De Samuel Usque sabe-se que nasceu em Lisboa por volta de 1490, de uma família de judeus oriundos de Huesca, em Aragão. A perseguição feita pela Inquisição, mesmo aos membros da comunidade judaica que tinham aceitado a conversão ao catolicismo, levou ao exílio de milhares de portugueses, que encontraram refúgio nos Países Baixos, na Itália ou no Império Otomano. Usque instalou-se em Ferrara, mas sabe-se que nas suas viagens esteve em Salónica, cidade grega grande pólo do judaísmo, e em Safed, no atual Israel.
Usque é famoso por ser o autor de uma obra essencial do judaísmo, refletindo sobre a resposta a dar às perseguições, com o título ‘Consolação às atribulações de Israel’. Publicada em 1553 em Ferrara, foi escrita em português. No prólogo, o autor explica o porquê de ter usado a língua do país onde nasceu, mas que também o obrigou a fugir para salvar a vida: “desconveniente era fugir da língua que mamei e buscar outra emprestada para falar aos meus naturais”.
‘Consolação às atribulações de Israel’ foi dedicada por Usque a Grasia Mendes Nasi, judia nascida em Lisboa que se tornou uma grande banqueira europeia e, instalada no Império Otomano, chegou a promover a emigração de judeus para Tiberíades, na chamada Terra Santa. É conhecida como ‘A Senhora’, e tema de vários livros.
Nessa mesma oficina em Ferrara, propriedade de Abraão Usque, um familiar de Samuel, foi feita em 1554 a primeira impressão de ‘Menina e moça’, de Bernardim Ribeiro, considerado um clássico da literatura portuguesa.
Não se sabe a data da morte de Samuel Usque, nem o local. Há a possibilidade de ter morrido em Safed.
* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.





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