Onde estava no 25 de Abril? Ficou célebre esta pergunta do jornalista Baptista Bastos numa série de entrevistas publicadas no jornal Público e que me levam a pôr em dia o meu 25 de Abril.
Passei o dia 25 de abril de 1974 no Portuguese Times, cuja redação era no 57 Rodney French Boulevard, sul de New Bedford, Massachusetts, onde é agora a Cidade’s Auto Service Station do Manuel Cidade.
O jornal tinha acabado de se transferir de Newark, New Jersey, onde iniciou a publicação em 1971 por iniciativa de Augusto Saraiva, e foi comprado decorridos dois anos por António Alberto Costa, gerente de uma rádio portuguesa de New Bedford, a WGCY-FM 97.3 FM, atual WJFD, associado ao empresário Joseph Fernandes, bem sucedido fundador de uma cadeia de 37 supermercados e patrocinador de muitas causas da comunidade portuguesa.
Acrescente-se que eu também tinha um curto percurso radiofónico, produzia e apresentava dois programas semanais na Rádio Voz de Lisboa quando fui mobilizado para Angola no início da guerra colonial em 1961 e onde decidi ficar em 1965, quando terminei a comissão, a chefiar os serviços de produção do Rádio Clube do Uige, na cidade de Carmona, atual Uige.
Em 1973 meti férias na rádio de Carmona para uma experiência de correspondente em New York, onde tinha um cunhado, o Mário Leal, que me resolvia o problema do alojamento e comecei a enviar umas crónicas para a Emissora Oficial de Angola e Diário de Luanda.
Estávamos na época em que Ian Smith tinha declarado a independência da Rodésia do Sul, atual Zimbabwe, e em Angola alguns brancos pensaram o mesmo, mas os ventos não sopraram de feição, nem para o Ian Smith na Rodésia e nem para o Mendes em New York.
Além de pagarem pouco, os tipos de Luanda esqueciam frequentemente o pagamento e os dólares começaram a escassear. Alguém sugeriu então que eu tentasse arranjar um “part-time” no canal 47, a Univision, canal hispânico de televisão que servia New York e que seria em Newark, New Jersey.
Assim, à procura do canal 47, descobri Newark e mais propriamente o bairro do Ironbound, onde deviam viver ao tempo cerca de 40.000 portugueses. Newark era um arraial português. Fui perguntando aqui e ali, e ninguém sabia onde era o raio da Univision. Porém, a dada altura alguém sugeriu que perguntasse no Portuguese Times.
Estava longe de imaginar que se publicasse um jornal português em Newark e na verdade publicavam-se dois semanários, Portuguese Times e Luso-Americano.
O Portuguese Times ficava na Wilson Avenue, transversal da Ferry Street e fui atentido pelo Augusto Saraiva, que também não sabia onde era o tal canal 47, mas, uma vez que eu procurava trabalho, ofereceu-me emprego no jornal e resolveu-me o problema.
Aceitei com agrado, pois tinha alguma experiência de jornais, trabalhara no semanário Jornal de Almada e tinha estagiado durante um ano no diário A Voz, de Lisboa, que trocara pela rádio.
Quanto ao canal 47, viria a saber depois, chama-se agora Telemundo, pertence ao grupo NBC e os estúdios são em Fort Lee, a 27 quilómetros de Newark.
O António Alberto Costa, que residia em New Bedford e se deslocava de quinze em quinze dias a Newark, aprovou a minha contratação e comecei a trabalhar na segunda semana de dezembro de 1973. Além do Saraiva, a equipa do jornal em Newark era formada pelo Guerreiro Pereira, que vendia anúncios; duas jovens que faziam a composição numa IBM; eu que paginava, montava anúncios e escrevia umas crónicas e umas notícias, e o Mr. Henriques, madeirense que funcionava como tradutor e era uma instituição. Tinha imigrado em 1921, foi redator da Voz da América durante a Segunda Guerra Mundial, quando ainda se chamava Escritório de Informação de Guerra e professor de português na Berlitz School, em New York.
Recorde-se que, além do Portuguese Times, compunhamos e paginávamos o mensário The Brasilians, que o brasileiro Jota Alves tinha lançado em dezembro de 1972 e que, ao que parece, ainda se publica em New York. Jota Alves tinha uma lojinha na W 46 Street e organizava o “Brazilian Carnival” no Waldorf Astoria, na Park Avenue. Convidou-me para o baile de 1974 e adorei, as atrações foram Jair Rodrigues e uma menina chamada Elis Regina.
Nessa altura António Alberto Costa já deixara a WGCY em conflito com o proprietário, George Gray, húngaro chegado a New York em 1927 e que viria a ser dono de meia dúzia de rádios na Flórida, New York e Massachusetts. Costa ambicionava comprar a WGCY, mas nunca se entendeu com Gray e ainda por cima tentou processá-lo.
Entretanto, a 19 de outubro de 1973 (e após 16.641 edições) deixara de publicar-se em New Bedford o Diário de Notícias que circulava desde 1927, e Costa decidiu transferir o Portuguese Times para New Bedford tentando conquistar os leitores do histórico jornal de João Rocha, que tive oportunidade de conhecer já em cadeira de rodas.
Costa deu conta da mudança para New Bedford no jantar de Natal do Portuguese Times, informando que o Saraiva continuaria como correspondente em Newark e o Guerreiro Pereira também continuaria como vendedor. Quanto ao Mr. Henriques regressava a New Bedford, onde tinha duas filhas e um filho, e eu também mudei como paginador e fazedor dos anúncios. Vim numa velha carrinha juntamente com a histórica IBM que compunha o jornal e uma máquina de cera em que encerava a cópia para paginar. Hoje nada disso se usa, o jornal é feito no computador.
Em conflito com Gray, Costa levou parte da equipa da WGCY para o Portuguese Times: Raimundo Canto e Castro, que vendia publicidade para a rádio, passou a ser o braço direito do Costa no jornal; John Lima, desembaraçado ex-marine que começara a vender publicidade na rádio transitou também para o jornal; o constabilista Gary Emken também trocou a rádio pelo jornal; Manuel Calado também esteve para ser redator do jornal, mas optou por permanecer na WGCY, onde ficaria largos anos; mais tarde, Adelino Ferreira, noticiarista da emissora, passou a redator do jornal e chegaria a diretor.
Completavam a equipa inicial do jornal os excelentes ilustradores irmãos Teófilo e Luís Ramos, que iam aos fins de semana fazer anúncios; o tipógrafo António Almeida, popularmente o Careca; Mariano Alves, que vendia publicidade e depois se dedicaria ao ensino; na receção, Natália Carreiro, uma voz e uma cara linda que embelezavam às vezes o programa do Costa no Canal 6, a Mrs. Rodrigues, na altura sogra do Costa; e ainda a Donzília Sousa, jovem de Fall River admitida para fazer a composição e com a qual me cruzei à porta no primeiro dia de trabalho, casámos em 1985 e, decorridos 40 anos, continuo apaixonado.
E não podemos esquecer o António Cordeiro, que distribuia os jornais, era fotógrafo do jornal e cameraman do programa semanal Passaporte para Portugal que Costa mantinha na WLNE-TV, Canal 6. O Cordeiro foi com o Costa a Lisboa cobrir o 25 de Abril depois da posse do I Governo Provisório de que faziam parte figuras como Mário Soares, Francisco Sá Carneiro, Álvaro Cunhal e Salgado Zenha. Mas o melhor que o Costa conseguiu foi entrevistar um anónimo Jorge Correia Jesuíno e ainda por cima, na viagem de regresso, roubaram a câmara do Cordeiro no avião.
Não havia internet, telex, CNN ou RTPi, mas a notícia do 25 de Abril chegou ao jornal por volta das oito da manhã daquela terça-feira. Era dia de fecho da edição, a Donzília entrara mais cedo para adiantar a cópia que eu iria paginar e, mal cheguei, alertou-me para um telefonema que acabara de atender: “Telefonou agora um sujeito a dizer que ouviu na rádio que há uma revolta em Portugal”.
O resto do dia foi de euforia. O Augusto Saraiva telefonou de Newark a sugerir uma edição especial alusiva ao golpe militar, mas Costa pensava que em Portugal apenas caiam os cabelos e as donzelas, e não regimes, e só deu a notícia na semana seguinte.
A edição número 185 do “Portuguese Times”, datada de 25 de abril de 1974, publicou a notícia da prisão em Lisboa de 55 intelectuais (José Manuel Tengarrinha, Mário Ventura Henriques e outros), mas nada do 25 de Abril.
A notícia só saiu no nº 186, com editorial alusivo e assinado pelo Costa, um artigo do Onésimo Teotónio Almeida (“Carta aberta à malta do 25 de Abril”) e deste vosso criado (“Os emigrantes e o 25 de Abril”) e ainda um anúncio da venda pelo correio ($5) do famoso livro do general António de Spínola “Portugal e o Futuro”.
A primeira grande dúvida do 25 de Abril foi saber para que lado Portugal iria cair, tanto mais que, depois do falhado golpe de 16 de março no Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Rainha e da demissão dos generais Spínola e Costa Gomes, corriam rumores sobre um golpe de direita liderado pelo general Kaulza de Arriaga. Mas tranquilizei no próprio dia 25 de abril, quando o telejornal da CBS mostrou imagens dos portugueses a aplaudir nas ruas de Lisboa e os soldados com cravos no cano das espingardas. Se tivesse sido um golpe do Kaulza, as espingardas teriam baionetas.
Também nunca esquecerei o momento em que Walter Cronkite, respeitado jornalista da CBS, informou paulatinamente que o presidente Américo Tomás e o primeiro-ministro Marcelo Caetano tinham sido “exilados para a ilha espanhola da Madeira”.
Claro que, até ver, a Madeira não é espanhola. Mas mesmo com lapsos, durante uma semana só se falou de Portugal nos networks e nos jornais nacionais dos Estados Unidos.
O New York Times consagrou o editorial de 26 de abril de 1974 ao golpe militar em Portugal considerando que “se a Junta (de Salvação Nacional) conseguir realizar o seu programa, isso será um grande alívio para a NATO, constantemente preocupada com um governo que praticava a repressão no interior e continuava as guerras coloniais em África”.
Dia 28 de abril, o New York Times publicou novo editorial sobre o “tremor de terra político” que sacudira Portugal e “as ondas de choque que se fariam sentir em Espanha, na Grécia e em África”. O editorialista profetizava que o “vírus” democrático português contagiaria gregos e espanhóis e a independência de Angola e Moçambique precipitaria o fim dos governos minoritários brancos na Rodésia e na África do Sul”, e não se enganou.
O 25 de Abril contribuiu para a mudança de muita coisa na Europa, em África e de certo modo até na comunidade portuguesa dos Estados Unidos. A dada altura, em 1975, o António Alberto Costa resolveu despedir o Raimundo Canto e Castro, alegando não precisar dos serviços dele e o Castro resolveu fundar o Jornal de Fall River. Depois despediu-me a mim acusando-me de ser amigo do Castro e contribuindo para que eu me tornasse editor do Jornal de Fall River, embora o meu nome não figurasse, mas isso é outra estória.
A Donzília foi convidada para fazer a composição e aceitou porque trabalhava perto de casa. Mr. Henriques também fazia parte da equipa. E por fim Castro foi buscar o John Linhares Lima ao Portuguese Times para a publicidade do novo jornal com a promessa de sociedade. Aliás, Castro prometia sociedade a toda a gente, mas era tudo vigarice, depressa descobrimos e abandonámos o Jornal de Fall River. A Donzília, eu e o Mr. Henriques fomos trabalhar para o Azorean Times, e o Lima ingressou no Standard Times de New Bedford.
O Jornal de Fall River, que abreviou o título para O Jornal, e o Azorean Times, que se converteu no Portuguese American, ainda se publicam, embora apenas online.
Curiosamente, de todos nós, o mais bem sucedido foi John Linhares Lima, natural da Ribeira Quente, São Miguel, criado em New Bedford, onde ainda tem irmãs e irmãos.
John começou por vender publicidade no mercado português para a WGCY-FM de New Bedford, teve depois uma curta passagem pelo Portuguese Times e Jornal de Fall River, que trocou pelo Standard Times de New Bedford, onde a sua primeira ideia foi publicar uma página em português, e eu é que lhe traduzia os anúncios. Mas tempos depois mudou-se para Plattsburg, New York, a fim de chefiar a publicidade do Plattsburg Press Republican. Tornou-se depois chefe da secção de classificados do Joplin Globe, de Joplin, Missouri, onde acabou por ser nomeado “publisher” (diretor). Regressou a Massachusetts para dirigir o Cape Cod Times de Hyannis e em 1993 foi nomeado diretor do Sharon Herald de Sharon, Pennsylvania, tendo-se reformado em 2012. Enquanto dirigiu o jornal de Sharon, Lima fez parte da direção da Pennsylvania Newspaper Association.
Uma carreira brilhante e, infelizmente, uma vida curta. John Lima faleceu em 2022, aos 74 anos.



0 Comments