O que ainda respira entre nós

by | Feb 11, 2026 | Raízes e Horizontes

 

Notas sobre poder, fragilidade e imaginação democrática

“Há momentos em que permanecer humano é o ato político mais radical.”

 

Alguns anos atravessam a história sem deixar vestígios; outros instalam-se como falhas estruturais, percebíveis apenas quando já sustentam todo o peso do que somos. O último ano nos Estados Unidos pertence a esta segunda categoria. Não se limitou a passar: deslocou o eixo. A democracia, esse conjunto instável de hábitos, rituais e expectativas, não foi simplesmente atacada; foi exposta ao próprio cansaço. Retiraram-se os véus, desligou-se a energia moral, e chamou-se a esse processo eficiência.

O segundo mandato do Presidente Donald Trump não inaugurou uma nova ordem; revelou a anatomia da anterior. O que antes precisava de disfarce passou a circular como norma. O que antes exigia constrangimento passou a caber num memorando. Direitos tornaram-se reversíveis, vidas tornaram-se administráveis, e a exceção deixou de ser exceção para se tornar método. As instituições — tribunais, universidades, corporações — não ruíram em espetáculo; inclinaram-se em silêncio, como estruturas antigas que aprenderam a sobreviver à custa da própria dignidade.

E depois houve o corpo. O corpo ferido, o corpo abatido, o corpo que cai não como estatística, mas como frase interrompida. Quando uma poeta é morta pelo Estado, o gesto ultrapassa a violência e entra no território do símbolo. Um país que dispara contra os seus poetas não teme a desordem; teme a linguagem. Porque a linguagem nomeia. E nomear é o primeiro ato de resistência contra aquilo que se pretende naturalizar.

Nomear, porém, não basta. A linguagem precisa de corpo, e o corpo precisa de lugar. Quando as palavras deixam de ser suficientes, elas descem ao chão.

Durante meses, o poder falou a língua da força enquanto a democracia parecia reduzida a um artefacto de museu — invocada, mas não praticada. O aparelho federal expandiu-se como uma sombra sem rosto, absorvendo pessoas em sistemas, histórias em processos, memórias em arquivos inacessíveis. O futuro estreitou-se. A política pareceu transformar-se apenas numa administração do medo.  Mas a história americana raramente termina onde o poder imagina o ponto final.

Ao nível do chão — longe das cúpulas e dos discursos autocontidos — algo começou a mover-se. Não com estrondo, mas com insistência. Aparecer voltou a ser um verbo carregado de significado. Aparecer para proteger vizinhos. Aparecer para vigiar o abuso. Aparecer para cozinhar, reconstruir, cuidar. Quando o Estado abandonou o cuidado, o cuidado tornou-se uma forma de desobediência. Mutualismo não como caridade, mas como ensaio de soberania.

Esse gesto repetido — aparecer, proteger, cuidar — não permaneceu confinado à urgência. Aprendeu a durar.

A democracia, expulsa dos salões institucionais, encontrou abrigo nos corpos. Nos corpos cansados, nos corpos solidários, nos corpos que se colocam entre a violência e o vulnerável. Aprendeu ali a respirar debaixo de água, a sobreviver em condições para as quais nunca foi pensada, mas às quais sempre regressa.  Quando o fôlego regressa, a política reencontra formas antigas.

Também as urnas, tantas vezes tratadas como um ritual esvaziado, recuperaram pulso. As vitórias progressistas não foram epifanias repentinas, mas acumulações de tempo humano: conversas repetidas, confiança reconstruída, esperança arrancada ao cinismo. Contra fortunas concentradas, venceu-se com persistência. A política voltou a falar de vida concreta — casa, trabalho, infância, dignidade — como se o real, por um instante, tivesse derrotado a abstração do mercado.  Onde o corpo aprende a aparecer, aprende também a interromper.

No mundo do trabalho, algo igualmente antigo e perigoso ressurgiu: a consciência coletiva. Greves, boicotes, recusas. Num país treinado para acreditar que o fracasso é sempre individual, a interrupção tornou-se linguagem comum. Quando trabalhadores e consumidores descobrem que partilham não apenas a frustração, mas a capacidade de parar a máquina, o discurso da inevitabilidade começa a falhar. O poder, habituado à obediência fragmentada, teme acima de tudo a coordenação.

Curiosamente, foram os estados — tantas vezes tratados como nota de rodapé — que emergiram como fronteiras vivas da democracia. Onde o poder federal avançou sem pudor, surgiram contenções legais, políticas, éticas. Governadores e procuradores lembraram algo elementar: o presidente não é o país. Há nesta inversão uma ironia profundamente americana — a periferia recordando ao centro que o poder nunca foi absoluto.

Nada disso elimina o perigo. Um poder acuado é um poder errático. A história ensina que os regimes não colapsam apenas pelo excesso de violência, mas também pela incapacidade de controlar o medo que fabricam. As fissuras são visíveis — nos partidos, nas narrativas, nas alianças improváveis —, mas só se tornam caminhos quando alguém decide atravessá-las com imaginação moral.

Salvar esta democracia não será um gesto heroico isolado, nem uma eleição redentora. Será um trabalho lento, quase invisível, feito de escolhas repetidas: proteger os mais vulneráveis quando o Estado os abandona; insistir na inclusão como princípio não negociável; retirar recursos à violência institucional; exigir coragem onde só há cálculo; desmontar sistemas que confundem riqueza com legitimidade. Trata-se menos de conquistar poder do que de impedir que ele desfigure aquilo que ainda nos torna humanos.

É aqui que a democracia revela a sua fragilidade essencial — e a sua força. Não vive de garantias, mas de práticas. Não se sustenta em abstrações, mas em corpos que respiram juntos, mesmo quando o ar é escasso. O último ano deixou claro que a democracia não nos pertence como herança; depende de nós como exercício.

E enquanto esse peso ainda respira entre nós, permanecemos humanos naquilo que escolhemos sustentar.

 

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