Quando a liberdade religiosa é travada em Jerusalém Por P. Jacinto Alberto de Meneses Bento

by | Apr 8, 2026 | Notícias das comunidades, Opinião

 

Jacinto Alberto de Meneses Bento

(Cónego do Santo Sepulcro de Jerusalém)

Pároco em São Pedro de Angra

Passal de São Pedro – Rua de São Pedro, s/n

9700-187 ANGRA DO HEROÍSMO

 

O que aconteceu em Jerusalém no passado Domingo de Ramos não é um incidente menor, nem pode ser relativizado à luz das circunstâncias atuais. A detenção do Patriarca Latino de Jerusalém, Cardeal Pierbattista Pizzaballa, e do Custódio da Terra Santa, quando se dirigiam ao Santo Sepulcro para presidir à celebração, constitui um facto de extrema gravidade, com um peso simbólico e religioso que ultrapassa largamente as fronteiras da Terra Santa.

Falo também a partir da experiência pessoal. Em abril de 2025, tive a graça de participar nas celebrações da Semana Santa em Jerusalém, como cónego do Santo Sepulcro. Trata-se de uma vivência espiritual única, enraizada nos próprios lugares onde se desenrolaram os acontecimentos centrais da fé cristã. Mas mesmo então eram já visíveis sinais de tensão: procissões perturbadas, atitudes hostis, uma presença de segurança frequentemente insuficiente.

O que agora ocorreu representa, porém, um salto qualitativo preocupante. Pela primeira vez em séculos, os responsáveis máximos da Igreja foram impedidos de celebrar no Santo Sepulcro num dos dias mais importantes do calendário cristão. Não se trata apenas de uma questão protocolar: trata-se de uma violação clara da liberdade religiosa e de culto.

É certo que o contexto de conflito no Médio Oriente impõe exigências acrescidas de segurança. Mas nenhuma razão de segurança pode justificar medidas desproporcionadas que atingem diretamente o exercício da fé, sobretudo quando estão em causa figuras institucionais que têm demonstrado responsabilidade e cooperação. O próprio Patriarcado já havia adaptado as celebrações às circunstâncias. Ainda assim, a resposta foi o bloqueio e a detenção.

Entretanto, perante a pressão internacional, as autoridades israelitas acabaram por recuar, afirmando que o Patriarca Latino pode “realizar serviços religiosos como desejar”. Esta declaração, embora positiva, não elimina a gravidade do ocorrido. Pelo contrário, evidencia a inconsistência da decisão inicial e reforça a perceção de que se tratou de uma medida precipitada e desproporcionada.

Mais inquietante ainda é o contexto em que este episódio se insere. Têm-se multiplicado os relatos de agressões contra comunidades cristãs na Cisjordânia — ameaças, violência, destruição de bens e ataques a propriedades e instituições religiosas — muitas vezes sem resposta eficaz. Localidades como Belém, Taybeh ou Beit Sahour vivem sob pressão crescente, colocando em causa a continuidade da presença cristã na região.

Tudo isto levanta uma questão inevitável: até que ponto está efetivamente garantida a liberdade religiosa na Terra Santa?

O desrespeito pelo “status quo” dos lugares santos, estabelecido em 1852 e reconhecido internacionalmente, agrava ainda mais a situação. Trata-se de um compromisso histórico essencial para o equilíbrio entre comunidades religiosas num dos contextos mais sensíveis do mundo.

Portugal, que ao longo dos séculos tem mantido uma relação singular com a Terra Santa — através da diplomacia e de contributos ainda hoje visíveis nos santuários — não pode ignorar o que está em causa. Tal como não o pode fazer a comunidade internacional.

Jerusalém não é apenas um ponto no mapa. É um lugar onde a fé de milhões de fiéis ganha forma concreta. Impedir — ainda que temporariamente — o acesso ao Santo Sepulcro num momento central do calendário cristão é um sinal perturbador. Tanto mais que a Basílica do Santo Sepulcro constitui o ícone mais importante de toda a cristandade, por abrigar sob o mesmo teto o Calvário e o Túmulo vazio de Cristo.

E sinais destes, mesmo quando corrigidos sob pressão, não podem ser ignorados.

 

0 Comments

Related Articles