Foi Liam Neeson quem interpretou Cristóvão Ferreira no filme ‘Silêncio’, de Martin Scorsese, a partir do romance homónimo de Shusaku Endo. O filme lançado em 2016, apesar da fama do elenco e do prestígio do realizador, não foi um sucesso de bilheteira, nem ganhou óscares, mas deu a conhecer a meio mundo um jesuíta português que no século XVII foi perseguido pela sua fé e acabou por apostatar, adoptando depois um modo de vida japonês, recebendo até novo nome.
Ferreira nasceu em Zibreira, concelho de Torres Vedras, em 1580. Entrou muito jovem ao serviço da Companhia de Jesus e depois de um período de estudos seguiu para o Oriente. Teria pouco mais de 20 anos quando chegou à Ásia, prosseguindo a sua formação teológica em Goa e em Macau, então possessões portuguesas na Índia e na China, respetivamente. Ordenado padre em 1608, viajou até ao arquipélago nipónico no ano seguinte, com um fervor missionário que o levou a estudar a língua japonesa. Mas a perseguição aos cristãos acentuava-se.
Depois da boa receção dada ao cristianismo nas primeiras décadas após a chegada dos portugueses ao Japão em 1543, com milhares de conversões, incluindo de nobres, veio um período de crescente repressão, com a nova fé a ser vista como ameaçadora para a unidade nacional. Com a tomada do poder em 1603 pelo clã Tokugawa, uma dinastia de xóguns que durante dois séculos e meio mandou mais do que os imperadores, intensificou-se a repressão aos cristãos japoneses. Os padres estrangeiros foram expulsos, mas alguns como Ferreira continuaram a viver no Japão, na clandestinidade. Em 1633, finalmente detido, o jesuíta português não resistiu à tortura e cometeu apostasia.
Como o português tinha passado a ser superior provincial dos jesuítas, a apostasia de Ferreira teve um grande impacto nos círculos cristãos fora do Japão. Foram enviadas cartas clandestinas a apelar que regressasse à fé cristã. E houve missionários a arriscar a vida em viagens ao Japão para o convencer a voltar ao cristianismo. O que se sabe é que Ferreira adotou o nome Sawano Chuan, foi forçado a casar, e escreveu textos em japonês, alguns deles de teor anti-cristão.
Terá morrido em 1650 em Nagasáqui, 11 anos depois da expulsão oficial dos últimos comerciantes portugueses do Japão. Há uma versão do final da vida do português que dá como certo o regresso ao cristianismo, para logo ser martirizado.





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