A “Black Friday” açoriana

by | Dec 3, 2025 | Crónica do Atlântico

Os Açores estão a viver momentos muito parecidos ao que aconteceu em 2021 com as malfadadas Agendas Mobilizadoras.

A trapalhada, que envolvia 117 milhões de euros, meteu comissões de inquérito e outros escrutínios, mas todos sabemos como acabou. Uma desgraça!

Agora temos três “agendas” que mobilizam os poderes regionais (Plano Regional 2026, PRR e privatização da SATA) e toda a gente receia que o resultado seja semelhante ao que se passou naquele tempo, em que a única cabeça que rolou foi o inadvertido Bastos e Silva.

A coisa resume-se em poucas linhas: o Plano para 2026, aprovado com as abstenções do PS e Chega, traz água no bico, o PRR não irá ser executado na íntegra (porque não conseguimos cumprir o Plano anual de investimentos, quanto mais dois planos em simultâneo), e o processo de privatização da SATA é empurrado para mais um ano, para desgastar mais o governo e dar trunfos à oposição.

Nunca se viu tamanhos erros políticos estratégicos de um governo, que vai entrar no penúltimo ano do seu mandato, entregando de bandeja à oposição a possibilidade de, daqui a um ano, aquando do próximo debate do Plano e Orçamento, fazer um balanço desastroso de tudo e provocar a queda do executivo regional.

Se o governo cair no próximo ano, coisa mais do que provável, porque nenhum partido vai querer ficar colado a um balanço negativo dos Planos e da privatização da SATA, José Manuel Bolieiro correrá o risco de ser o primeiro Presidente do Governo da história da Autonomia a não terminar nenhum mandato.

Neste cenário, se houver eleições antecipadas no ano seguinte e a coligação obtiver o mesmo resultado, mais uma razão para a oposição fazer cair o governo pouco tempo depois, porque então já sabe que José Manuel Bolieiro não se poderá recandidatar, por ter completado as três legislaturas como estipula a lei.

Ou seja, um Presidente que tem na lei a possibilidade de completar 12 anos de mandato, poderá acabar por realizar pouco mais da metade.

Tudo isto é um cenário, é verdade, mas o actual governo de Boleiro, como se diz na gíria, está mesmo a pedi-las, sabendo-se no Palácio de Santana e na sede do PSD (com alguma ingenuidade) que, enquanto existir Francisco César, o poder está seguríssimo.

A aprovação do Plano e Orçamento para 2026 é um sinal positivo do PS e do Chega, que transmitem um sinal de estabilidade ao governo para aplicar o PRR e o PO 2030. É como quem diz: damos as condições para governarem, não têm desculpas para não cumprirem com o que prometem, no final fazemos contas.

E o final será daqui a um ano, no novo debate do Plano e Orçamento para 2027, o último deste governo, em que também se fará o balanço da execução do PRR e da privatização da SATA, numa altura em que o governo estará ainda mais desgastado e, muito provavelmente, no auge da sua impopularidade.

O balanço, obviamente, não vai ser bom, sendo o suficiente para reprovar o Plano e Orçamento do ano seguinte e provocar a queda do governo.

Se  não temos condições para executar num ano o plano de investimentos, como será com mais um plano em cima, o PRR?

Pior: para agravar um ano difícil de execução de fundos comunitários, de negociações com a República sobre a Lei de Finanças Regionais, para executar obras do PO 2030, para concluir a privatização da SATA, como é que chegaremos ao final de 2026 com um bom desempenho da governação?

Este governo tem cometido erros básicos de estratégia política. O da SATA é mais um parecido às Agendas Mobilizadoras.

O processo de privatização foi um desastre. Tudo mal gerido desde o início.

O desgaste deste governo com este caso é muito semelhante ao que se passou com a gestão ruinosa dos governos do PS, mas a coligação não aprendeu nada.

Em vez de se desenvencilhar rapidamente deste problema, que afecta a sua popularidade, o governo de Boleiro decide arrastar a trapalhada por mais um ano, queimando-se em lume brando com a aprovação maliciosa e burocrática da Comissão Europeia.

Será mais um ano de prejuízos a entrar nas nossas algibeiras e uma indefinição numa transportadora aérea, que afecta cada vez mais a Air Açores.

É procurar mais um suicídio atrás do outro.

Um dos grandes mistérios neste processo é não se perceber como é que o consórcio candidato à privatização consegue um entendimento com os sindicatos para reduzir custos, coisa que o actual dono – o Governo Regional – nunca conseguiu, pelo menos nesta ordem de grandeza.

Houve tempo mais do que suficiente para que este processo ficasse resolvido este ano. José Manuel Bolieiro, Duarte Freitas e Berta Cabral são os responsáveis pelo descalabro das negociações, ora recusando vender ao consórcio, ora aceitando mais tarde com medo dos tribunais, ora aceitando os sucessivos pedidos de adiamento por parte do consórcio, numa novela medíocre que assistimos em casa, sem saber que a factura vem acompanhada no final do ano.

Tudo isto foi mal gerido desde o início, com um processo de privatização em que não devia haver concurso nenhum, mas negociações directas com interessados. Era só copiar o processo de reprivatização da TAP. 

Chegados a esta altura – por ironia em tempo da ‘black friday’ -, é como está entregue a Região: leva quem dá mais barato.

A Azores Airlines vai ser vendida com o passivo limpo, com rotas reestruturadas, com um plano de poupanças em curso, com um activo de 9 aeronaves, montes de slots em vários aeroportos estratégicos, com a aceitação, por parte dos trabalhadores, de uma redução temporária de alguns privilégios e, como se não bastasse, descarregam nos trabalhadores a trágica narrativa da tranche do “Cachalote” para não pagar o subsídio de natal por inteiro.

Apesar de tudo, a privatização da Azores Airlines não significa que ficaremos sem acesso ao exterior. 

As Obrigações de Serviço Público mantêm-se e certamente haverá, até, reajustamentos de operações com o exterior devido ao provável cancelamento das rotas da Ryanair, outro problema mal gerido. 

As companhias aéreas que voam para os Açores vão estar à espreita de mais oportunidades. 

Devemos estar mais preocupados é com a passividade do governo perante estes cenários todos. 

Está mais do que demonstrado que, em matéria de reforma dos transportes – aéreos e marítimos -, este governo é de uma nulidade absoluta a gerir os processos. 

A SATA é o que é, a Easyjet foi o que se viu, a Ryanair é o que se está a ver, o aeroporto de Ponta Delgada parece em estado de sítio no Verão, o problema da ampliação da pista do Pico continua engavetado, o da Horta está nas mãos do amigo Arnaut, que ninguém incomoda e até lhe carregam a bagagem quando cá vem em  missão anual para arrecadar as taxas, os transportes marítimos é aquilo que todos sabemos, pelo que este rol de gestão ruinosa não é bom cartão de visita para nenhum governo, a precisar de profunda remodelação.

Acresce a enorme desorientação interna no governo.

Duarte Freitas anunciou a redução de custos na máquina pública, na ordem dos 30 milhões de euros, que é apenas metade da indemnização que vamos pagar pelo famoso “Cachalote”.

Na semana seguinte a Secretária da Saúde anuncia a criação de um Observatório para as Dependências. 

Um mês depois o Secretário dos Assuntos Parlamentares anuncia uma Direcção Regional para o Espaço.

No debate do Plano e Orçamento é anunciado mais um Observatório para o Clima no Atlântico.

Ou seja, mais despesas públicas para um sector empresarial público sempre a crescer, e mais Observatórios a juntar à montanha deles que pululam na administração regional sem ninguém saiba quantos são e o que fazem, tudo ao contrário do que a coligação prometeu no seu primeiro programa eleitoral.

Mas a desorientação deste governo vai mais longe.

A 9 de Outubro, quando se conheceu a proposta do Orçamento de Estado, O Presidente do Governo manifestou a sua “satisfação”, acrescentando que “todas as aquelas que foram as nossas previsões estão asseguradas”.

O deputado do PSD na Assembleia da República, Paulo Moniz, diria quatro dias depois que a proposta de orçamento era “um documento justo, que cumpre com os açorianos”.

Um mês depois, no final do Conselho Regional do PSD, certamente por ter sido acossado por vários conselheiros, Bolieiro vem desdizer: “O Orçamento de Estado deu passos tímidos e não justos suficientes para os Açores”.

É para acreditar em Outubro ou em Novembro?

Esta desorientação no interior do PSD é o reflexo do que também se passa na coligação .

O ataque directo do CDS a Berta Cabral é bem o espelho do ambiente que se respira nesta governação, onde não é novidade governantes falarem mal uns dos outros.

É neste cenário que o novo ano que vem aí não traz boas notícias.

Temos um  governo frágil, uma oposição fraca, uma economia a desacelerar, o turismo a arrefecer, os transportes no descalabro, o custo de vida a galopar e falta de gente para trabalhar.

Que a quadra natalícia ilumine o Dr. Bolieiro!

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