Ao sabor da saudade

by | Sep 17, 2025 | Crónica da Califórnia

Quem abala, como eu decidi abalar, emigrando com passagem sem regresso marcado, já lá vão 47 longos anos, arrisca-se a um trambolhão prolongado de sacudidelas emocionais que parecem nunca mais acabar. Um dia, arrastados pelo florido desconhecido a seduzir-nos para lá do horizonte, ao deixarmos para trás o berço, com o Eldorado em mente, não fazemos ideia alguma das contínuas mordidelas a aguardarem-nos inseparáveis das saudades que nunca morrem, apesar de insistirmos em dramatizar que estamos doidos para as matarmos. Há toda uma fina mistura de aventura embrulhada em nostalgia insistente em ilustrar o percurso pessoal de cada imigrante ilhéu, e o meu não foge à regra que nos abraça aos múltiplos milhares, por esse mundo fora, num macio leque de sensibilidades nem sempre fáceis de expressar. Cada qual sabe da sua história. Desconfio muito que a minha até mereça para aqui ser chamada, mas o certo é que não a posso esconder de mim próprio. O que posso e devo fazer aqui, no entanto, é não a tornar chata aos olhos de quem a lê.

“O avô estar a ficar chatinho que se farta”, lembrava-me anteontem o meu netinho mais velho, provocando-me um sorriso manso, cá por dentro, ao recordar também o que não escondia dos meus velhotes, mais ou menos nesses mesmos termos, em tempos que já lá vão. Na verdade, certo dia, após várias tentativas falhadas de arranjar maneira legal de dar o salto para o lado de cá do atlântico, não tive outro remédio senão insistir em “chatear” até convencer meu pai a ignorar a sua já meia reforma de cantoneiro da Junta Geral para se vir enfiar no calor escaldante duma velha fábrica de fundição de alumínio, onde acabaria por gramar quase vinte anos dum árduo trabalho que lhe massacrou os ossos sem qualquer dó nem piedade. Escusado será dizer, no entanto, que a minha santa mãe adorou sempre todo o tempo que cá teve para desfrutar das conhecidas abundâncias desta Califórnia de sonhos com lágrimas suadas e tantas vezes enxugadas vá se lá saber como. Perguntem ao meu irmãozinho do meio que, saturado de estrebuchar igualmente essas mesmas duas décadas na construção civil, mal o nosso paizinho decidiu fazer a viagem ao contrário, não hesitou em segui-lo, levando consigo a casa às costas (com mulher e quatro filhinhos lá dentro) de regresso ao seu cantinho natal.

E assim ficamos repartidos, sem apelo nem agravo, à mercê desse tal destino marcado pela mordente hora do sempre incómodo “nem lá, nem cá.” Não foi surpresa, porque o meu bom pai bem me havia avisado, “vim para te fazer a vontade e alargar a oportunidade de poderes agarrar um futuro melhor, mas agora chegou a hora de voltar e, quando quiseres, lá estaremos à espera de nos ires visitar.” Foram várias as visitas, ao longo dos anos, que me deram o prazer de ir abraçar os meus progenitores no aconchego do lar reconstruído no mesmo exato local da ruída casinha onde cresci menino, moço e quase homem feito. Souberam-me sempre bem todas elas, até aparecer a que bem desejaríamos nunca vir cá ter. “Esta vida vale o que vale”, desabafamos desolados, quando ela nos prega a amarga partida de nos roubar quem no-la deu. Dói que se farta o fundo golpe feito ferida aberta para sempre. Tive de desmarcar a passagem nesse ano colado aos outros dez que se seguiram comigo esmorecido e desmotivado de ir reabraçar as raízes. Tal fora a pancada.

E foram os netos que me amaciaram o ardume e adoçaram o apetite de lhes ir mostrar os trilhos e atalhos das suas origens e nos sentarmos (com os demais rebentos) todos à sombra da sua frondosa árvore genológica, em salutar convívio de consolar a alma. Soube mesmo muitíssimo bem sentir a geração do futuro, de mãos dadas com a do presente, abraçando e celebrando as do passado – a quem todos devemos o privilégio de por cá ainda andarmos a contar como foi. É que, num ápice, tudo se vai. Até me ir, por conseguinte, apraz-me poder partilhar este meu “chatinho” estado de espírito reconfortado com o inconfundível sabor do sempre emocionante regresso às raízes. Nada verdadeiramente se lhe compara.

0 Comments

Related Articles