A qualidade da governação mede-se pelos sinais que os governantes nos transmitem, mas também pela ausência deles, especialmente a falta de firmeza, que é reconhecida pelos próprios neste XIV Governo Regional dos Açores, que acaba de completar dois anos.
Já Platão dizia que um dos sinais de má governação é “o preço da desatenção à política”. E um dos calcanhares de Aquiles do governo açoriano é, exactamente, a falta de músculo político.
Em dois anos, o executivo de José Manuel Bolieiro desbaratou todo o estado de graça que tinha obtido na sua primeira legislatura, como a descida de impostos, a implementação da Tarifa Açores e o “boom” do turismo.
Do lado da oposição, não vamos melhor.
Ao contrário do foco da oposição, não é pelas contas públicas que o governo se degrada aos olhos dos cidadãos e das famílias, mas sim pelo estado das carteiras de cada um.
O aumento do custo de vida e a degradação das condições das famílias é o pior barómetro que um governo pode enfrentar, pelo que centrar o debate nas contas do estado regional é não perceber as preocupações das pessoas. É o tal preço da desatenção que leva ao afastamento dos eleitores.
Chegados aqui, podemos concluir que os Açores estão numa encruzilhada eleitoral: por um lado há um forte descontentamento com a degradação da governação, mas por outro não se vislumbram alternativas com credibilidade no actual cenário de forte fragmentação partidária.
Gostaria, no entanto, de lembrar, que em situações semelhantes da nossa história eleitoral, o factor surpresa funcionou, quando os próprios líderes menos esperavam.
Em Outubro de 1995, Mota Amaral deu o murro na mesa e foi-se embora, com os sociais democratas convencidos que a larga margem entre o PSD e o PS de Carlos César era favas contadas.
Tal como o poder acabou por cair nos braços de César quando ele menos contava, o mesmo aconteceu em Outubro de 2020, quando o poder também caiu nos braços de Bolieiro, através de uma solução política inédita.
O cenário poderá repetir-se num futuro próximo, pela simples razão de que uma grande parte do eleitorado, apesar de não escolher uma alternativa, quer é castigar quem está no poder, não se interessando por quem vem a seguir.
Os sinais desta governação são preocupantes, porque deixou de dar atenção à política – o mesmo é dizer, à realidade regional -, para passar o tempo a reagir a más notícias e a más medidas com argumentos completamente desfasados da realidade das vidas dos cidadãos.
Não há uma linha orientadora, uma estratégia consistente sobre qualquer medida que afecte a realidade regional, nem tão pouco qualquer reforma sobre tantos sectores que estão a falhar na sociedade.
Como já ameaçou o líder do Chega, ou este governo remodela-se ou vai acabar todo remodelado.
O final do Verão vai ser a prova dos nove desta governação, com a oposição a querer fazer os balanços do fim do PRR, do verão turístico e das medidas de apoio às famílias e empresas devido à aceleração do custo de vida.
O clima não é nada favorável ao governo, que tem de fazer uma revisitação à sua primeira governação de 2020.
Como alguém já lembrou com o exemplo nacional, a governação de António Costa não caiu com os incêndios de Pedrógão, nem com outros casos políticos de monta, mas sim a seguir à guerra da Ucrânia, com o aumento do custo de vida, a subida das taxas de juro e uma enorme carga fiscal.
Tudo rastilhos que fizeram esfumar uma maioria absoluta em pouco tempo.
A história ensina-nos que não devemos desprezar os sinais.
É só pôr as barbas de molho…



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