O culto à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade remonta ao século XI, prolongando-se na Idade Média em alguns países europeus onde se manifestou na oferenda de refeições aos mais pobres, com especial expressão no domingo de Pentecostes.
Em Portugal, segundo alguns registos históricos que fomos consultando, designadamente através do livro de Maria de Lurdes Silveira Pereira, da Universidade dos Açores, a manifestação mais antiga deste culto registou-se no século XIII, na cidade de Lisboa, onde existia uma igreja consagrada ao Espírito Santo. Contudo, foi no século XIV que a monarquia portuguesa instituiu um modelo imperial de culto que, posteriormente se difundiu, sobretudo, no centro e sul do reino e se estendeu às ilhas descobertas pelos portugueses no século seguinte. Quer nas ilhas do arquipélago da Madeira, quer nas do arquipélago dos Açores, a permanente presença portuguesa foi portadora de religiosidade manifestamente ligada aos dogmas do cristianismo e, sobretudo à crença ligada ao Divino Espírito Santo.
Durante o século XIX, enquanto que, em Portugal continental se verificou uma acentuada diminuição da celebração das festas em honra do Paráclito, nas ilhas açorianas o seu culto fortaleceu-se, disseminando-se por todas as cidades, vilas e freguesias das ilhas, transpondo as fronteiras nacionais num movimento intercontinental migratório que teve origem no século XVII e seguintes em direção ao Brasil, aos Estados Unidos da América, ao Havai, à Bermuda e ao Canadá.
A criação de festas do Espírito Santo na Nova Inglaterra acompanhou cronologicamente as vagas migratórias. Atualmente existem na Nova Inglaterra quase uma centena de festas: mais de 60 em Massachusetts, mais de duas dezenas de festas em Rhode Island, três em Connecticut (Danbury, Hartford e Stonington) e duas em New Hampshire. Em Massachusetts realizam-se sobretudo nas cidades e vilas de maior concentração de açorianos, como Fall River, New Bedford, Taunton, Lowell, Peabody, Saugus, Hudson, Cambridge e Somerville. Nestes estados a festa é celebrada naturalmente conforme a ilha de origem: São Miguel, Terceira, Santa Maria, Pico e Graciosa. Em Rhode Island há festas em honra do Paráclito em Providence, East Providence, Bristol, Warren, West Warwick, Cumberland, Pawtucket.
Todas as paróquias e os principais clubes têm as suas irmandades que celebram a sua festa anual com todo o rigor e tradição.
Assim, pretendendo dar outra dimensão a esta celebração, um grupo de pessoas interessadas na preservação dos valores tradicionais e na devoção e culto ao Espírito Santo decidiram organizar as Grandes Festas do Espírito Santo da Nova Inglaterra, abertas a todas as irmandades da região.
Tudo isto começou em março de 1986, no escritório do então Comercial dos Açores, em Fall River, numa pequena reunião em que foram convocados diversos ativos elementos da comunidade portuguesa da Nova Inglaterra, sob a batuta de Heitor de Sousa, o fundador destas grandes festas do Divino Espírito Santo da Nova Inglaterra, natural de Rabo de Peixe, ilha de São Miguel, reconhecido devoto das tradições açorianas, falecido em Fall River em 2016.
A ideia de Heitor de Sousa foi congregar todas as irmandades de diferentes latitudes e geografias da diáspora açoriana da América do Norte com o propósito de em comunhão reforçar essa devoção e culto ao Divino Espírito Santo em dias de convívio naquela que é considerada a cidade mais açoriana dos Estados Unidos: Fall River.
É justo que se diga que Sousa teve a sorte de encontrar um grupo de dedicados e ativos açorianos que abraçaram esta ideia de honrar o Divino Espírito Santo numa dimensão de diáspora açoriana na América do Norte. E assim foi, de tal forma que ao longo destas quatro décadas de festividades, Fall River tem sido a capital dos açorianos e meca açoriana durante cinco dias da última semana de agosto. A maioria desses fundadores das Grandes Festas já não se encontra entre nós.
As maiores festas do género na diáspora lusa têm conseguido sobreviver graças à liderança de várias entidades do nosso tecido empresarial e de muitos voluntários que veem nesta manifestação um importante elo de ligação da comunidade e de reforço de afirmação de identidade cultural. Merecem o nosso reconhecimento e gratidão.
A grandeza destas Grandes Festas do Divino Espírito Santo da Nova Inglaterra depende não apenas das suas ativas comissões organizadoras mas sobretudo das forças vivas da comunidade: irmandades, associações civis e religiosas e das novas gerações de portugueses já aqui nascidos. Sem essa adesão tudo isso acaba. Há que participar e conviver.
É necessário que esta tradição do Espírito Santo, que constitui efetivamente a manifestação cultural e religiosa mais identitária e transversal da diáspora açoriana, seja preservada e cultivada nos próximos tempos, mesmo com algumas transformações que os novos tempos a isso obrigam. Impõe-se por isso uma estratégia de rejuvenescimento e eventualmente de algumas transformações de acordo com os hábitos das novas gerações mas mantendo, obviamente, os valores sublimes do culto ao Divino Espírito Santo: a partilha, caridade, solidariedade e fraternidade.




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