Lisboa, 13 jun 2026 (Lusa) – O coordenador da Marcha de Alfama considerou hoje que a vitória nas Marchas Populares de Lisboa é a confirmação de que “ainda vale a pela lutar” pelos valores e tradições que dão identidade aos bairros históricos da cidade.
Oito anos depois de conquistar o seu último concurso das Marchas Populares de Lisboa, Alfama celebrou um triunfo que, para o coordenador João Ramos, representa sobretudo uma vitória dos valores e das tradições da cidade.
Ligado à marcha de Alfama há 24 anos, João Ramos disse à agência Lusa que sentiu, com esta vitória, que faz parte de “um grupo de marchas que tem como principal objetivo a defesa das tradições de Lisboa”.
“Fico contente por representar esse grupo. Podia ser eu ou poderia ser outra marcha”, afirmou, salientando que é preciso ter “a noção de que Marchas Populares de Lisboa são sobretudo um evento para representar as tradições e para honrar os bairros tradicionais de Lisboa”.
A mensagem esteve bem patente no tema escolhido por Alfama este ano, “Os santos devem estar loucos”, disse o responsável, explicando que, através de metáforas, a marcha procurou alertar para as mudanças que têm vindo a transformar os bairros tradicionais.
“Os santos devem estar loucos com aquilo que se tem passado ultimamente nos bairros, em que se dança samba no baile, canta-se o fado sem xaile, não se salta a fogueira e o manjerico já não cheira”, ilustrou.
Para o responsável, o tradicional concurso faz sentido enquanto se lutar pelas tradições e pelos valores: “Quando nos rendermos a outros valores, então podemos chamar isto outra coisa, mas não as Marchas Populares do Lisboa”, vincou.
A preparação da marcha começou em janeiro quando lançou o tema à Comissão da Marcha e foi validado.
“A partir daí começamos a trabalhar no tema, a trabalhar nos arcos, na música, nas letras”, disse, realçando que foi “uma vitória coletiva”.
Para que tudo acontecesse, foi fundamental “a entrega total dos marchantes”, considerou, realçando o empenho dos participantes: “Estamos a falar em 50 jovens que não têm educação clássica, musical, artística, absolutamente nenhuma” e que durante dois meses se dedicaram intensamente aos ensaios.
“A marcha de Alfama, como todas as demais, exige a todas as pessoas, provavelmente, valias que não têm, mas a vontade que cada um tem de representar o seu bairro faz com que a marcha de Alfama, e as demais, consigam depois ter aquele resultado de arrastar multidões à avenida da Liberdade, na noite mágica de Lisboa, de 12 para 13 de junho”, realçou.
Apesar de ser natural de Pampilhos da Serra, João Ramos disse ter uma forte ligação afetiva ao bairro de Alfama, onde “caiu de paraquedas” há 24 anos.
“Não sou de Alfama de sangue, sou de Alfama de adoção e de coração”, afirmou, lamentando a realidade atual do bairro, que considera estar cada vez mais descaracterizado.
“O bairro está despovoado, está descaracterizado, já tem muito poucos ‘alfacinhas’ e, nessas alturas, o bairro sente que, de alguma forma, ficaram sem as suas referências”, afirmou, elucidando que, das 50 pessoas que participam na marcha, apenas três vivem no bairro, quando há 10 anos “eram quase 100%”.
João Ramos lamentou que diversas políticas tenham contribuído para o afastamento de muitos moradores de Alfama, mas garantiu que nada apagará o amor e o orgulho que continuam a sentir pelo bairro onde nasceram e cresceram.
“As pessoas de Alfama é gente muito trabalhadora, gente que luta dia-a-dia para conseguir ter melhores condições de vida e esse é um reconhecimento que nós fazemos a este povo maravilhoso, que é o nosso povo de Alfama”, realçou.
Questionado sobre como resumiria a conquista deste ano, João Ramos afirmou: “Ainda vale a pena lutar pelos valores em que acreditamos”.
Os moradores do bairro da Mouraria participam no desfile das "Marchas Populares" de Lisboa, integrado nas celebrações de Santo António, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, Portugal, a 12 de junho de 2026. Todos os anos, na véspera do dia de Santo António, cerca de 20 bairros de Lisboa desfilam com trajes coloridos e cantam canções populares em honra do santo casamenteiro. Esta noite marca a festividade mais importante de Lisboa. ANTÓNIO COTRIM/LUSA
Os moradores do bairro da Mouraria participam no desfile das "Marchas Populares" de Lisboa, integrado nas celebrações de Santo António, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, Portugal, a 12 de junho de 2026. Todos os anos, na véspera do dia de Santo António, cerca de 20 bairros de Lisboa desfilam com trajes coloridos e cantam canções populares em honra do santo casamenteiro. Esta noite marca a festividade mais importante de Lisboa. ANTÓNIO COTRIM/LUSA
Os moradores do bairro da Bela Flor, em Campolide, apresentam-se durante o desfile das "Marchas Populares" de Lisboa — integrado nas celebrações de Santo António — na Avenida da Liberdade, em Lisboa, Portugal, a 12 de junho de 2026. Todos os anos, na véspera do dia de Santo António, cerca de 20 bairros de Lisboa desfilam com trajes coloridos e cantam canções populares em honra do santo casamenteiro. Esta noite marca a festividade mais importante de Lisboa. ANTÓNIO COTRIM/LUSA
Os participantes do bairro da Penha de França apresentam-se durante o desfile das "Marchas Populares" de Lisboa, integrado nas celebrações de Santo António, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, Portugal, a 12 de junho de 2026. Todos os anos, na véspera do dia de Santo António, cerca de 20 bairros de Lisboa desfilam com trajes coloridos e entoam canções populares em honra do santo casamenteiro. Esta noite marca a festividade mais importante de Lisboa. ANTÓNIO COTRIM/LUSA






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