O Livro de Canções, de Aníbal Raposo

by | Jul 15, 2026 | Crónica das ilhas de baixo

 

Acaba de ser publicado o Livro de Canções (edição de autor, Nova Gráfica, 2026), de Aníbal Raposo. 

Graficamente concebido para ser colocado e aberto sobre uma qualquer estante, a obra reúne 123 canções, por ele produzidas entre 1968 e 2026, através das respetivas partituras, letras e cifras.

Nunca será de mais lembrar que, melodista por excelência, Aníbal Raposo tem vindo a construir, de forma coerente, contínua e continuada, uma obra musical que abre novos rumos e novas sonoridades à música que hoje se faz entre nós. De resto há todo um lastro musical que enforma este escritor de canções, desde os grupos de que fez parte e com boa colheita (“Construção”, “Rimanço” e “Albatroz”), passando pelos incontornáveis temas que escreveu e compôs para algumas das mais porfiadas séries da RTP/AÇORES de boa memória.

Com aprumo conceptual, este micaelense canta com apurado sentido interpretativo e espessura emocional. Canta  o amor e a roda da sorte que é a vida de cada um de nós, ele que se tivesse vivido em plena Idade Média, teria sido certamente jogral, trovador ou menestrel, já que é, simultaneamente, poeta, cantor e músico. 

Um poeta-cantor-músico que chegou à poesia por via da tradição oral. Por isso há nele a “linguagem que canta” (Verlaine) e há o tal “ouvido que escreve” (expressão do modestíssimo subscritor destas linhas). É que ele tem a capacidade de valorizar, com vogais cheias e subtilezas de uma boa dicção, cada palavra e cada sílaba, no seu fraseado, nas suas pausas e transições, nas suas subtis valorizações prosódicas, na sua maneira inconfundível de atacar a linha musical, a que não é alheia a versatilidade dos recursos vocais de que dispõe.

Dito de outra maneira: em Aníbal Raposo coexiste a competência musical e a arte poética. E é por isso que se sente, no grão da sua voz, o pulsar da expressão lírica portuguesa, com raízes fundas e profundas no cancioneiro açoriano, ele que, sabendo cruzar estilos musicais, traz-nos uma variedade de registos numa interessante viagem não só pelo imaginário dos Açores e pela música popular portuguesa, mas também com bem conseguidas escalas na música africana, brasileira e norte-americana. 

De tudo isto nos dá conta este Livro de Canções que, belíssimo instrumento de trabalho,  aí fica para memória futura. Um song book onde cabe todo o nosso imaginário e toda a nossa memória coletiva que o cantautor Aníbal agarra com sensibilidade, talento e bom gosto. De forma consistente e com inexcedível qualidade.

 

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