Padre missionário Nuno Rodrigues ao Portuguese Times:

by | Nov 26, 2025 | Notícias das comunidades, Perfis

“Sou marcado por uma identidade africana”, Padre Nuno Rodrigues

 

O padre Nuno Miguel da Silva Rodrigues nasceu em 1974, na cidade do Lubango, em Angola, tendo regressado a Portugal em 1975. Depois dos estudos primários, em Leiria, entrou em 1985 no Seminário da Congregação dos Missionários do Espírito Santo, em Godim – Vila Real tendo passado depois passou pelo Seminário do Fraião Braga, onde frequentou o 8º e 9º ano de escolaridade. O 10º, 11º e 12º anos foram feitos no Seminário da Silva, em Barcelos. Iniciou o curso filosófico/teológico na Universidade Católica do Porto, para no ano de 1994 realizar o seu ano de Noviciado no Seminário da Silva, tendo feito a sua Profissão Religiosa no ano de 1995, em Barcelos. Veio a terminar o seu curso universitário, na Universidade Católica de Lisboa no ano 1998.

Em 1993 participou num Encontro Missionários de Professores na Guiné-Bissau. Em 1996, vai até França para a aprendizagem da língua francesa na “Alliance Francaise” de Paris.  Licenciado em Teologia, pela Universidade Católica Portuguesa, com a defesa da tese “Os Meios de Comunicação Social ao serviço da Evangelização”. Enquanto estudante universitário de Teologia foi presidente do conselho fiscal da Associação dos Estudantes de Teologia da Faculdade de Lisboa e em 1996/7 é eleito Presidente da FNAET – Federação Nacional das Associações de Estudantes de Teologia de Portugal. Durante esse tempo, foi agraciado, pela sua coragem, de ter escrito um artigo polémico na altura, intitulado “A Igreja e a Democracia- sua relação e implicações”, no âmbito da Disciplina de Eclesiologia, escrito na revista Scholarum da Federação Nacional dos Estudantes de Teologia.  Em 1998, partiu para Cabo Verde a fim de fazer o seu estágio missionário na paróquia de São Miguel da Calheta. Aí foi ordenado diácono a 04 de Julho de 1999, tendo feito na véspera a sua Profissão Religiosa Perpétua.

Terminada esta 1ª experiência missionária, regressou a Portugal para ser ordenado sacerdote no ano jubilar 2000 na Paróquia de Santa Eufémia da Diocese de Leiria-Fátima.

Em Setembro de 2023 parte, de novo em missão, para os Estados Unidos da América, onde durante três meses estuda inglês na Universidade Espiritana Duquesne em Pittsburgh, Pensilvânia. A 15 de Dezembro, é nomeado pelo Bispo da Diocese de Providence, para vigário paroquial da Paróquia de Santo António de West Warwick e São Francisco Xavier de East Providence, RI, vivendo atualmente na comunidade espiritana em Central Falls.

 

  • Entrevista: Francisco Resendes

 

– Como e quando nasce em si essa vocação de sacerdote missionário?

“A vocação de alguém, em qualquer projeto de vida, tem sempre sinais que se vão dando e quando se fala de uma vocação sacerdotal alguns colegas meus por vezes conseguem descobrir milagres nas suas vidas, ora eu não descobri nenhum milagre na minha vida porque a minha vocação foi sendo feita aos poucos, juntando semente a semente, a presença dos pais com uma grande paixão missionária, que trabalharam em Angola diretamente com os missionários do Espírito Santo, uma família com grandes tradições religiosas: tenho dois tios sacerdotes missionários desta mesma congregação na minha família, e uns avós também missionários, enfim uma caminhada que se foi fazendo, o meu padrinho de baptismo, que é também sacerdote missionário, atualmente com a bonita idade de 93 anos, tudo isto foram sinais que Deus me foi dando ao longo da minha vida para tentar responder àquela questão: e porque não és também missionário. Devo confessar que entrei com 10 anos para o seminário e na altura disse à minha mãe: eu quero ir para o seminário mas não quero ser padre, pois na altura o diretor, o formador era o meu padrinho que eu tanto gostava e queria estar junto dele e confesso que a partir daí foi tudo uma caminhada. E posso confessar que ao terminar o 12º ano, já ecoava dentro de mim uma maior convicção de que também poderia ser missionário. E porquê? Porque os missionários que vinham de Angola, de Cabo Verde e de outros países iam ao seminário dar os seus testemunhos de vida e aquilo para mim era uma delícia ouvir aqueles missionários, que tantas dificuldades passaram naqueles tempos, das independências, e antes desse período e ouvia tudo aquilo com uma delícia tão grande porque se tratava de vidas entregues, doadas, sacrificadas, por vezes correndo riscos de vida e até mesmo alguns que faleceram durante a sua missão e isso para mim foi entusiasmante e dando em mim aquele sinal de que se eles conseguem tu também vais conseguir”.

 

– De que forma é que o sacerdote influencia a vida das pessoas com o seu exemplo e percurso?

“É verdade. É preciso sublinhar que há grande diferença na Igreja que as pessoas por vezes não percebem, entre os padres diocesanos, que nascem numa terra, são ordenados e vão servir nessa mesma diocese. Ora nós missionários temos um coração muito mais alargado. Sabemos que vimos de uma terra, podemos ser ordenados noutra terra e trabalhar algures e esta grande universalidade da missão da Igreja abre muitos horizontes a nós missionários e eu queria efetivamente partir em missão para outros países e aí tentar fazer a missão que Deus me pedia e quando vamos para outros países e outras culturas é acima de tudo uma aprendizagem e temos ter um grande poder de inculturação que as pessoas às vezes não se apercebem a exigência desta realidade e aos poucos, após essa fase de adaptação, o missionário vai percebendo que à frente tem um mundo de desafios, de oportunidades, onde pode ajudar e fazer-se presente às pessoas, não apenas nas celebrações dos sacramentos ou naquilo que é estritamente na missão sacerdotal, mas acima de tudo procurar ajudar a desenvolver a integralidade de um ser humano nas dimensões sociais, habitacionais, na luta contra a pobreza, contra a fome e tantas coisas que o missionário é desafiado a fazer e depois quando põe “as mãos na massa” vai perceber que nunca mais para, pois os desafios são uns atrás dos outros que não temos mãos a medir… Dou um exemplo na minha vida: fui para Cabo Verde, antes de ser padre, era na altura seminarista e naqueles dois anos antes de ser ordenado padre aí fui-me adaptando. O meu trabalho que me pediram foi ser professor, dar aulas, sem formação pedagógica específica para ensinar, mas na paróquia tínhamos uma escola com o nome de um grande missionário açoriano: o padre João Eduardo Moniz, de Água D’Alto, da ilha de São Miguel, falecido em 1989 e recordo que o povo cabo-verdiano não deixou que os restos mortais fossem trasladados para São Miguel, ficando ali à frente da igreja onde era venerado e percebi o amor e o carinho que aquela gente tinha por aquele missionário, ele que fundou uma escola e foi aí nesta escola que iniciei a minha vida missionária, dando aulas, numa vida super ocupada com 22 aulas por semana… Depois de ser ordenado sacerdote no ano 2000 voltei a Cabo Verde onde continuei a dar aulas, para além de todo o trabalho de um padre e foi aí no mundo da educação que tive a graça e a beleza de trabalhar com a juventude, onde me dei por inteiro, diretamente na escola, conhecendo jovens e depois através da educação tentar chamar os jovens à Igreja”.

 

– Quais são as grandes dificuldades, sobretudo por onde passou em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe e as necessidades dessas comunidades e que respostas o sacerdote poderá dar a essas comunidades?

“Cheguei a Cabo Verde em 1998, numa altura em que este país estava a despontar para um maior desenvolvimento a vários níveis e dimensões, mas os sinais de grandes dificuldades ainda eram visíveis: a falta de eletricidade, de água canalizada, o não acesso escolar para todas as pessoas, as condições habitacionais ainda muito débeis, famílias com grandes dificuldades económicas e tudo isso consegui acompanhar quando cheguei e perceber que isso fazia parte da missão da Igreja, da nossa paróquia da Calheta de São Miguel: não só dar a palavra de Deus mas também dar o pão de cada dia, a instrução, a educação e aí perceber que o missionário quando chega a qualquer terra, seja em Cabo Verde, onde vivi durante 14 anos, ou em Angola, em Guiné-Bissau e ultimamente em São Tomé e Príncipe, o missionário não tem de facto mãos a medir, não é estritamente um sacerdote no altar e não pode ficar apenas associado à sacramentalidade, vai ter que descer ao quotidiano das pessoas e perceber que onde alguém sofre o missionário tem de estar lá e isso faz com que o missionário seja uma pessoa de multi funções, não apenas à dimensão de fé, de crença, de resiliência, e perceber que com Deus conseguimos tudo e depois o missionário é aquela pessoa que vai também agregar amigos, empresas, vai desenvolver projetos e vai fazer tudo para que esses projetos se transformem em mais valias para a comunidade”.

 

– Nesses países por onde passou, alguns ainda enfrentando perigos de vária ordem, designadamente de confrontos e tumultos, chegou alguma vez a temer pela sua vida?

“Na vida missionária vamos sentindo não tanto os medos mas sim apreensões, algo que nos toca fundo, que nos preocupa, e que exige de nós não apenas uma reflexão sobre determinado assunto mas que vai exigir de nós construção de soluções. Um missionário que chegue a um país com enormes dificuldades e fica ali a lamentar e a chorar não vai conseguir fazer algo. Chegamos, os nossos olhos veem, o nosso coração sente e as nossas mãos têm de fazer alguma coisa. E é neste fazer que vamos vencendo determinados medos. Evidentemente que um missionário quando vai para um país longe, deixa a família, os amigos, as tradições culturais da sua terra e vai sentir certamente muitas saudades, mas por outro lado o missionário quando chega é acolhido por uma grande comunidade, ganha outra família e sente-se protegido, como foi o meu caso: senti-me protegido pelos mais idosos, que se preocupavam comigo, com a minha saúde, quando estava doente, dando conselhos e portanto esses medos que possamos sentir de início vão-se dissipando e vamos ganhando a confiança de um povo, de uma nova família, que acolhe o missionário e sente-o não como uma estrangeiro que veio para a sua terra mas como um deles”.

 

– Naturalmente que um missionário é humano como qualquer outra pessoa e vai criando laços afetivos para com diversas comunidades. É difícil deixar uma comunidade à qual criou essa ligação afetiva? Como combate isso?

“A primeira vez quando fui para Cabo Verde tinha 23 anos de idade e já me sentia com aquela capacidade e vontade de partir ao encontro de outro povo, de outra cultura, aquilo que já tinha assumido nos tempos de seminário e quando parti, a primeira vez, senti uma grande alegria e ao mesmo tempo não posso esconder que chorei no aeroporto a despedir-me dos meus pais e restante família mas disse cá para comigo: vais, mas vais ter que deixar parte das tuas raízes familiares e culturais e é verdade que vem a lágrima ao olho porque nós não somos desenraizados: temos as nossas raízes num tronco familiar e cultural de uma terra, mas desde o tempo em que aterrei em Cabo Verde, a 14 de novembro de 1998, percebemos que vamos para um país completamente diferente, mas também vai percebendo que há semelhanças e é aqui que o missionário vai tentar “encaixar-se”.

 

– Sente saudades de África, nos países por onde passou?

“Sinto saudades de África, que às vezes até os meus paroquianos da igreja de Santo António de Pawtucket e das outras duas paróquias, Santo António em West Warwick e São Francisco Xavier em East Providence, me dizem que só falo de África, que gosto de falar muito das alegrias e dificuldades destes povos nas minhas homilias, mas devo dizer que o missionário é marcado com uma identidade e é evidente que ao passar por esses países africanos fui marcado por esta identidade africana e por estes desafios e não tenho medo de dizer que nasci em Angola, Portugal é o meu país, mas Cabo Verde é o meu segundo país e estando também ultimamente em mais um país, como é o caso de São Tomé e Príncipe, a alegria de conhecer mais um povo e sentir-se ligado a este povo e estamos sempre a carregar o nosso passado, o nosso presente em relação ao futuro… O missionário nunca vai esquecer aquilo que aprendeu noutros países e vai estar sempre aberto a novas missões”.

 

– Alguma vez imaginou em fazer este trabalho de missionário num grande país como os EUA?

“A verdade é que nunca pensei em vir para aqui. Estava longe dos meus horizontes sair de África, mas o missionário está aberto a partir para onde quer que seja e o facto de ter vivido durante muito tempo em África naturalmente que estou marcado com esta identidade africana e isso passa pela minha postura como missionário, pelas experiências que vivi… A palavra tem a sua força mas o testemunho é muito mais fortalecido quando falamos de testemunhos de vida, histórias vida, etc…”

 

Como tem sido esta nova experiência aqui nos EUA?

“Fomos treinados no seminário a termos uma capacidade grande de adaptação, em qualquer tipo de missão. Para termos uma ideia, os missionários do Espírito Santo, que é a minha família religiosa, somos cerca de 3.000 membros oriundos de 54 países do mundo e portanto estamos espalhados pelo mundo inteiro: temos africanos que estão nos continentes europeu e americano e temos portugueses e americanos no continente africano e asiático e portanto há aqui uma mistura e sabemos que iremos estar onde necessariamente é preciso estar e a minha estadia aqui na Nova Inglaterra deveu-se ao facto de ter vindo passar umas férias aqui e certo dia o bispo aqui da região disse-me que precisava de padres portugueses, ao que eu respondi que estava muito bem em África, mas depois a insistência foi maior e percebi que aqui também as nossas comunidades portuguesas e lusófonas em geral precisavam de uma nova evangelização e vitalidade e é isso que me está a animar agora. Ou seja: numa realidade onde materialmente falando não nos falta nada, quando em África faltava-nos quase tudo e onde aqui não nos falta nada materialmente mas espiritualmente falta-nos quase tudo quando em África espiritualmente tínhamos a força daquele povo”.

 

– Num mundo cada vez mais consumista e materialista, como se atrai as pessoas e sobretudo os mais jovens a seguirem um caminho humanista, da espiritualidade e da fé em Deus?

“Tenho frequentado várias igrejas aqui na Nova Inglaterra, umas onde existem comunidades portuguesas e outras de americanos e honra seja feita às nossas comunidades portuguesa e cabo-verdiana que na verdade enche as nossas igrejas aqui nesta região e isto significa que o nosso imigrante trouxe consigo o desejo de uma melhor vida materialmente falando, mas também trouxe o valor da fé, da educação cristã que recebeu na sua terra e isto é uma semente. Claro que há uma dificuldade geracional passar isto às gerações mais novas, à nossa juventude, porque já nasceram num contexto completamente diferente, evidentemente estas bases e valores cristãos, humanos, solidários, são muito mais débeis… Mas é preciso não desanimar e perceber que a boa semente dá fruto, mesmo que a gente não os olhe aqui hoje, no imediato, isso é um grande perigo de nós, Igreja Católica, querer plantar hoje e recolher já amanhã. Acredito que as sementes que são lançadas nos filhos e nos netos vão dar frutos. Podem não dar agora o fruto de ir à missa ou participar mais ativamente mas aquilo que os pais tentam semear nos corações dos filhos acredito que fica lá semeado”.

 

– O que falta fazer como missionário e mensageiro de Deus?

“Olhe vou confessar uma coisa que talvez nunca tinha dito publicamente, mas sinto-me um eterno insatisfeito e isso mantém-me vivo e ativo. Ou seja, cada vez mais que faça em prol da humanidade sinto que ainda devo mais fazer e porquê? Estando aqui nesta nova missão continuo a apoiar os meus irmãos de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe, porque sei que as necessidades são bem maiores que as nossas, falando nas carências materiais e eu acredito e a minha grande luta é lutarmos por um mundo mais justo, mais igual. O nosso mundo está muito desigual, uns têm tudo e outros têm muito pouco. Uns vivem com o que têm e outros com as sobras e na minha vida tento procurado sempre pautar por lutar por um mundo mais justo, mais igual, onde todos possam ter os bens essenciais para viver e nalguns casos, como São Tomé e Príncipe, para sobreviver, mas também isto só acontece se cada um de nós fizer a sua parte. A construção de uma sociedade mais humana e mais justa depende de cada ser humano que tenha um bom coração e a fé é uma mais valia para sermos mais transformadores para um mundo melhor. Tenho para mim um lema, que é de Robert Baden-Powell, que foi o fundador do escutismo a nível mundial, que dizia aos seus jovens: Não queiram fazer tudo porque não vamos conseguir resolver os problemas do mundo, mas tenham bem presente uma coisa: deixem o mundo um pouco melhor do que o encontraram. E é isto que eu luto todos os dias. Quando morrer quero ter a consciência e olhar para trás e chegar à conclusão de que fiz a minha parte”.

 

Fotos cedidas pelo padre Nuno Rodrigues:

 

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