Maria Helena Neves, na Gramática do Português Contemporâneo (2000), definiu o parágrafo como “unidade de composição textual formada por uma ou mais frases organizadas em torno de uma ideia central”.
Numa perspetiva da psicologia, o parágrafo é mais do que um bloco de frases paralelo ao texto que o contém. Insere-se na página como pausa e gesto e projeta ao mesmo tempo a ordem – ou a desordem – que está na sua origem, no alicerce cognitivo que o produz. Como uma célula no corpo, tem a sua integridade, mas só faz sentido em relação à totalidade do organismo a que pertence.
Um parágrafo bem construído possui começo, meio e fecho, mas estas regras são maleáveis. Há-os lacónicos, como um só traço – uma frase curta, nítida e decisiva. Outros debruçam-se pela página, demorados, levando o leitor como se fosse uma maré. Em cada caso, a forma diz tanto como o conteúdo. Um parágrafo longo pode revelar abundância, hesitação ou obsessão. Outro, curto, é suscetível de ressonar como o martelo pesado de um ferreiro.
Sob a estrutura visível das palavras que compõem o parágrafo, o escriba projeta dados aparentemente neutros que na realidade revelam características da sua maneira de ser. O parágrafo reflete tanto a construção consciente como o labirinto profundo do inconsciente. A sequência das frases mostra a clareza do pensamento. As digressões, repetições e ruturas repentinas dão a conhecer o que resiste à intenção do escritor. Por isso aquilo que o autor pretende dizer e o que o parágrafo acaba por manifestar nem sempre coincidem. À superfície, o raciocínio pode ser lógico, mas o ritmo denuncia dúvida, entusiasmo ou fadiga.
O parágrafo é também somático, como extensão representativa de quem o escreve. A escrita nasce no silêncio, mas os parágrafos transportam som e gesto. Têm ritmo como a música, terminando num suave diminuendo ou num acorde megafónico.
O ouvido, tal como o olhar, determina o instante em que um parágrafo encontra o seu desfecho. Quem se apercebe da vida do parágrafo sente isto de forma instintiva, apercebendo-se de quando já se prolongou demasiado ou quando acaba cedo demais, como pensamento interrompido. Segue o pulso interior do escrevedor, mesmo sem saber explicar por que uma transição soa abrupta ou por que uma passagem dimana com naturalidade. A vida do parágrafo é inseparável do estado mental e da atenção do escritor. Por isso ao alterar a sequência de um texto, arbitrariamente, sem considerar as suas implicações estilísticas e convenções literárias poderá destruir o trabalho do autor. Por exemplo, numa crónica, como num ensaio, o primeiro parágrafo assume-se como preâmbulo, enquanto o último tem função conclusiva.
O parágrafo outrossim projeta integridade, ou a sua ausência. Quando claro e fluente, mostra que uma ideia foi digerida ou que o pensamento alcançou estabilidade. Por vezes, porém, hesita, recua ou fragmenta-se. Nestes casos, revela que o escritor se debate com aquilo que resiste ao seu propósito de expressar de modo transparente.
Numa visão metafórica, o parágrafo é uma sala terminada ou um andaime em volta de um edifício em construção. Por isso, não é apenas técnico. É um palco onde o consciente e o inconsciente atuam em conjunto. O articulista pode tentar controlá-lo, mas o ritmo, a respiração e o impulso escapam pelas frestas. Freud diria que o inconsciente desliza num parágrafo tão facilmente como num sonho. Cada quebra, cada mudança súbita de tom é sinal de um movimento mais fundo do pensamento. Jung acrescentaria que neste fluxo se refletem imagens do inconsciente coletivo, arquetípicas e portadoras de significados universais.
Não sendo apenas argumentos, os parágrafos manifestam também gestos do pensamento. Assemelham-se a movimentos das mãos ou à inflexão da voz. Podem ser amplos, como o braço de um orador, ou leves como o toque de um dedo na mesa. Mesmo na página silenciosa, cada parágrafo exprime a sua energia, por vezes discreta, outras estrondosa. Ao lê-lo, ouve-se mais do que palavras. Escuta-se o tempo da atenção, a gravidade das pausas, a hesitação entre ideias. Um leitor atento apercebe-se de quando o autor o retém, quando se mostra confiante, ou se apressa para fechar o processo de ideação.
Palco de um pequeno drama psicológico, o parágrafo mostra tudo isto. O abandono arbitrário das regras que defendem e enriquecem o idioma escrito, como se o parágrafo fosse uma unidade morta da prosa, é desnecessário. O parágrafo vive na mente e no corpo que o escreve.





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