atlânticas ilhas de bruma, onde a invernia não perdoava. Estávamos ainda longe de sentir os incómodos efeitos do atual “aquecimento global”, perfeitamente dispensável naquele histórico ano em que o abrasante calor não esperou pelo verão para escaldar o nosso pequeno país com vibrantes emoções de nunca mais esquecermos. Queimava por aqueles dias os últimos cartuchos como aluno residente na tal “Santa Casa Mimosa”, ali à subida da Miragaia, o já extinto Seminário Episcopal de Angra, que me marcou fortemente a vida de então jovem sonhador com um mundo melhor. E o meu mundo, naquela aliciante etapa da minha vida, passava muito pelo acolhedor espaço do palco, onde me sentia bem e bastante aprendi sob a briosa batuta do saudoso Álamo Oliveira.
Era o ano de 1974, com a impiedosa Censura também acabada de ser engaiolada, a par da sua amada Ditadura, pelos valentes militares dum abril imortal na História de Portugal. Livre de escrever o que me apetecesse e amante da arte de representar, de que me havia de lembrar? Toca a rabiscar, como aprendera com o Álamo, sobre o joelho, uma rábula que depressa amadureci em texto formatado para peça de teatro. Não perdi tempo em passar a ideia à malta amiga e o projeto também não demorou a ganhar o dinamismo ambicionado para poder subir ao palco por altura do Natal, lá nos nossos pitorescos Biscoitos. Prezávamo-nos de ser um irrequieto grupo de moços estudantes com muita vontade de fazer coisas interessantes, mas o problema eram as moças. Precisávamos de duas para o elenco da peça e de mais uma ou outra que viesse dar mais graça ao ensaio das “Variedades”, onde incorporámos “Quadros Vivos”. Vivia-se ainda aquela era, no meio rural, em que às raparigas não lhes era permitido andarem caldeadas com os rapazes, sem consentimento dos pais. Valeram-nos o chofer de praça local mais o nosso guarda fiscal serem pessoas fixes e o empecilho resolveu-se.
As férias de verão vieram mesmo a calhar para combinarmos detalhes e improvisarmos ensaios que o outono acomodou como calhou até chegarem as férias do Natal, onde as expetativas haviam crescido por se tratar dum espetáculo um tanto ou quanto diferente do que a nossa gente estava habituada a ver por aquelas bandas. Depois de perceber que aquilo ia ser coisa de jeito, a Sociedade Filarmónica local havia-nos disponibilizado o palco e a estreia foi marcada para a Noite de Consoada, mesmo antes da Missa do Galo. A sensibilizante temática do programa integrava-se perfeitamente na quadra natalícia e escusado será dizer que o apelativo show, aplaudido de pé por “casa à cunha”, deu brado nas redondezas. Os contatos foram imediatos com outros salões doutras freguesias (à volta de vinte) a pedirem a atuação do nosso jovem grupo nos seus palcos, a fim de partilharmos todo aquele contagiante entusiasmo que nos fez correr a ilha rendida à nossa calorosa mensagem de Natal representada até vésperas do Carnaval.
Meio século é muito tempo e, no entanto, não fosse o espelho a desmentir-me, quase me parece ter sido anteontem toda esta inesquecível sequência de nostálgicas vivências a empoeirarem-se-me na mente cansada demais para o meu gosto. Contudo, de quando em vez, apraz-me recordar esse pertinente período do nosso viver, tão distinto no preenchimento dos nossos tempos livres do que hoje topamos por aí. Há quem diga não haver possível comparação e com alguma razão. Vendo agora os nossos netos demasiado agarrados aos seus eletrónicos “gadgets” a moldarem-lhes os comportamentos, ainda mais me apego às saudades dessa fascinante fase em que até improvisávamos os nossos brinquedos e quase inventávamos as nossas próprias brincadeiras. Daí não ser justo comparar épocas porque nem eletricidade pública havia então, e televisão… era vê-la por um canudo. Tornava-se fácil, por conseguinte, aliarmos a vontade à necessidade de nos juntarmos para darmos largas à nossa criatividade geradora do tão apreciado calor cultural a agasalhar-nos gostosamente os meses invernosos.
Engenhosamente, por me cair bem o trocadilho meteorológico, intitulei o tal curto texto teatral de “Dezembro Quente”. E numa fria noite desse longínquo inverno, lá levámos a nossa caravana de entretenimento para o salão das vizinhas Quatro Ribeiras. Um dos atrativos desse nosso espetáculo era ser apresentado com a ajuda do som emitido dum velhinho gravador e também duma improvisada caixa elétrica montada com interruptores indispensáveis para acendermos e apagarmos luzes a cores durante os “quadros vivos”. A eletricidade, nesse salão, funcionava através dum manhoso motor que, para azar nosso, se negou a trabalhar à hora marcada para o programa começar. E agora? Com a casa cheia de gente acomodada à luz da vela, se eu disser que ninguém arredou pé durante cerca de uma hora, estou em crer que não me irão acreditar porque tal “milagre” presentemente não aconteceria. Era a magia dum Natal, infelizmente, quase desaparecido hoje em dia.





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