Há ocasiões que não se repetem. Na sexta-feira, 18 de setembro de 2026, às 5:15pm, o ator português Manuel Wiborg lê a «Ode Marítima» (1915), de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, em sessão bilingue, em português e em inglês, na sala AUD102 do MacLean Campus Center da UMass Dartmouth. A entrada é livre e aberta a todos. Às 7pm segue-se uma receção nos Ferreira-Mendes Portuguese-American Archives (use o estacionamento 5). A iniciativa é do Center for Portuguese Studies and Culture e dos Arquivos Ferreira-Mendes, em colaboração com o Departamento de Português (BA, MA, PhD); para mais informações, contacte António Ladeira (aladeira@umassd.edu). Wiborg — fundador da companhia Atores Produtores Associados e rosto conhecido da televisão portuguesa (por exemplo, «Conta-me Como Foi», RTP) e leitor público de poetas que vão de Camões a Pessoa — empresta a voz a uma das maiores obras do modernismo português e europeu.
A «Ode Marítima» ocupou o centro do segundo e último número da revista Orpheu (Lisboa, abril-maio-junho de 1915), assinada por «Álvaro de Campos, Engenheiro», o heterónimo naval de Pessoa. É o mais extenso poema pessoano: 904 versos na edição em linha do Arquivo Pessoa, que aqui sigo. Orpheu escandalizou Lisboa — a imprensa tratou os seus autores como casos de manicómio — e poucas páginas terão parecido tão perigosas como esta ode, que junta, num só delírio, os dois assuntos do meu título: a máquina e o sexo. Os dois viajam juntos.
Comecemos pela máquina. Campos é engenheiro e ama a civilização moderna; sozinho num cais de Lisboa, numa manhã de verão, vê entrar um paquete — e sente arrancar dentro de si um «volante», a roda de inércia das máquinas a vapor. A tecnologia não é cenário: é motor interior. Ouça-se o momento em que o delírio engata:
Penetram-me fisicamente o cais e a sua atmosfera,
O marulho do Tejo galga-me por cima dos sentidos,
E começo a sonhar, começo a envolver-me do sonho das águas,
Começam a pegar bem as correias-de-transmissão na minh’alma
E a aceleração do volante sacode-me nitidamente.
(versos 212-216)
O cais «penetra», o Tejo «galga», e a alma tem «correias-de-transmissão»: o vocabulário da oficina torna-se vocabulário da intimidade. É o que chamo a Natureza expandida do poema. Já não são os campos, os bosques e as fontes dos líricos: é o vapor que traz a manhã, o guindaste que floresce com ela, o volante que faz girar a alma. Quando, mais adiante, o comércio mundial de exportação e importação correr «como se fosse por leis naturais» (verso 778), percebe-se o alcance da operação: na idade do vapor, a máquina herdou os poderes e os predicados da Natureza.
Mas esse volante interior, acelerando, leva o poeta-engenheiro para onde a lei da terra não chega. O alto mar sempre foi, na imaginação europeia, uma zona franca — e a ode di-lo sem rodeios: «Fugir convosco à civilização! / Perder convosco a noção da moral!» (versos 338-339). A mesma tecnologia que encurta distâncias e regulariza horários transporta o desejo, no sonho acordado do poema, para longe de toda a vigilância: para o convés dos piratas, onde tudo parece permitido porque nada é terrestre.
E aqui está o escândalo de 1915, impresso preto no branco. No auge do delírio, o engenheiro civilizado pede aos «bárbaros do antigo mar» exatamente isto:
Beijai com cutelos de bordo e açoites e raiva
O meu alegre terror carnal de vos pertencer.
A minha ânsia masoquista em me dar à vossa fúria,
Em ser objeto inerte e sentiente da vossa omnívora crueldade,
Dominadores, senhores, imperadores, corcéis!
(versos 574-578)
A palavra «masoquista», então recentíssima, cunhada pela psiquiatria oitocentista a partir do nome do escritor Sacher-Masoch, entra de rompante na página de uma revista literária portuguesa. O civilizado sonha ser vítima; o educado no estrangeiro quer perder a educação; o engenheiro pede para ser «objeto». Note-se, porém, o essencial: tudo isto acontece na imaginação, num cais, numa manhã de trabalho. O poema acorda do seu próprio delírio, regressa ao «mundo real», aos escritórios, às faturas e aos vapores de carga, e os sentimentos voltam a ser «naturais e comedidos como gentlemen» (verso 805). A licenciosidade precisa do mar largo; a manhã de expediente devolve-a ao porto.
Eis a ligação que o título anuncia. Na «Ode Marítima», a técnica moderna expande a Natureza — dá-lhe vapores, correias, carvão e leis de comércio — e, ao mesmo tempo, abre ao desejo um espaço sem terra à vista. O escândalo sexual é filho da tecnologia marítima: sem o navio não há longe; sem o longe não há licença. Até a grandeza do mar é fabricada pela técnica: «Esses mares, maiores, porque se navegava mais devagar» (verso 203) — o vapor encolheu o oceano e obrigou o poeta a sonhá-lo de novo. Poucos poemas terão dito com tanta força que a máquina não transporta apenas mercadorias — transporta também a alma, e a alma leva consigo, clandestinos, os seus apetites. O mais surpreendente é que quem o diz não é um poeta contra as máquinas: é um engenheiro que as beija «com a alma» (verso 196) e que, no fim, entregará a última emoção do poema ao giro lento de um guindaste.
A ode foi feita para a voz. Tem gritos de faina, cantigas de pirata em inglês («Fifteen men on the Dead Man’s Chest…»), onomatopeias, sussurros de embalo e o apito final de um vapor que parte. Ouvi-la dita por Manuel Wiborg, nas duas línguas da nossa comunidade, a poucos passos dos cais de New Bedford — onde tantas famílias sabem por experiência o que é partir e chegar por mar —, é devolver a obra ao seu elemento.
Quem quiser preparar o ouvido tem à mão inúmeras edições da «Ode Marítima», em português, em inglês e em muitas outras línguas. E há uma edição gratuita, em linha, no Arquivo Pessoa: Obra Édita (pesquise no Google!). Leve o poema no telemóvel ou no bolso — e apareça na sexta-feira, 18 de setembro, às 5:15pm, na UMass Dartmouth. A entrada é livre; a memorável viagem, garantida.





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