Parte-se o pão — não em comunhão, mas em silêncio. Na terra das searas douradas e das correntes invisíveis, um presidente assinou a fome de quarenta e dois milhões de almas.
Assinou-a com a mesma mão que abençoa os mercados e amaldiçoa a piedade, a mesma mão que alimenta os ricos com o tutano dos pobres. Novembro — o mês do agradecimento — ficou marcado por muitas mesas vazias.
O vento nas planícies sussurrou SNAP — não o estalar da colheita, mas da fratura.
O Programa Suplementar de Assistência Alimentar — nome doce, nome burocrático da misericórdia — foi refém, amarrado e amordaçado pela política. Os oligarcas jantaram sob candelabros de luz; as crianças comiam sombras. O sino da bolsa de valores tocou como sino de jantar para os deuses do capital, enquanto os trabalhadores faziam fila às portas das instituições de caridade, os controladores de tráfego aéreo paralisados pela fome, os funcionários públicos contaram moedas onde antes havia salários.
Dizem que era ilegal alimentar os pobres sem autorização. Mas nunca foi ilegal deixá-los morrer de fome. Há sempre razões — constitucionais, logísticas, divinas — para a crueldade quando Deus é o índice Dow Jones. A fome tornou-se método de governo; a desnutrição, instrumento da lei. Cada refeição perdida foi uma linha de escritura reescrita no Livro da Ganância e da Indiferença.
Lá fora, os monumentos mantiveram a calma de mármore. Dentro, Steve Bannon declarava guerra. A sua voz, um farol de nevoeiro apocalíptico: Tomaremos as instituições e purgá-las-emos. E algures nas sombras da Casa Branca, brilhou um salão de baile — trezentos milhões de dólares de opulência erguidos sobre os ossos dos que têm nas despensas apenas pó.
Houve outrora um plano — chamava-se Fome — redigido noutro século por outro governante,
um projeto para matar à míngua milhões, até que a terra pudesse ser reclamada. Agora, esse fantasma caminha de novo pelos corredores do poder, usando gravata vermelha e murmurando “América Primeiro”. A história, ao que parece, não se repete; apenas volta a ter fome.
Os democratas abanaram o dedo e baixaram a cabeça. A sua covardia teve o leve odor da cedência e do mofo. Pedaim, educadamente, humanidade — mas não se consegue negociar com quem vê o pobre como um dado descartável. Na sua hesitação, os oligarcas ergueram altares do lucro, e os fiéis de Wall Street entoavam: Ámen, Ámen, Ámen.
Até os sindicatos perderam o trovão. As suas declarações cheiravam a neutralidade, como se a fome fosse bipartidária, como se o estômago vazio tivesse cor política.
Clamavam por líderes; mas a única liderança que restou foi o rugido de um ventre faminto.
E, no entanto — no silêncio entre salários, nas filas diante dos bancos alimentares, nas fábricas onde as máquinas rezavam mais alto do que as vozes, algo começou a mover-se. Um murmúrio, um pulso, uma memória. Os trabalhadores — a maioria, o músculo, o coração — voltaram a saborear o amargor da sua força. Não foram nem nunca serão o “inimigo interno”, como Donald Trump os nomeia; foram e são a república soterrada, à espera, sob os escombros das bandeiras e dos slogans.
Se os ricos têm o salão de baile, os pobres têm o coro. Se o Estado ergue muros, os famintos erguem ecos. E desses ecos nasce um voto: nunca mais a fome de uma criança será moeda de chantagem, nunca mais o corpo do trabalhador alimentará o banquete dos poucos.
Daí que estamos na América, de pé, diante da mesa — mas não há banquete. Apenas o tilintar tímido das facas contra a consciência. Apenas o murmúrio de muitos pratos vazios, rezando, como num salmo antigo:
Bem-aventurados os famintos, porque nada herdarão, até que se levantem para reconquistar o pão.




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