Pedro Cura, empresário com meio século na atividade piscatória, ao Portuguese Times: “O aumento de combustíveis vem agravar a situação já difícil no sector da pesca em New Bedford”

by | Jun 3, 2026 | Notícias das comunidades

 

Pedro Cura é um imigrante português natural da Figueira da Foz tendo imigrado para os Estados Unidos no final da década de 70 e a residir atualmente em New Bedford. 

Envolveu-se na indústria piscatória em New Bedford adquirindo dois barcos: o São Paulo e o Fisherman. 

A intenção de Pedro Cura, ao chegar aos EUA, era de estudar, mas depois aderiu à faina do mar, com a família já envolvida neste negócio rentável, na década de 70, numa altura em que a pesca respirava outra saúde.

“O meu pai era mestre lá em Portugal e quando aqui cheguei envolvi-me na pesca com a família e acabei por investir na aquisição de barcos”, começa por dizer ao PT, Pedro Cura, que recorda essa fase inicial da sua vida como pescador.

“Na década de setenta, numa altura que a pesca estava de outra saúde, recordo que íamos para o mar e ao fim de oito dias tínhamos de estar em terra, pois tínhamos toda a família em terra e nessa altura a pesca era muito mais rentável do que é agora, conseguindo ganhar cerca de mil dólares por semana”, recorda Pedro Cura, que acabou por investir na aquisição de dois barcos juntamente com a família: o São Paulo e o Fisherman (este o seu barco principal), fabricados no sul dos EUA e numa altura em que se fabricava com mais frequência novos barcos. “Trabalhei de capitão no Fisherman durante trinta e dois anos… O São Paulo, que é onde está o meu primo agora também, foi o primeiro barco da família, no total quatro membros de uma família que investiu”, 

Normalmente a duração de uma viagem não vai além de uma semana. “Sim, ao fim de uma semana temos de regressar a terra para manter o produto fresco e processado em fábricas onde a maioria dos processadores eram trabalhadores naturais dos Açores, agora esse tipo de trabalho é efetuado por muitos imigrantes provenientes da América Central e do Sul”, recorda Cura, cujos barcos de que é proprietário têm destinos diferentes nesta faina da pesca. “A pesca a bordo do Fisherman normalmente ocorre em águas territoriais do norte dos EUA, na captura de várias espécies como o tamboril, a solha e o bacalhau, mas as quantidades são muito reduzidas devido a restrições que nos são impostas pelas autoridades”, refere Pedro Cura, adiantando que o São Paulo é utilizado mais nas águas a sul destas região, designadamente em New York, North Carolina e Virgnia na apanha de scallop (vieiras). “Recordo que há uns dez/doze anos a apanha do scallop tornou-se muito rentável, era uma verdadeira loucura, com várias embarcações a conseguirem grandes lucros nas suas viagens, conseguindo cerca de 20 mil dólares nas suas deslocações de doze dias na apanha deste apreciado marisco, mas nos últimos tempos a tendência foi claramente para diminuir embora mais recentemente estejamos a assistir a um grande aumento na apanha deste apreciado marisco, que é de facto muito rentável e isso representa uma riqueza para a indústria aqui em New Bedford, cujo porto de pesca continua a ser o número um em todo o país”, esclarece Pedro Cura, sublinhando que atualmente a frota pesqueira de New Bedford é de pouco mais de uma dezena de barcos.

Uma das razões desta nossa conversa com alguém há muitos anos ligado à pesca era saber sobre o impacto do aumento do custo dos combustíveis a que atualmente assistimos.

“Os barcos de pesca normalmente gastam 400 ou 500 galões de gasóleo por dia e com um aumento, por exemplo, de um dólar, isso representa um aumento considerável nos custos e posso dizer, sem estar muito longe da realidade, que ao fim de uma viagem ao mar isto representa um custo acrescido de 4 ou 5 mil dólares e faça lá as contas ao fim de um ano, pelo que isto afeta e vai ter um impacto altamente negativo não apenas na frequência da ida ao mar como também no crescimento do setor: menos gente a comprar barcos, mas também não estou a ver um aumento do preço do produto, não obstante a crise nos preços do combustível”, afirma Pedro Cura, adiantando que nesta indústria há ainda outros custos elevados a ter em conta, nomeadamente no que se refere aos seguros e manter um ou mais barcos de pesca em atividade é cada vez mais difícil. Os atuais custos de manutenção de um barco triplicaram. “Apesar de tudo isto a verdade é que temos de ir para o mar, não podemos ficar parados, e aceitar que os lucros agora não são tão elevados como há alguns anos”, confidencia o nosso entrevistado, que recorda outros tempos áureos da pesca: 

“Sou ainda daqueles que ia pescar em águas canadianas, numa altura em que isso era permitido e antes da proibição de pesca nas águas de George’s Bank, agora aberto à pesca, embora com regras específicas, épocas e zonas de interdição rigorosas que regulam estritamente o que e onde é permitido pescar”, sublinha.

Para Pedro Cura, a atual situação que se vive neste sector em New Bedford, não é particularmente promissora: 

“Sinceramente, é cada vez mais difícil sobreviver e manter barcos perante as restrições, os elevados custos de manutenção, pelo que aqueles que estejam eventualmente interessados em enveredar por esta atividade não vão encontrar as condições favoráveis de há vários anos e há cada vez mais dificuldades e barreiras a ultrapassar, embora reconheça que aqueles que adoram a pesca vão continuar sempre envolvidos, mas ganhando menos”, conclui Pedro Cura, que visita Portugal com frequência onde familiares e amigos.

 

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