Quando todo um país se revê nas quinas, que representam os cinco reis mouros que D. Afonso Henriques derrotou na Batalha de Ourique há quase 900 anos, é inegável a íntima relação entre Portugal e a Igreja Católica, que já teve um papa português. E foi isso que senti quando, numa entrevista ao novo núncio em Lisboa, D. Andrés Carrascosa Coso não só me relembrou sermos “um povo que tem uma relação especial com a Santa Sé”, como que na História houve bulas que se tornaram “um elemento constitutivo da identidade internacional de Portugal”.
Ora, que bulas, ou decretos papais, escritos em latim, foram essas? Três exemplos: a bula de 1179 reconheceu a independência de Portugal, confirmando que com o Tratado de Zamora Afonso Henriques deixara de ser vassalo do rei de Leão; a bula de 1493 validou a divisão do mundo a descobrir por portugueses e espanhóis; e a bula de 1670 reconheceu a dinastia de Bragança e a restauração da Independência.
Claro que Portugal hoje é um Estado laico, que lida com a Igreja Católica tendo em conta a força da tradição e a influência que esta mantém na sociedade. Essa força e essa influência sobressaem quando um papa está de visita. Foi geral a alegria popular quando Paulo VI participou nos 50 anos das Aparições de Fátima. Ou quando João Paulo II e Bento XVI lá foram. E mais recentemente quando Francisco participou no centenário de Fátima e voltou para a Jornada Mundial da Juventude em Lisboa.
Portugal tem fama de ser o país com mais cardeais ‘per capita’. Seis. Quatro deles nomeados pelo papa que morreu no ano passado. “O papa Francisco tinha um carinho muito especial por Portugal. Vê-se isso nesse gesto de criação dos cardeais, que é muito pessoal. Se pensarmos no Brasil, por exemplo, devem ser uns sete ou oito. É um privilégio”, realçou o núncio, um espanhol que trata Leão XIV por tu, pois foi colega de curso do americano há quatro décadas.
Já se sabe que o novo papa virá a Fátima, só falta quando, garantiu o embaixador da Santa Sé em Lisboa, uma das duas cidades do Ocidente com um Patriarca (a outra é Veneza).
* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.





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