A 14 de Março de 2020, a Vila de Rabo de Peixe, do Concelho da Ribeira Grande da Ilha de São Miguel dos Açores seria festejada na Nova Inglaterra como o melhor cantinho do mundo.
Pelo vigésimo sexto ano consecutivo os Amigos de Rabo de Peixe levariam a efeito a sua confraternização anual. Mas a onda das precauções contra o alastramento do vírus que causou a pandemia fez com que esta festa, e tantas outras, fossem canceladas à última hora.
Seis anos depois, no mesmo dia do calendário, em 2026, os Amigos de Rabo de Peixe levaram a efeito o seu convívio anual, com o título de trigésimo terceiro convívio anual.
Alguma coisa não está aqui a bater certo, pelo facto do vigésimo sexto ter sido cancelado, e temos quase a certeza de que não se realizou a confraternização de 2021. Além disso, no lugar do evento deste ano uma tabuleta marcava o trigésimo segundo aniversário da fundação dos Amigos de Rabo de Peixe (USA), cuja organização foi instituída em 1994, no mesmo ano do seu primeiro convívio.
Pronto, não vamos mexer mais nisso, para não cheirar mal. Se houve convívios durante a pandemia, isso foi lá problema deles.
O deste corrente ano, realizado no passado sábado, 14 de março, esgotou a lotação do restaurante Venus de Milo, em Swansea, Massachusetts. Presenciámos uma sala cheia, e reparámos que a última mesa o número 81 – que a dez pessoas por mesa, dá um total de 810.
Não admira, porque como foi dito e anunciado, todos os lucros da festa seriam enviados para as obras da igreja do Senhor Bom Jesus. Só isto basta para encher um recinto de emigrantes cheios de amor à terra que os viu nascer. E, acrescente-se, que eles só se sentem apreciados na Região Açores, em ocasiões como esta.
Já numerosas vezes havíamos participado nestas confraternizações de naturais e amigos daquela vila. Por várias razões, das quais destacamos o facto de sermos amigos da sua gente, e de termos uma elevada consideração pelo senhor Manuel Falcão Estrela, que segundo o nosso ponto de vista, até à pandemia, era a alma dos Amigos de Rabo de Peixe, Inc. USA. Deixai-nos dizer que amor por Rabo de Peixe como o do sr. Manuel Estrela não existe em parte nenhuma. A ele se deve, em grande parte, a elevação da freguesia ao título de vila. Foi um sonho que ele teve, e que mais tarde se realizou. Numa das nossas publicações anuais, por volta de 1995 ou 1996, em uma colaboração escrita que lhe havíamos solicitado, veio um texto que defendia e justificava a elevação a Vila da sua freguesia. Mais tarde, com a fundação do círculo de amigos, onde se incluía Heitor Sousa, a ideia ganhou mais força e o título de vila foi dado a Rabo de Peixe no dia 25 de Abril de 2004.
Voltando à festa rabopeixense: sim, como já demos a entender, estivemos presente, e gostámos muito.
Procurámos, e acabámos por encontrar o sr. Manuel Estrela. Há muito que não nos cruzávamos. Trocámos dois dedos de conversa, e lembrámos os bons velhos tempos. Afinal, é para isso que existem os denominados convívios regionais.
Debaixo de brincadeira o saudoso amigo Manuel Sardinha dizia que, naquela localidade do norte da ilha de São Miguel, por ser um centro piscatório, e pelo nome que tem, quando se apanha nas redes um peixe maior, ou de boa aparência, é costume ficar com o rabo e mandar a cabeça para a Ribeira Grande.
Parece-nos que a última cabeça que foi para a cidade já se esqueceu de onde veio, ou de quem lhe deu os votos para ganhar o pelouro que agora tem. Sim, porque nem o senhor presidente veio, nem mandou representante. Se enviou algumas palavras, elas não foram ouvidas no evento que tanto dignificou a Vila de Rabo de Peixe. Contámos os “Viva Rabo de Peixe” vinte e duas vezes, depois perdemos a conta.
A festa deste ano mais se assemelhou com um show de variedades, aonde o folclore não faltou, do que a um convívio regional, propriamente dito. Os beijos e abraços, assim como “comprimentos, larguras e alturas” tiveram tempo de sobra, das seis às sete e meia da tarde. Depois, ao mesmo tempo de servir o jantar as cerimónias não demoraram muito, e a música se encarregou do resto. E como foi dito que todos os lucros se destinariam às obras da igreja paroquial da vila, algumas atuações artísticas vieram à festa gratuitamente. Todas elas satisfizeram os diferentes gostos: Uma banda filarmónica, a Despensa dos Amigos de Rabo de Peixe, a Nélia, Arthur Wahlberg e Lillo Brancato. De Rabo de Peixe veio, como convidado de honra, Heitor Barquinho, e o fenómeno musical dos Açores, o famoso YéYé, que só por si fez valer todo o serão. Foi a estrela que mais brilhou, na nossa opinião, sem tirar o lugar do Sandro G., nomeado Rabopeixense do Ano.
A dança acabou depois da meia noite e meia, que é um caso raríssimo em festas semelhantes, sendo último atuante, o conjunto Moda Nova.
Os Amigos de Rabo de Peixe, Inc. USA nestes convívios também oferecem bolsas de estudo a estudantes naturais ou descendentes de naturais daquela vila, ao iniciarem o ensino superior. Este ano foram contemplados três jovens com bolsas de setecentos e cinquenta dólares.
Parabéns, Rabo de Peixe, pelos filhos que tens.
Fuseiradas à parte, Deus permita que a crise que atravessamos, com todas as trumpadas, seja breve e que o mundo inteiro consiga paz. As economias se hão-de recuperar e tudo ao normal voltará. Assim como também voltaremos a Rabo de Peixe, se Deus quiser. Há qualquer coisa que nos prende no triângulo entre o Caranguejo, o Rosário e a Cova da Moura. Deve o facto de um tal José Francisco da Ponte, dos Fenais d’Ajuda, se ter enamorado de uma bela sereia, chamada Maria da Luz Fonseca, e acabou casando com ela. Mal sabia ele que viria a ter um neto com o mesmo nome, que aos cinco anos foi para a Ribeira Grande, e que lhe deu um bisneto, que dele muito se orgulha. Sim, deve ser isso.
Haja saúde. Viva Rabo de Peixe!
Lá fui um dia a admirar
Sua gente, seus costumes.
Lindas paisagens de mar
E sereias aos cardumes.
Cheira-me a peixe fresquinho,
Bailam gaivotas no ar,
Passa gente no caminho,
Flutuam barcos no mar.
Na minha cabeça pus:
Ser emigrante fiel.
Vou visitar Bom Jesus
Quando for a São Miguel.





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