A experiência do sagrado e a construção do divino acompanham a a nossa espécie, homo sapiens sapiens, desde os primórdios da sua organização simbólica. Não se trata apenas de uma questão teológica ou metafísica, mas de uma estrutura psicossociológica que molda a perceção, a coesão grupal e a identidade cultural. O sagrado, entendido como aquilo que transcende o quotidiano e funda sentido, e o divino, como representação personalizada ou abstrata dessa transcendência, são elementos que evoluem em consonância com os modos de vida, os sistemas de crença e os dispositivos de mediação simbólica.
Mircea Eliade, filósofa e historiadora da história, definiu o sagrado como manifestação “hierofânica” – uma irrupção do transcendente no mundo profano que organiza o espaço, o tempo e a ação humana. Esta conceção, embora enraizada na história das religiões, permite uma leitura psicossociológica em que o sagrado não é apenas uma categoria ontológica (estudo filosófico e existencial do ser e as categorias fundamentais da realidade), mas uma função estruturante da consciência coletiva. A sua presença funda lugares (templos, altares, paisagens rituais), legitima práticas (ritos, sacrifícios, peregrinações) e institui narrativas que orientam o comportamento e a pertença.
Rudolf Otto, filósofo da religião, por sua vez descreve o sagrado como mysterium tremendum et fascinans, uma experiência emocional que oscila entre o temor reverente e o fascínio irresistível. Esta dimensão afetiva é central para a psicologia da religião, pois revela como o divino é interiorizado como potência, mistério e fonte de sentido. A emoção religiosa, longe de ser irracional, é uma resposta adaptativa que permite ao indivíduo situar-se perante o desconhecido, o sofrimento e a morte.
A psicologia social contemporânea, através de autores como Serge Moscovici e Dan Sperber, (Social representations: Explorations in Social Psychology, 2003) (Representações sociais: explorações na psicologia social), propõe que as representações do divino são construções culturais que circulam, transformam-se e estabilizam-se em função dos contextos comunicacionais. O divino não é apenas uma crença, mas um dispositivo de mediação entre o eu e o outro, entre o grupo e o mundo. A sua eficácia simbólica reside na capacidade de condensar valores, normas e afetos num referente que transcende o imediato.
No percurso evolucionário, o sagrado surge inicialmente associado à natureza e aos ciclos vitais. As religiões animistas e xamânicas revelam uma sacralização do ambiente, onde cada elemento – pedra, árvore, animal – é habitado por uma força ou espírito. Esta visão, longe de ser arcaica, encontra ressonância nas espiritualidades contemporâneas que reivindicam uma reconexão com o planeta e com o corpo como lugares do sagrado.
Com o advento das religiões monoteístas, o divino foi progressivamente abstraído e centralizado. A figura de um Deus único, transcendente e legislador substitui a multiplicidade de divindades locais. Esta transição tem implicações psicossociais profundas – o divino torna-se juiz, pai, fonte de moralidade e de salvação. A interiorização da culpa, a vigilância do comportamento e a promessa de redenção estruturam novas formas de subjetividade e de organização social.
Autores como Émile Durkheim e Clifford Geertz sublinharam que o sagrado não é apenas uma projeção do divino, mas uma construção coletiva que legitima o laço social. O ritual, enquanto prática repetida e codificada, reforça a coesão e a memória partilhada. O divino, por sua vez, atua como garante de continuidade, como narrativa que atravessa gerações e que permite a inscrição do indivíduo numa história maior.
Na contemporaneidade, assiste-se a uma pluralização das formas do sagrado. A secularização não elimina o divino, mas transforma-o. A espiritualidade individual, a busca de sentido fora das instituições religiosas, a estetização do sagrado em práticas artísticas e terapêuticas revelam uma mutação psicossociológica. O divino deixa de ser dogma para se tornar experiência. Esta tendência é analisada por autores que identificam uma espiritualidade líquida, fragmentada, mas ainda assim estruturante (e.g. o filósofo Charles Taylor e o sociólogo Zygmunt Bauman).
Em suma, o percurso do sagrado e do divino é inseparável da evolução psicossociológica da humanidade. Da sacralização da natureza à interiorização ética, da ritualização coletiva à espiritualidade personalizada, o divino permanece como eixo de sentido, como linguagem da transcendência e como dispositivo de interação entre o humano e o mistério. A sua análise exige não apenas uma abordagem teológica, mas uma leitura crítica das formas de vida, das emoções e das narrativas que o sustentam.



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