Soccer, “Football”, America, Portugal

by | Jul 8, 2026 | Expressamendes

 

Quando o Soccer venceu o Football

Com o Campeonato Mundial de Futebol da FIFA 2026 em curso, justifica-se lembrar uma das mais inesperadas vitórias nesta competição. Foi no Mundial 1950, no Brasil, a seleção dos EUA derrotou a superfavorita Inglaterra, que ostentava um palmarés de 23 vitórias, quatro derrotas e três empates nos anos que se seguiram ao final da Segunda Guerra Mundial e da qual faziam parte famosos profissionais como Stanley Matthews e Tom Finney, futuros Sir do pontapé na bola.

Quanto aos EUA, tinham perdido os últimos sete jogos internacionais e, montada à pressa poucos dias antes do jogo com a Inglaterra, a seleção incluía futebolistas amadores, muitos deles imigrantes e que o jornal Belfast Telegram descreveu como “um bando de azarentos vindos de muitas terras”.

Era o terceiro campeonato mundial de futebol, que então se chamava Taça Jules Rimet, em homenagem ao presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA), que em 1928 tivera a ideia de reunir de quatro em quatro anos seleções nacionais na disputa de um campeonato mundial, o primeiro dos quais foi no Uruguai em 1930 com a seleção anfitriã a sagrar-se campeã e a norte-americana classificar-se em terceira.

O Mundial de 1950 foi o quarto (entre 1942 e 1946, a competição esteve suspensa devido à Segunda Guerra Mundial) teve lugar no Brasil e os ingleses começaram no grupo 2 vencendo o Chile por 2-0 no recém inaugurado Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. Quanto aos EUA, começaram perdendo 3-1 com a Espanha.

O Brasil perderia depois 2-1 com o Uruguai no Maracanã, mas o jogo de que ainda hoje se fala foi o Inglaterra-EUA a 29 de junho de 1950, no Estádio Independência, em Belo Horizante.

Os ingleses eram tão favoritos que as casas de apostas londrinas ofereciam 500 para 1 às pessoas que apostassem nos americanos. Porém, inesperadamente, aos 39 minutos do primeiro tempo, Joe Gaetjens, imigrante haitiano que lavava pratos num restaurante de New York, recebeu um passe de Walter Bahr, que era professor e, numa cabeçada, fez um dos resultados mais inesperados da história do futebol.

A Inglaterra atacou todo o segundo tempo, mas o guarda-redes dos EUA, Frank Borghi, antigo jogador de beisebol que conduzia um carro funerário em St. Louis, esteve imbatível e os americanos derrotaram os Reis do Futebol por 1-0.

Quando o telegrama com o resultado do jogo chegou a Londres, os jornalistas britânicos pensaram tratar-se de erro, não acreditavam que os inventores do jogo tivessem perdido com os incipientes americanos, e vários jornais publicaram a notícia dando a vitória à Inglaterra por 10-1, num erro comparado ao famoso título “Dewey Beats Truman” do Chicago Tribune em 3 de novembro de 1948, declarando o triunfo do republicano Thomas E. Dewey nas eleições presidenciais quando na verdade o democrata Harry Truman tinha sido reeleito.

A história está contada em livro por Geoffrey Douglas (“The Game of Their Lives: The Untold Story of World Cup’s Biggest Upset”) e em filme realizado em 2005 por David Anspaugh (“The Game of Their Lives”).

O mais curioso é que a maioria dos norte-americanos nem sequer teve conhecimento do triunfo. Em primeiro lugar, o futebol, que os norte-americanos chamam de soccer, não era um desporto popular e, por outro lado, os jornais tinham também um assunto mais alarmante para cobrir: quatro dias antes do jogo, a Coreia do Norte tinha atravessado o paralelo 38, invadira a Coreia do Sul, e, apenas seis anos após a Segunda Guerra Mundial, os EUA estavam envolvidos na Guerra da Coreia (1950-1953), em que morreram 54.000 americanos.

Entretanto, os britânicos precisariam de 16 anos para conquistar o seu primeiro e único título mundial (1966) e os norte-americanos só 40 anos depois, em 1990, voltariam a participar no Mundial de Futebol.


 

O legendário Ponta Delgada Soccer Club

Dois jogadores da seleção americana de 1950 faziam parte do Ponta Delgada Soccer Club, formado em 1915 por imigrantes micaelenses de Fall River e que nas décadas de 1930, 1940 e 1950 foi um dos clubes amadores de maior sucesso nos EUA, ganhando seis vezes a National Amauter Cup.

Fundado em Fall River, o Ponta Delgada Soccer Club instalou a sua sede na Shove Street, em North Tiverton, RI, para evitar as Blue Laws que vigoravam em Massachusetts e proibiam comércio ao domingo, que era o dia de maior movimento no bar do clube.

Eram os tempos da Grande Depressão e das grandes reivindicações laborais. Fall River tinha mais de uma centena de fábricas e milhares de imigrantes ingleses, irlandeses, franco-canadianos, polacos, italianos e portugueses, que trabalhavam duro e queriam divertir-se ao domingo assistindo ao seu desporto favorito, o futebol.

Havia equipas de futebol mais ou menos profissionais em todas as cidades industriais da Nova Inglaterra e só em Fall River eram quatro além do Ponta Delgada: Fall River Marksmen, Fall River Rovers, Fall River Football Club e Fall River United.

Mas o Ponta Delgada Soccer Club começou a dar nas vistas em 1938 ao ganhar pela primeira vez a National Amateur Cup, com uma equipa em que brilhavam  Clarkie Souza e Ed Souza. O Ponta Delgada ganhou a Amateur Cup três vezes consecutivas entre 1946 e 1948 e novamente em 1950 e 1953, e chegou três vezes à final da National Challenge Cup, vencendo a competição em 1947.

O êxito do Ponta Delgada SC valeu a convocação de quase toda a equipa para representar os EUA no North American Football Confederation Championship que decorreu entre 13 e 20 de julho de 1947 e era uma versão reduzida da atual Taça dos Libertadores.

Em 1948, a seleção dos EUA nos Jogos Olímpicos de Londres foi à base do Ponta Delgada, era capitaneada por Joseph Rego Costa e incluia ainda Manuel Martin, Joe Ferreira e os inseparáveis Ed e Clarkie Souza.

A era das equipas de futebol mais ou menos fabris passou à história, o Ponta Delgada Soccer Club acabou com o futebol e, em 1985, alterou o nome do clube para Patriot Bar & Grille, continuando a funcionar em North Tiverton como bar e restaurante e aos fins de semana organizava festas portuguesas tradicionais, como o Espírito Santo.

Inesperadamente, em 2008, o velho Ponta Delgada Soccer Club fechou portas. O presidente, Bob Souza, esclareceu que o clube tinha sido multado por não instalar um sistema de sprinklers e atualizar os alarmes de incêndio, e a melhor alternativa era fechar.

Apesar do final inglório, ficam as memórias, o Ponta Delgada Soccer Club faz sem dúvida parte do génese do futebol nos EUA.


 

Portugueses no Soccer Hall of Fame

O National Soccer Hall of Fame em Frisco, Texas, consagra mais de 300 jogadores, dirigentes, treinadores e árbitros do futebol, entre os quais Pelé (jogou no New York Cosmos em 1975-76) e Franz Beckenbauer (também jogador do Cosmos, 1977-80 e 1983).

Os responsáveis pela vitória americana sobre a Inglaterra em 1950 também foram lembrados em 1976: Walter Bahr, que fez o passe, Joe Gaetjens, que marcou o golo e Frank Borghi, que impediu os ingleses de marcarem, e as duas glórias do Ponta Delgada, Ed Souza e Clarkie Souza.

Eram ambos filhos de açorianos. Ed, que se chamava Eduardo Souza Neto, era de Warren, RI, onde faleceu em 1979, com 58 anos. E Clarkie, que nasceu em Fall River em 1920 e chamava-se John Benevides Souza, mas ganhou a alcunha de Clarkie nos campos de futebol por ser parecido com o ator Clark Gable.

Regressado do Brasil, Clarkie não voltou ao Ponta Delgada, passou a representar o New York German Hungarian e conquistou a US Amateur Cup de 1951.

Considerado um dos maiores futebolistas americanos de sempre, foi internacional 14 vezes entre 1947 e 1954, numa época em que os jogos internacionais eram como a Páscoa, uma vez no ano.

Clarkie Souza morreu em 2012 com 91 anos e está sepultado no cemitério nacional de Bourne, no Cape Cod, uma vez que era veterano da Segunda Guerra Mundial.

Outro lusodescendente daquela época que figura no National Soccer Hall of Fame é Adelino William Gonsalves, nascido em 1908 em Portsmouth, RI, filho de madeirenses.

Era conhecido como Billy Gonsalves, mas ganhou a alcunha de Piano Legs e foi a maior estrela do futebol do seu tempo.

Gonsalves passou mais de 25 anos a jogar em várias ligas profissionais americanas e fez parte da seleção dos Estados Unidos de 1930 e 1934.

Nos anos 30, a American Soccer League entrou em declínio e Gonsalves ingressou nos Stix, da St. Louis Soccer League, onde ganhou mais uns títulos representando equipas como Central Breweries FC e St. Louis Shamrocks. Em 1938, Gonsalves transferiu-se para o Manhattan Brewing Company of Chicago, mas dois anos depois estava de volta a New York e sagrou-se campeão em 1941 pelo Healy FC. Em 1947, ingressou no Newark FC, onde encerrou a carreira em 1952, aos 44 anos.

Gonsalves teve uma carreira nas ligas profissionais de futebol dos Estados Unidos, conquistando, entre muitos outros títulos, três campeonatos da American Soccer League e oito títulos da US Open Cup.

Jogou seis vezes pelos Estados Unidos, marcando um golo, numa época em que os jogos da seleção nacional eram raros, e participou nos Campeonatos do Mundo de Futebol de 1930 e 1934, levando os Estados Unidos à sua melhor posição de sempre, o terceiro lugar em 1930, e perdendo em 1934 para a Itália, que viria a ser a campeã do mundo.

Billy Gonsalves faleceu em 1977, aos 69 anos, e ainda hoje é lembrado como “o Babe Ruth do futebol americano”.

 

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