Os Fusíadas da América do Norte Por Alfredo da Ponte

by | Feb 18, 2026 | Opinião

 

A nona confraternização anual.

A edição de 3 de outubro de 2001 do jornal Portuguese Times trouxe meia página dedicada ao convívio ribeiragrandense que se realizaria dali a dias, prevendo, à semelhança dos anos anteriores, “esgotar a lotação do restaurante White’s em Westport”.

Trazendo em destaque as fotografias dos convidados de honra, nomeadamente os professores Dona Elvira Machado e Manuel Francisco Aguiar, e dos outros convidados vindos dos Açores, o presidente da Junta de Freguesia da Matriz, e o Engenheiro Armindo Moreira da Silva, classificava o evento anual como um dos “convívios mais movimentados, contando sempre com uma numerosa comitiva que visita os EUA como forma de estreitar os laços à origem”.

A fotografia do jornalista da Califórnia, Ferreira Moreno, não estava lá, porque  ele  ainda não tinha confirmado a sua vinda à costa leste.

Chegou o dia da festa, que ainda cumpriu a tradição de iniciá-la com a missa do meio-dia na igreja do Senhor Santo Cristo, em Fall River. Seguiu-se o banquete, que reuniu cerca de seiscentas pessoas.

O semanário Atlântico Expresso, de Ponta Delgada, na sua edição de 22 de outubro trouxe a reportagem do acontecimento assinada por Manuel Estrela. O mesmo texto publicado no O Jornal, de Fall River, com a gloriosa diferença da nítida fotografia e de uma manchete mais elegante, que ocupou três quartos de página naquele jornal micaelense. Ali foi registada a visão do convidado Manuel Francisco, que classificou o evento como um “vulcão de sentimentos”.

Estrela continua a narrativa mencionando o acontecimento do dia anterior ocorrido em East Providence, onde o “Padre Joe Ferreira, mais conhecido por Ferreira Moreno, o ‘fuseiro’ que apresentou o livro ‘Os Fusíadas’, da autoria do seu afilhado adoptivo, afirmou que o livro narra histórias dos séculos XV e XVI, numa escrita encantadora, mais precisamente narrações de vários personagens que marcaram com a sua presença e carácter o povoamento da Ribeira Grande, afinal um vulcão de sentimentos de orgulho, de apreço, de saudade e de amizade (…)”.

Mais adiante, Manuel Estrela surpreende-nos com a parte que diz: “Nem foi pena a ausência de certa elite – não fez falta alguma – porque é o povo que mais sabe sentir como um vulcão…

Senhor Manuel, que disparate é este?! Pelo que sabemos, ainda és meio-compadre do Docteur Antoine Pierre de la Côte du Nord… e andaste com ele no seminário, e brincaste com ele na casa da folha…

Será que os compadres desentenderem-se em 2021?

Não sabemos. O facto é que, em certos cantinhos do recinto se cochichava a ausência dos oficiais do governo municipal da terra de origem. Mas a gente a isso já se tinha habituado e, como disse Manuel Estrela, não fizeram falta nenhuma. Mas houve um senhor que fez questão de comprar souvenirs, até um livro recém publicado, para levar ao sr. presidente da câmara, que segundo ele, coitado, não pôde vir ao convívio, porque teve receio das más-línguas. Não viessem elas dizer que ele anda sempre a passear. Infelizmente, este segundo não tinha a sorte do primeiro, porque todos os olhares nele andavam postos. O primeiro era mais sortudo porque variava os pelouros entre a Junta e a Casa do Povo.

Se uma pagava

A outra empurrava

Assim jeito dava

E o povo aceitava

Dona Elvira ficou encantada com o ambiente vivido na sala. Louvou a sua estadia na Nova Inglaterra, agradecendo a hospitalidade deste povo que se rege moralmente pela saudade, pelos bons costumes e pelo amor à pátria. Recordou caras e nomes de muitos dos seus antigos alunos.

Dona Elvira era um ÁS na matemática, e um sinónimo de fácil aprendizagem. Tinha um dom de ensinar fora de comum, e cedo criou a fama de ser a melhor professora dos números, na Ribeira Grande e arredores.

Quanto ao Professor Manuel Francisco, convém recordar que na língua portuguesa safava-se muito bem. Pudera!… ele, que estudou no seminário, e pouco lhe faltou para se tornar sacerdote. Como muitos rapazes do seu tempo, aproveitou os estudos gratuitos, e se fez homem. Um homem normal, para casar e ter filhos. Mas que tem um dom de palavra e um grande jeito de dar sermões, lá isso tem! Por isso, foi dos poucos convidados nos ajuntamentos fusitos na Nova Inglaterra, todos estes anos, que conseguiu manter a sala em silêncio, enquanto pregava.

Quando se dirigiu ao pódio, com aquele ar autoritário de seguidor do Vieira do Maranhão brasileiro, exigindo silêncio absoluto, começou por dizer:

A mensagem que vos trago é de esperança.

Ouvindo isto, pensámos que se tratava de um anúncio de um falso Messias, mas logo pusemos esta ideia de parte quando veio uma palavra de homenagem às vítimas do 11 de Setembro, e a seguir, transbordou a gratidão que ele sentia por fazer parte daquela confraternização, comparando, de certo modo, as palavras de Daniel de Sá com a realidade daquele dia.

Depois, quase a concluir o sermão, meteu água na igreja, (salvo seja!) quando disse que “é importante que se faça um grande convívio açoriano por altura das Festas do Espírito Santo”.

Em nossa opinião, ou não sabia o que dizia, ou estava preparando isca para vir às Grandes Festas. É que, só por si, as Grandes Festas do Espírito Santo da Nova Inglaterra são o maior convívio de açorianos em todo o mundo.

Finalmente, terminando o tempo de microfone, despregou-se com esta:

Para o ano, o convívio ribeiragrandense deverá ser na terra de origem”. Palavra da salvação. Glória a vós, senhor!

Por sua vez, no uso da palavra, o presidente da comissão organizadora, José António Pacheco, salientou que “é sem dúvida um acontecimento digno de louvor, quando tantos e bons se juntam para festejar as suas origens, a sua terra, as memórias do passado que nos leva a recordar os bons velhos tempos.”

Foi uma alegria para antigos vizinhos terem visto na sala o senhor Artur da Silva, mais conhecido por Artur Correia, na altura com os seus bonitos e bons oitenta e um anos de idade, acompanhado por sua filha Eduarda e pelo seu genro Manuel. Um quadro familiar que mereceu um magnífico registo fotográfico no jornal Portuguese Times.

Foi também um prazer ter connosco, novamente, o father Joe da Califórnia (O homem que mais divulgou a Ribeira Grande pelos quatro cantos do mundo, e que com a sua morte caiu no esquecimento total).

Numa altura em que father Joe se achava sorridente, passou por ele o repórter do jornal de Fall River, que logo o apanhou com as suas lentes em primeiro plano. Depois, na edição de 17 de outubro daquele semanário, saíu a fotografia com esta fuseirada:

Fuseiro Moreno, padre da Califórnia, gosta muito daquela havaiana camisa… Veio a esta costa apresentar ‘Os Fusíadas’.

Foi um fim-de-semana dominado pelo fuso…

E hoje ficamos por aqui, desejando muitas felicidades e saúde para todos.

Despedimo-nos com esta sextilha, porque ela classifica  levemente o município ribeiragrandense:

 

É um formoso concelho

Que vê no mar o espelho

Das catorze freguesias

Tem também alguns lugares

E em seus bonitos lares

Reina paz e alegrias

 

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