Houve um tempo em que o Atlântico parecia separar continentes. Lentamente, começou a uni-los. Fê-lo primeiro com as velas dos navios, depois com os aviões que cruzavam o céu sobre a Base das Lajes e, quase sem que ninguém desse por isso, também com a música. Um dia, o mar aprendeu jazz. E, desde então, nunca mais deixou de o guardar na memória das suas ondas.
A Terceira conhece bem essa história. Poucos lugares do Atlântico viveram um diálogo tão intenso com a América quanto esta ilha, onde o oceano nunca foi apenas fronteira, mas também caminho. Muito antes da palavra “globalização” entrar no vocabulário do mundo, já os sons de Nova Orleães, Nova Iorque ou Kansas City chegavam às ruas de Angra do Heroísmo, misturando-se com as filarmónicas, as bandas da terra e a profunda tradição musical açoriana.
A recente apresentação de Horizonte, o segundo álbum do Wave Jazz Ensemble, foi muito mais do que um momento feliz da programação cultural terceirense. Representou mais um capítulo de uma conversa iniciada há muitas décadas, quando o Atlântico deixou de ser apenas distância para se transformar numa ponte feita de melodias.
Porque o jazz nunca foi verdadeiramente estrangeiro na Terceira.
Depois da Segunda Guerra Mundial, a Base das Lajes transformou a ilha num dos mais singulares pontos de encontro do Atlântico. Com a chegada dos militares americanos, chegaram discos, emissões de rádio, grandes orquestras e os nomes de Duke Ellington, Count Basie, Charlie Parker, Dave Brubeck, Miles Davis e tantos outros, que mudaram a forma como muitos músicos terceirenses escutavam o mundo. Descobriram novas harmonias, ritmos inesperados e uma linguagem em que a improvisação parecia conversar diretamente com a liberdade.
Mas essa influência nunca foi apenas recebida. Os músicos da ilha responderam com criatividade. As filarmónicas descobriram novas possibilidades para os seus metais; pianistas e guitarristas ampliaram o seu vocabulário sonoro; novas gerações compreenderam que tradição e inovação não são forças opostas, mas formas diferentes de continuar a mesma conversa. O jazz não substituiu a música açoriana. Entrou em diálogo com ela. E desse encontro nasceu uma sonoridade profundamente atlântica.
Fundado em 2010, o Wave Jazz Ensemble tornou-se um dos mais belos herdeiros dessa história. Reunindo músicos provenientes das filarmónicas, da música clássica, do rock e do ensino artístico, o grupo demonstrou, com Horizonte, uma maturidade que confirma a vitalidade dessa herança cultural.
O próprio título do álbum parece resumir a condição insular.
Para quem vive rodeado de mar, o horizonte nunca é apenas uma linha distante. É memória e promessa. Foi por ele que partiram emigrantes e regressaram filhos da terra. Foi dele que chegaram navios, aviões e novas ideias. Como escreveu António Melo Sousa, o horizonte não é um limite, mas um convite permanente à descoberta — exatamente como acontece no jazz, onde cada improvisação abre um caminho que ninguém conhecia antes da primeira nota.
Talvez essa seja a verdadeira história da Terceira. A geografia tornou-a estratégica. A História fez dela um lugar internacional. Mas foi a cultura que a transformou num espaço de encontro. Muito antes de existirem “parcerias transatlânticas”, os músicos já construíam pontes invisíveis entre Angra e a América, respondendo não com imitações, mas com interpretações próprias.
O concerto terminou. O aplauso extinguiu-se e o silêncio voltou ao auditório. Mas algumas músicas recusam-se a terminar com a última nota. Permanecem na memória coletiva, lembrando-nos de que as ilhas nunca foram lugares de isolamento, mas territórios de encontro.
Talvez seja por isso que o jazz encontrou tão naturalmente casa na ilha Terceira. Porque, muito antes de aprender a improvisar, esta ilha já sabia escutar o oceano. E o Atlântico, esse velho viajante entre continentes, continua ainda hoje a ensinar-nos que há conversas que nunca terminam. Apenas mudam de ritmo, seguindo o compasso eterno das ondas.




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