Natal em julho: o sagrado, o mercado e a desconfiança no capitalismo

by | Dec 17, 2025 | Discurso Português

 

 

Brevemente, celebrar-se-á mais um natal, com milhões de participantes por todo o mundo. A evocação festiva do nascimento de Jesus tornou-se também num dos períodos mais intensos da economia capitalista. As luzes, os anúncios, os saldos e os presentes transformaram o ritual num ciclo de consumo que começa em novembro e termina em janeiro. Há pouco mais de duas décadas, um grupo de retalhistas norte-americanos — não cristãos — propôs algo inusitado e interpretado como desrespeitoso da fé e tradição religiosa nos países ocidentais. Dispersos pelos estados da República Federal dos Estados Unidos, os seus aderentes tentaram criar uma segunda celebração natalícia em julho, apenas como estímulo económico. A proposta gerou polémica, na qual entreviu a plataforma de comunicação da Santa Sé, Vatican News. O então arcebispo de Boston, cardeal Sean Patrick O’Malley, insurgiu-se contra o que considerou uma tentativa ofensiva de laicificar uma das festas mais importantes da cristandade. Para ele, o Natal é um tempo sagrado, induplicável — não um produto à venda nas prateleiras das mercearias e hipermercados. Na clínica de saúde mental onde eu exercia a minha profissão, a discussão chegou a ocupar forte intensidade, ainda que com o maior civismo. Os não católicos fundavam a sua crítica àquele prelado na separação absoluta, obedecida desde a fundação da nacionalidade, entre os domínios religioso e político.  

Este episódio revela uma tensão antiga: a apropriação comercial dos rituais religiosos por parte de setores económicos que operam sem escrúpulos para além do lucro razoável. Não se trata de condenar o comércio em si, mas de reconhecer que há práticas que corroem a confiança no sistema capitalista e têm excitado a crítica fácil, por vezes falaciosa, do comunismo histórico. Durante décadas, o comunismo internacional denunciou o capitalismo como sistema explorador, alienante, desumanizante. Muitas dessas críticas ignoravam a complexidade das sociedades abertas, mas encontravam eco sempre que o mercado parecia ultrapassar os termos deontológicos. E é nesta ótica que reside o problema: quando o lucro se sobrepõe ao sentido e o comércio ignora o contexto, ou quando o sagrado é tratado como mercadoria laicalizada, “fetichismo da mercadoria” na condenação de Karl Marx. 

Numa perspetiva da psicologia analítica de que Carl Jung foi fundador, os rituais não são apenas práticas, mas estruturas arquetípicas que organizam o inconsciente coletivo. Nesse sentido, o Natal representa um espaço transcendente de regeneração e de pertença. Mercantilizá-lo sem critério desfigura o símbolo — esvazia o gesto e rompe o pensamento sublime. A árvore, a luz, o presépio, os cânticos — todos são signos que ativam memórias ancestrais, gestos que ligam o presente ao mito, o corpo à comunidade, o tempo à eternidade. Mas embora sejam secularizados em algumas sociedades, estes símbolos mesmo ali continuam a operar como estruturas de sentido. Iconizam formas de pensar, de sentir, de resistir.

Roberto Treviño Peña, ao propor o paradigma das quatro forças humanas — identidade, desejo, pertença e transcendência — oferece uma chave para pensar esta questão. O Natal ativa estas quatro forças simultaneamente. É por isso que resiste, mesmo em sociedades fragmentadas. Porém, quando grupos económicos tentam duplicar o ritual, sem compreender o campo simbólico em que ele opera, geram ruído, desconfiança e saturação. A falta de confiança na ética do capitalismo não nasce apenas da desigualdade, mas também de práticas consideradas inseparáveis da perda de sentido e do respeito pelos valores simbólicos sem os quais se tornaria indiferente e hostil.

Eduardo Lourenço, no seu ensaio O Natal Revisitado, observou que “o Natal é o mito que resiste à morte dos mitos”. Para este filósofo e ensaísta, a festa do menino Jesus consta das últimas formas de religação alegórica entre o indivíduo e a comunidade, entre os tempos histórico e mítico. E é precisamente a resistência, que nasce do âmago moral das pessoas, que faz o Natal superior na pirâmide existencial da tradição identitária da sociedade mesmo quando esvaziada de dogma. O comércio, quando respeita o simbólico, pode ser espaço de encontro, mas quando o ignora, torna-se máscara insensível, adversária.

A proposta de um Natal em julho não vingou. Contudo, a memória da tentativa ainda recorda a fragilidade da relação entre economia e cultura. E talvez seja tempo de recuperar este vínculo, não por nostalgia, mas por ética. Porque o comércio, como qualquer sistema humano, precisa de limites simbólicos no modelo de parceria em defesa da harmonia e conformidade com o princípio da coesão social que se sobrepõe ao propósito individual do capitalismo e ao mito da sua sustentabilidade da liberdade individual. 

O Natal não se reduz só a crença. Constitui uma estrutura emblemática da razão de ser da sociedade cristã.

 

 

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