“Senti vergonha no dia em que percebi que o mundo era uma farsa e que eu apareci com o meu próprio rosto.”
-Franz Kafka
A minha mãe ajudou-me a escolher a roupa – um par de calças pretas e uma camisa branca. Sapatos pretos. «Se queres vender livros, tens de estar apresentável», disse-me enfaticamente. Cumpri com tanto rigor as suas ordens que essa indumentária se tornou uma espécie de farda oficial. Na verdade, aquela era a minha melhor roupa.
Levava na minha pasta vários panfletos, dois exemplares de A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, contratos de compra e duas esferográficas, caso uma falhasse.
Eu não gostava daquela atividade. Preferia o remanso da nossa casa após um dia na escola. Mas os nossos recursos económicos eram escassos. Se eu queria alguma liberdade económica para as minhas pequenas extravagâncias de jovem, tinha de trabalhar.
Saía pela tardinha. As ruas escureciam. O objetivo era encontrar as pessoas em casa. Nos fins de semana, sobretudo aos sábados, começava a minha atividade mais cedo.
Nessa tarde, comecei pelo bairro de Alvalade, uma área de classe média alta de Luanda.
Numa das moradias, ao tocar à campainha, apareceu um sujeito de barba, alto, de meia-idade, o olhar atravessado por uma nuvem de curiosidade e sisudez.
— Estou prestes a sair para o cinema, mas entra. Dou-te dois minutos para explicares ao que vens — disse.
O tom, pouco amigável, não me agradou. Fechei o portão de ferro e avancei com a sensação de me dirigir a um tribunal.
Na sala, ampla e cheia de plantas, uma estante de madeira escura com livros dominava, com solenidade, uma das paredes. Pareceu-me haver ali uma boa perspetiva de venda.
O meu juiz, um homem de posses, ereto e com solenidade de estátua, indicou-me o sofá de couro com uma mão muito branca e autoritária. Foi uma ordem, não um gesto amigável de acolhimento.
Pouco à vontade, fiz a minha apresentação o mais rapidamente possível. Ele ouviu-me com ar nonchalant, recostado no cadeirão, sustentando uma pose de imperador afetado, pernas cruzadas e um dedo inquieto ponteando a barba grisalha, como se fosse um instrumento musical de cordas. Estendi-lhe um exemplar da enciclopédia. Ignorou-o. Coloquei o livro na pasta, dobrei os panfletos e arrumei-os.
— Acabaste? — disse, consultando o relógio. — O que trazes aí não me interessa. Tenho livros que bastam —, sentenciou.
— Por tua culpa, perdi o filme — disse, agastado.
Ergueu-se com a solidez de um patriarca inquestionável. Acompanhou-me à porta enquanto meneava a cabeça e a eloquência despótica. Fechou a porta com uma autoridade sonora e inquestionável.
Tropecei no escuro da rua com passos indecisos. Os candeeiros já iluminavam os passeios. Saí irritado.Tinha recebido a maior lição de arrogância de toda a minha vida. Vender livros era, afinal, tão abominável quanto roubar um banco?
Apressei-me. Ainda não tinha jantado e enfrentava uma caminhada de quase uma hora até casa.
Hoje, ao relatar isso, reparo ao meu redor. Também tenho muitos livros. Eles dão cor às minhas paredes, volume e majestade. Não os tenho por ostentação; acompanham-me a cada dia. Agradeço a quem os escreve, a quem os vende e a quem os distribui. Hoje e sempre, e sem culpar ninguém pelo meu abandono e pela minha imensa curiosidade pelo mundo que descobrimos entre o silêncio das palavras entre capas.



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