Sara Correia revela a sua urgência em cantar no novo álbum, “Tempestade”

by | Feb 25, 2026 | Cultura, Outras Notícias, Outros

 

Lisboa, 25 fev 2026 (Lusa) – A intérprete Sara Correia disse que o seu novo álbum, “Tempestade”, a editar na sexta-feira, revela a sua urgência de cantar, e de falar sobre si e sobre a vida.

“É sem dúvida um disco com muito, muito de mim, com muita história minha, com muitas reflexões pessoais da minha vida e, portanto, é um disco de muita urgência; urgência não só de cantar, mas de falar sobre mim”, disse Sara Correia em entrevista à agência Lusa.

Neste álbum, produção do músico Diogo Clemente, que a acompanha desde o primeiro disco, a fadista gravou exclusivamente poemas de mulheres e num dos temas, “anto” (Carolina Deslandes/Rodrigo Correia) chama a atenção para a violência doméstica. Este é, um dos temas que a “preocupa bastante”.

Sara Correia disse que hoje pode-se falar da violência doméstica, “está um pouco mais exposto”, o crime, quando “antigamente pouco se sabia”.

Reconhecendo que este assunto “está ainda um pouco em silencio”, trazê-lo para o seu álbum tem como objetivo “ser um pouco um farol para quem puder estar numa situação destas, e, acima de tudo, para poder ajudar – que as pessoas que estejam no fundo possam ver uma luz. Acima de tudo, é esta a mensagem do tema”.

“Avisem que eu Cheguei” (Carloina Deslandes/Diogo Clemente) é o tema com que abre o álbum, “um cartão de visita”, no qual afirma que é fadista e vem para intervir, recuperando, de certa forma, uma tradição do fado de protesto social, de princípios do século XX. Para a intérprete, “é isso mesmo”.

“Enquanto fadista/artista é para isso, eu acho que tenho essa bandeira de poder falar e cantar, porque tenho a possibilidade de as pessoas me ouvirem. Acho que essa é também a minha missão. Eu acho que enquanto fadista também sou mensageira destas causas, destas bandeiras. Enquanto o puder fazer, vou fazê-lo ‘até que a voz me doa’, porque acho que é um direito nosso e podemos alcançar muito mais pessoas”, declarou.

A criadora de “Eu sou de Chelas” (Carolina Deslandes/Diogo Clemente) considera que deve levantar a sua voz em prol dos Direitos Cívicos e dos Direitos Humanos.

“Um artista pode ajudar nesse sentido, não só falar de amor, de mágoas e estas coisas do dia-a-dia, mas também falar das situações da vida e do mundo”, defendeu.

À Lusa, Sara Correia disse que pretende juntar a sua voz “para que o mundo fique melhor”.

Do alinhamento de 11 temas fazem parte um poema de Florbela Espanca, “Ódio”, e outro de Sophia de Mello Breyner Andresen, “Nevoeiro”, ambos musicados por Diogo Clemente.

O álbum “Tempestade” começou a ser trabalhado no ano passado, disse a fadista referindo: “Fomos desenvolvendo a nossa criatividade, mas acima de tudo ter um passado, um presente e um futuro, procurando autoras jovens, ou da minha geração, mas faltavam-nos aquelas mulheres que já fizeram muito anteriormente a nós”, daí a escolha das duas poetisas.

“Não há ninguém para mim, sem ser a Florbela Espanca e a Sophia, além de algumas outras, que falassem mais da dor e que fossem mulheres de superação do que elas, e tinham de estar neste álbum”, afirmou.

“Eu tenho um pouco de todas estas mulheres, são as mil mulheres de que eu falo [no tema ‘Canto’]”, disse.

Sara Correia realçou “a forte ligação do fado à poesia”.

Todos os poemas são de autoria feminina, uma escolha propositada, sublinhou. “Mulheres que falassem desta força que a mulher traz e se supera, e – porque não? – fazer deste álbum ‘Tempestade’ várias tempestades que se transformam em arte”.

Além de Carolina Deslandes, Florbela Espanca e Sophia de Mello Breyner Andresen, as outras autores, algumas que já escreveram para a fadista em álbuns anteriores, são Cátia Mazari Oliveira, Márcia, Ila Duarte, Mafalda Arnauth, Beatriz Pessoa e Aldina Duarte, que Sara Correia grava pela primeira vez.

“Fado Sara”, de Aldina Duarte, que interprete no Fado João, de João do Carmo Noronha, encerra o álbum e “é o mais especial”, segundo a fadista.

“É o retrato da pequena Sara. Eu vejo a Sara pequenina nas casas de fado e a Sara de hoje em dia. Faz a ligação do passado ao futuro e fala das duas mulheres mais importantes da minha vida, que são a minha fortaleza, que são a minha mãe e a minha avó, que me ajudaram neste caminho. E a Aldina soube retratar isto melhor que ninguém”.

A fadista realçou o facto de “muitas destas autoras” já terem escrito para si e a “conhecerem muito bem” e saberem a mulher e a artista que é: “Foi o que tornou mais fácil escrever e chegar a um consenso”.

Entre os temas, destacou “a beleza, quase uma filigrana”, que “é uma estrela muito brilhante”, de “As mãos do meu carinho”, de Mila Dores, que considera “talvez das nossas melhores compositoras”. Foi também um tema que viu crescer à sua frente, ao piano.

A escolha do nome do álbum, “Tempestade”, remete para “todas as coisas” que ultrapassou no ano passado, como ter sido operada às cordas vocais, sem saber “se ia cantar da mesma maneira”. “Entrei a achar que tinha um quisto e saí de lá sem três”.

“Foi um processo muito complicado para mim. Uma coisa eu aprendi, que a voz não é minha e que eu tinha de ultrapassar isto e fazer o que mais gosto”.

“Este disco relaciona-se com muitas tempestades que tenho cá dentro e consegui ultrapassá-las. Por baixo mesmo da tempestade havia aqui uma calmaria e uma fragilidade minha que me deram força a seguir para fazer este álbum”.

 

 

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