Quando a Terra respira o futuro: um espaço para guardar e viver as ilhas

by | Nov 26, 2025 | Raízes e Horizontes

Há instantes na vida da diáspora que parecem nascer do mesmo sopro profundo que Vitorino Nemésio dizia vir “das ilhas que nos pensam por dentro”. Momentos em que a terra — essa mesma terra onde depositamos saudades, promessas e heranças — parece deter a respiração, como se escutasse o rumor antigo do Atlântico antes de se deixar abrir pela primeira pá. Assim aconteceu em Hilmar, quando uma fileira de pás brilhou contra a manhã cinzenta e iluminou o solo fértil do Vale de São Joaquim como quem abre um livro antigo para nele escrever mais uma página do Atlântico perpetuado. Cada corte não foi apenas um gesto ritual, quase litúrgico: foi também um pacto de sal e esperança entre as ilhas que deixámos e a terra que aprendemos a cultivar; um pacto que devolveu à diáspora o sentimento ancestral de que o futuro também pode germinar longe do mar, desde que a memória continue a respirar.

Ali, naquele pedaço de chão transformado em altar, percebeu-se que um novo ciclo da diáspora açoriana se abria — não apenas a construção de um edifício, mas também o nascimento de uma visão. A Casa dos Açores da Califórnia, fundada em 1977, voltou a inscrever o seu nome na longa narrativa da emigração. A Direção de 2025, presidida por George Costa Jr., um jovem dinâmico, talentoso, com raízes múltiplas que refletem a mistura criativa da diáspora contemporânea, e acompanhada pelo vice-presidente Comendador Manuel Eduardo Vieira, empresário de grande sucesso reconhecido pela sua filantropia, visão e dedicação incansável à causa açoriana – um homem tão vertical como a sua ilha do Pico, conduziu a cerimónia com o gravitas de quem sabe, como lembrava Natália Correia, que “a cultura não é ornamento — é a própria respiração da liberdade”. Entre membros, apoiantes e vozes que carregam consigo a cartografia íntima do arquipélago, reconheceu-se, naquele instante, a continuidade de uma história feita de travessias, de fé e de pertença — uma história que, apesar das distâncias, permanece sempre em formação.

As Casas dos Açores — essas ilhas em miniatura espalhadas pelo mundo — nasceram para acolher a diáspora que navegou por séculos em busca de horizontes maiores. São portos de abrigo onde a língua se protege do esquecimento, onde a fé se renova, onde os rituais se preservam como tesouros respiratórios e onde a insularidade se transforma em ponte. Há nelas um eco constante do que o escritor picoense Dias de Melo escreveu: “o coração aprende a carregar o peso do mar sem naufragar”. A Casa dos Açores de Hilmar tem sido, ao longo de quase meio século, uma dessas fortalezas da alma açoriana. Aqui ecoam ladainhas do Espírito Santo, aqui se misturam as vozes de várias gerações, aqui o Atlântico aprende a pronunciar-se em inglês sem perder o sotaque das ilhas. Hilmar tornou-se — quase por milagre, quase por teimosia — a aldeia açoriana mais vibrante da Califórnia, onde os laços diaspóricos permanecem firmes como a lava solidificada que molda as rochas das nossas ilhas.

O novo salão que agora se inicia será mais do que paredes e vigas: será, no sentido Nemesiano, um “lugar onde a alma pousa para se lembrar de si”. Um espaço onde a herança encontra a invenção, onde o mar encontra a planície, onde a tradição dança com a modernidade e onde a diáspora reconhece a sua pluralidade. Ali poderão brotar exposições, festivais literários, encontros transatlânticos, colóquios, celebrações e diálogos que façam pulsar a cultura como uma veia aberta do tempo. Será também um lugar onde o sonho de Álamo Oliveira — o da reconciliação entre o emigrante e o menino que ficou na ilha — encontrará abrigo. Um lugar que diz aos nossos jovens: “a tua identidade não é fragmento: é ponte.”

Para o Portuguese Beyond Borders Institute, da Universidade do Estado da Califórnia em Fresno, onde iniciativas como o Colóquio Cagarro, o Fórum da Diáspora Açoriana, as plataformas Novidades e Filamentos, e a Azorean-Diaspora Media Alliance, entre outras iniciativas, trabalham diariamente para aproximar ilhas e diáspora, este projeto da nova Casa dos Açores é motivo de orgulho profundo. Imaginamos já eventos que unam Hilmar e Fresno numa constelação viva de diálogos atlânticos: poesia que regressa ao lugar de onde partiu, romances que atravessam oceanos, artes visuais que celebram a insularidade, saberes que transitam entre continentes.

Quando a cerimónia terminou e o silêncio voltou ao terreno recém-aberto, não era um silêncio vazio. Era um silêncio cheio de respiração, cheio dos passos que ali estiveram antes, cheio da promessa dos que ainda virão. A terra parecia guardar, nas suas camadas, não apenas a semente de uma obra, mas a herança inteira das viagens, das esperas, das esperanças e das coragens que compõem a história da diáspora açoriana. Cada montículo de terra parecia repetir as palavras de Dias de Melo: “não deixes que o esquecimento te cubra.”

Que este novo salão se eleve como um farol onde a memória dos avós reconheça a ousadia dos netos; que as suas paredes guardem o peso leve das saudades, o eco de uma língua que resiste à erosão do tempo, e o riso que atravessa gerações. Que ali ecoem poemas de Nemésio, de Natália, de Álamo, de Madalena e de tantos outros que fizeram das ilhas não apenas um lugar, mas uma condição espiritual. Que cada pedra instalada seja uma oração; cada viga, um testemunho; cada luz acesa, a afirmação de que a identidade não se desfez com a distância.

E quando alguém, no futuro, atravessar estas portas e ouvir o acorde de uma viola regional, o rumor de uma história marítima ou o português entrecortado pelo inglês — esse português que sobrevive no coração mesmo quando falha na boca — saberá que esta Casa é mais do que um edifício.
É um arquipélago inteiro suspenso neste vale.  É um mapa emocional em que a diáspora se reconhece, se reencontra e se renova.

Porque naquele 20 de novembro de 2025, em Hilmar, a terra respirou o futuro.  Nos meses que virão, erguer-se-á o salão.  Mas o que verdadeiramente nasce aqui — o que já começou a nascer — é a certeza luminosa de que o espírito açoriano na diáspora continuará a florir, como uma ilha eterna que renasce sempre, sempre, das suas próprias cinzas de vento, de mar e de memória.

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