Quando os animais amam sem saber que amam

by | Dec 3, 2025 | Discurso Português

António Damásio escreveu em Sentir e saber: as origens da consciência (2021).que sem consciência o amor não seria amor, mas apenas sexo. A frase sugere reflexão porque separa dois mundos — o da química do corpo e o da experiência vivida. Para Damásio, o amor humano implica a capacidade de reconhecer o que sentimos, de ligar emoção e memória, de transformar um impulso num significado. Só assim neste contexto é possível falar realmente de amor, um sentimento singular na nossa espécie. 

Mas há quem vê um problema nesta certeza porque há muitos animais, obviamente sem linguagem nem consciência reflexiva, que se comportam como se amem. Quem tem animais de estimação, cães por exemplo, decerto teve a oportunidade de observar que o fazem com uma dedicação impressionante, por vezes ultrapassando as nossas expectativas em referência aos humanos. A questão deixa de ser se aquelas criaturas sentem amor como nós e passa a ser como sabemos nós que eles não sentem. Afinal não podemos manter uma conversa com eles. Como a empatia, durante muito tempo considerada exclusiva da espécie humana, também o amor pode ter sido mal definido desde o início.

A ciência nunca dependeu da comunicação dos próprios animais para perceber como vivem e o que experienciam ou pensam. A inferência que fazemos do seu comportamento, dependente de padrões e regularidades, não nos permite eliminar este obstáculo. Apenas conseguimos descobrir que, frequentemente, manifestam sinais óbvios de afeição, vínculo e perda. Em 2011, a revista Science publicou um artigo assinado por Inbal Ben-Ami Bartal, Jean Decety e Peggy Mason com o título “Empatia e comportamento pró-social em ratos” referente a um estudo em que a evidência suportou tal interpretação. Quando um parceiro está angustiado, o rato aproxima-se, toca-o, tenta acalmá-lo. E quando o parceiro desaparece, o animal muda o seu comportamento de forma tão drástica que seria desonesto chamar-lhe simples instinto. Há ansiedade, procura ativa, e até algo que se parece com tristeza.

O mesmo vale para a monogamia em muitas espécies. Lobos, gibões, cisnes, águias, castores e vários roedores formam pares duradouros, cuidam juntos das crias e defendem o companheiro até à morte. Não se trata apenas de sexo. Trata-se de ligação, ou de preferência. De escolha e presença. E quando perdem o parceiro, muitos exibem sinais equivalentes ao luto humano: isolamento, apatia, alterações no apetite, procura incessante. Se tudo isto não fosse acompanhado por alterações químicas e cerebrais equivalentes às nossas — oxitocina, vasopressina, dopamina, ativação dos circuitos de recompensa — talvez ainda pudéssemos duvidar. Mas é isto mesmo que a ciência mostra: a arquitetura do vínculo é surpreendentemente parecida.

Por isso, quando dizemos que estes animais “amam sem saber que amam”, estamos apenas apontando que possuem o afeto, mas não a consciência que o transforma numa narrativa interna. Não se trata do afeto que os separa de nós, mas a consciência. Nós amamos e sabemos que amamos; eles amam e não sabem que é isto que fazem.

É importante salientar que a ausência de linguagem não significa ausência de experiência. Um bebé não verbaliza amor, mas ama. Uma pessoa com afasia profunda não o exprime em palavras, mas continua a amar. O sentimento não nasce da linguagem, que só lhes dá forma. A grande desigualdade é que nós, humanos, transformamos a emoção em história. Recordamos o momento em que conhecemos alguém, imaginamos o futuro a dois, fazemos promessas. Criamos rituais, símbolos, expectativas. Elaboramos o amor. Os animais vivem-no.

Uma explicação do que realmente distingue o amor humano do amor animal requer uma resposta talvez mais simples do que parece: consiste na consciência reflexiva. Esta capacidade permite dar significado ao que sentimos, construir memórias, falar do futuro, integrar a emoção numa identidade. Esta camada adicional não elimina, porém, o núcleo biológico que partilhamos com outras espécies. O nosso amor é uma continuação, não uma invenção. A diferença não está no afeto, mas no modo como a mente o representa.

O erro histórico foi confundir durante séculos consciência com sentimento. Hoje, temos a noção experienciada que a consciência pode faltar, mas a emoção permanece intacta. Sabemos que o amor pode existir sem narrativa, sem metáfora, sem linguagem. Mesmo quando não há palavras, há comportamento suficiente para revelar uma verdade simples e desconcertante: os animais vivem o amor de forma silenciosa, direta e profunda — e nós só agora começamos a aceitar aquilo que sempre esteve à vista.

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