Há vidas que não se limitam a passar pelo mundo — atravessam-no com propósito, deixando atrás de si um rasto de ternura, dignidade e memória. Zeca Rodrigues foi uma dessas vidas raras: discreta, mas luminosa; humilde, mas transformadora; uma presença que redesenhou San Diego e, de muitas maneiras, toda a paisagem luso-americana da Califórnia. A sua partida deixa um eco profundo, daqueles que o tempo não apaga porque estão entranhados no coração de uma comunidade. Nutro por ela um afeto imenso e um respeito permanente, nascidos do seu carácter e renovados sempre que recordo o muito que nos deu à comunidade portuguesa da Califórnia, o muito que preservou e o que permanece como legado.
Zeca nasceu em Paul do Mar, essa estreita faixa de terra onde o Atlântico respira contra a rocha e a infância se molda pela coragem que o mar exige. Chegou aos Estados Unidos em 1968, no mesmo ano em que eu cheguei com os meus pais, e, tal como eu, sem falar inglês, mas com a determinação de quem sabe que atravessar um oceano é também atravessar-se por dentro. Por um momento, a América tentou renomeá-la Mary Jo, mas esse nome nunca lhe pertenceu; Zeca era o nome da alma, o nome da ilha, o nome que viajou com ela até Berkeley, até Paris e, finalmente, até San Diego, onde se tornaria uma ponte para tantos outros.
Concluiu os estudos na Point Loma High School, formou-se na UC Berkeley com um minor em Línguas Românicas, passou uma temporada em Paris e esteve prestes a seguir para Perugia, não fosse a vida — com as suas curvas inesperadas — redesenhar os planos, como tantas vezes faz. De regresso a San Diego, investiu toda a sua energia e compaixão no ensino de ESL e no trabalho com jovens imigrantes, muitos deles portugueses, mexicanos ou vietnamitas, que enfrentavam a mesma desorientação que ela própria sentira na adolescência. Nunca esquecerei a ternura na sua voz quando falava desses adolescentes que geriam casas, pagavam contas, cuidavam de irmãos — crianças carregando responsabilidades de adultos muito antes do tempo. Criou currículos, ensinou inglês funcional, mas, mais do que isso, ensinou dignidade. Sabia, pela própria experiência, que a língua é muito mais do que vocabulário: é sobrevivência, autonomia e pertença.
Depois, guiada talvez pelo destino, um reconhecido advogado da indústria marítima descobriu que falava português, espanhol e italiano. Esse encontro fortuito abriu uma nova etapa: quarenta anos de interpretação, trabalho jurídico, gestão e, sobretudo, um mergulho profundo na indústria da pesca, que moldou a presença portuguesa em San Diego. Zeca tornou-se especialista quase por natureza — a pessoa a quem os pescadores confiavam histórias, dúvidas, memórias e esclarecimentos. As suas narrativas sobre crianças que viajaram sozinhas para a América ou sobre pescadores madeirenses que passaram pelo Panamá, pelo Havai ou pela Venezuela antes de ancorarem a vida em Point Loma tinham a pulsação de pequenas epopeias vividas. A delicadeza e rigor com que contava estas histórias revelavam-na como guardiã de uma memória coletiva. Todas as entrevistas que gravámos para o PBBI-Fresno State confirmavam o mesmo: Zeca transportava dentro de si um arquivo vivo, precioso, irrepetível.
A espiritualidade também se tornou uma marca profunda da sua vida mais madura. Em 2022, ofereceu ao mundo uma obra que revela essa dimensão íntima: A Pencil in God’s Hand: Prayer Reflections, um livro que convida a uma caminhada interior. Enraizado na sua profunda fé católica, o livro reúne mensagens inspiradoras recebidas ao meditar sobre os Evangelhos. O que torna estas reflexões singulares é a forma como Zeca abordava as Escrituras — não como doutrina distante, mas como espaço de encontro humano, de intimidade e vulnerabilidade. Escrevia sobre as figuras evangélicas com uma ternura que lhes devolvia a humanidade: dúvidas, receios, alegrias, fragilidades — histórias tornadas próximas, vivas e profundamente pessoais. Nesta obra, não oferecia apenas comentários religiosos: estendia um convite para entrar com ela num mundo contemplativo feito de humildade, gratidão e coragem espiritual. É impossível lê-lo sem sentir as qualidades que marcaram toda a sua vida: gentileza, clareza e enorme capacidade de empatia. Através destas reflexões, Zeca continuou a dar — guiando leitores como sempre guiou a sua comunidade, com mão firme e coração compassivo.
Uma das marcas mais profundas da sua vida foi a devoção à língua portuguesa. É impossível falar dela sem afirmar, com absoluta convicção, que Zeca Rodrigues e Linette da Rosa foram verdadeiras heroínas. Silenciosamente, persistentemente, sem procurar reconhecimento, tornaram possível o que muitos julgavam irrealizável: o programa de Português na Point Loma High School. Pela sua perseverança e visão apaixonada, gerações de alunos puderam aprender a língua dos avós, pronunciar a sua herança e manter viva uma ponte que, de outra forma, se teria perdido. O amor de Zeca pela língua não era apenas linguístico — era emocional, ancestral, identitário. Ensinar português em San Diego era, para ela, um ato de continuidade cultural.
A sua influência ultrapassou largamente os limites de San Diego. Estendeu-se pela zona de Los Angeles, pela área da Baía de São Francisco, pelo Vale de São Joaquim— por todos os lugares onde as histórias dos madeirenses e luso-californianos continuam a ecoar. Através do seu trabalho, da sua curiosidade e da sua generosidade, construiu pontes por todo o estado. Quem a conheceu reconhecia nela uma presença rara: não era apenas uma cidadã de San Diego — era uma força suave que atravessava toda a Califórnia portuguesa, ampliando a compreensão, preservando a história, inspirando unidade.
Recordá-la agora é regressar tanto a sentimentos como a factos. Nas nossas entrevistas, a sua voz permanece — clara, curiosa, compassiva, discretamente sábia. A sua vida foi um gesto contínuo de serviço, escuta e respeito pelo outro. A sua bondade não era aprendida; era natural. E a sua inteligência — tão lúcida quanto humilde — manifestava-se na forma como ligava histórias, reconhecia padrões e cuidava profundamente das pessoas e de suas jornadas.
Ao despedir-me dela, sei que a sua marca permanece precisamente onde importa: nas salas onde o português continua a ser ensinado, nas histórias que resgatou do silêncio, nos pescadores que a admiravam, nas famílias que dependeram do seu saber, e em toda a Califórnia portuguesa, que nela reconhece uma das suas vozes essenciais. O valor de uma vida mede-se não pelo que acumulamos, mas pelo que deixamos no coração dos outros — e Zeca Rodrigues deixou-nos infinitamente mais do que alguma vez levou consigo. Que a terra te seja leve, querida Zeca. Que o mesmo oceano que te trouxe da Madeira para o Pacífico te embale agora na memória eterna dos que nunca te esquecerão. E que o teu nome continue a ser pronunciado com gratidão, ternura e orgulho por todos nós que tivemos o privilégio de te chamar amiga.





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