Há críticos que comentam livros. E há críticos que ajudam a fundar geografias literárias. Ao celebrar os 75 anos de Vamberto Freitas, celebramos mais do que uma carreira — celebramos um olhar. Um olhar que lê, que escuta, que reconhece, que liga margens. E celebramos também um pequeno/grande livro que lhe presta tributo: Um Olhar que Lê – Homenagem a Vamberto Freitas, publicado pela Letras Lavadas Edições em julho de 2025.
Este volume nasce no contexto da comemoração dos 40 anos da Nova Gráfica, casa tipográfica que, sob o impulso visionário de Ernesto Resendes, se tornou um dos pilares da edição nos Açores. A celebração editorial ganha forma através da Seleção Editorial Vamberto Freitas, composta por dez obras de autores dos Açores, da Madeira e do continente português, com capas concebidas pelo artista Urbano. Não se trata apenas de uma coleção: trata-se de um gesto cultural. Um gesto de confiança num crítico que sempre leu com critério, afeto e coragem.
Os dez títulos que integram esta constelação literária — de Celina Martins a Paula Cabral — revelam diversidade de géneros e vozes, mas uma unidade na exigência e na qualidade. Como se afirma na introdução, o que se reuniu foi mais do que testemunhos: são textos que revelam admiração, pertença e pensamento, compondo um retrato coral de quem foi lido com atenção e reconhecido com justiça.
Letras Lavadas, enquanto editora e livraria, tem desempenhado um papel decisivo na consolidação de um catálogo que cruza literatura insular e projeção nacional. O seu trabalho — aliado à persistência de Ernesto Resendes e a uma equipa extraordinária, é exemplo de como, a partir de uma região ultraperiférica, se pode construir uma casa editorial de alcance internacional, sem abdicar da identidade açoriana.
Cada texto deste livro é uma peça de reconhecimento. Celina Martins, em A Seiva da Luz, fala da “Fátria” atlântica e da luz como metáfora de comunhão literária, agradecendo a Vamberto a sintonia com as suas palavras. Ernesto Rodrigues, em Cruzeiro Literário, traça um panorama crítico da tradição portuguesa e reconhece em Vamberto um espaço singular de intervenção cultural, sublinhando a sua capacidade de pôr em livro as colunas efémeras do jornal. Teresa Martins Marques, com a metáfora do “milagre da ilha”, celebra a coleção como um oásis editorial e escreve: “Nenhum homem é uma ilha e todos somos arquipélago”. António Rego Chaves, ausente por razões de saúde, é evocado através de Memorial, onde a escrita surge como gesto de lembrança e libertação. Vasco Pereira da Costa destaca o papel do crítico como mediador essencial entre autor e leitor, reconhecendo em Vamberto um continuador da grande tradição crítica portuguesa. Alexandre Borges escreve um verdadeiro manifesto em defesa do livro como resistência ao ruído digital e agradece a Vamberto a sua dedicação à cultura açoriana. Leonor Duarte de Almeida associa a experiência insular à escrita e vê na coleção um projeto de cidadania cultural. Sara Calisto sublinha a leitura exigente e aberta do crítico, que reconhece vozes que percorrem caminhos menos trilhados. Aníbal C. Pires chama-lhe “instituição de utilidade pública para a literatura”, destacando o seu papel na divulgação da literatura açoriana e da diáspora. Paula Cabral termina com um testemunho profundamente humano, reconhecendo nele não apenas o crítico, mas também o homem bom.
Ao longo de décadas, Vamberto Freitas tem sido um dos principais divulgadores da literatura portuguesa, com especial atenção à literatura dos Açores e à produção da diáspora açoriana nos Estados Unidos e no Canadá. A sua obra crítica — que inclui a série BorderCrossings: Leituras Transatlânticas — construiu pontes entre ilhas e continentes, entre línguas e tradições. O seu mérito não está apenas na análise estética, mas na capacidade de formar leitores, contextualizar autores, e integrar a literatura açoriana no mapa mais amplo da cultura portuguesa e internacional. Ele não hierarquiza periferias: revela centros onde outros veem margens.
Um Olhar que Lê é um tributo, mas é também um manifesto silencioso. Num tempo de pressa e superficialidade, este pequeno/grande livro lembra-nos que a literatura continua a ser um lugar de pensamento, de beleza e de liberdade.
Celebrar os 75 anos de Vamberto Freitas é reconhecer que a crítica literária, quando feita com rigor e humanidade, pode mudar o mundo. Pode mudar a forma como lemos, pensamos e pertencemos. E isso, em si, já é revolução suficiente.
Vale a pena ler este livro. Para compreender o percurso de um crítico que nunca deixou de acreditar na força das palavras. Para perceber como, a partir das ilhas, se pode falar ao mundo. E para confirmar que a literatura — quando lida com atenção — continua a ser uma das últimas formas de esperança.





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