De um modo geral, temos a impressão de que a realidade se revela de forma direta, objetiva e transparente. Numa perspetiva científica, contestando esta suposição, os princípios fundamentais que codificam a interpretação do mundo determinam a linguagem em que expressamos a imagem do universo conceptual. Por trás do que percebemos, porém, operam forças invisíveis. Neste contexto, a realidade não se constrói apenas com os olhos da razão, mas também com a memória simbólica da história da nossa espécie e processos de que não nos apercebemos. Ainda que este tema tenha sido explorado por outros pensadores, a teoria psicanalítica de Carl Jung (1875-1961) , a investigação do psicólogo social John Bargh e a visão do filósofo e historiador de religiões Mircea Eliade (1907-1986) permitem-nos criar uma imagem sobre o que existe ao nosso redor.
A realidade tida por estável e objetiva é uma construção interior, na qual projetamos também desejos, medos e as imagens simbólicas que herdámos no percurso evolucionário da espécie. Assim, a perceção funciona como um espelho moldado por forças inconscientes. O trabalho daqueles investigadores, cada um no seu campo, demonstra que tomamos como real símbolos, mitos e padrões mentais que organizam a experiência humana numa estrutura invisível.
Jung teorizou que a mente humana alberga arquétipos universais (o herói, o velho sábio, a grande mãe, o rei justo, etc.), padrões que emergem espontaneamente em culturas distintas. Não se trata de memórias individuais, mas de formas interiores que nos orientam na interpretação do mundo. O inconsciente de Jung não é apenas um repositório de conteúdos reprimidos, mas o fundamento vivo da existência. Os símbolos que assim emergem são elos entre o visível e o invisível, catalisadores da transformação interior. Tocam-nos de forma silenciosa e profunda, ressoando no nosso imaginário coletivo.
Esta visão simbólica encontra continuidade no trabalho de Eliade, que mostrou como as culturas constroem significado através do mito. Assim, longe de ser uma fantasia, o mito é a forma ancestral de verdade. Narra a origem do mundo, as ações dos deuses, os feitos dos heróis fundadores. Ao repetir estas histórias em festas, rituais ou tradições, os povos recriam o “tempo sagrado”, uma dimensão descontínua onde passado, presente e eternidade se entrelaçam. Neste tempo mítico, o indivíduo reencontra sentido, pertença e renovação. O que importa não é apenas o que acontece, mas o significado desenhado por estruturas invisíveis que se manifestam em gestos, símbolos e narrativas. Mesmo sem compreender racionalmente, sentimos que ali há algo essencial ligando-nos ao que transcende.
Bargh demonstrou que muitas das nossas decisões são guiadas por processos automáticos, ativados por estímulos invisíveis como palavras, cores, gestos ou tons de voz. O que julgamos ser escolha racional pode ser apenas resposta a padrões inconscientes culturalmente herdados. Em suma, o inconsciente coletivo de Jung e o tempo mítico de Eliade continuam operando na mente moderna. Os nossos comportamentos, preferências e reações são, muitas vezes, reflexos destes mecanismos subtis que escapam à consciência.
Aqueles autores convergem na ideia essencial que vivemos numa realidade moldada por forças invisíveis. Não somos simples observadores, mas criadores de sentido. Interpretamos o que vemos através de imagens ancestrais que continuam a estruturar a política, a publicidade, a religião, os movimentos sociais, a arte. Os nomes mudam, mas persistem os temas como o sacrifício, o renascimento, a traição, o paraíso perdido, a luta entre luz e sombra. A publicidade moderna ativa mitos do desejo e da conquista. Os discursos políticos evocam heróis e inimigos arquetípicos. A televisão, o cinema e as redes sociais amplificam essas estruturas, revestidas de linguagem contemporânea sustentadas por narrativas antigas.
Esta estrutura oculta da realidade é feita de símbolos, arquétipos e rituais antigos ou disfarçados de modernidade. A perceção, além de sensorial, é simbólica e cultural. Não vemos só com os olhos, mas com a memória coletiva, por vezes adormecida, que molda o que somos e o que experienciamos. Ao compreender tal dimensão simbólica não se renunciam a razão ou a ciência; alarga-se o campo da consciência. Os mitos, pois, não desapareceram. Mudaram apenas de lugar. Os rituais não cessaram. Tornaram-se subtis. E o inconsciente coletivo segue operando com igual intensidade, com novos trajes e novos cenários.
Dir-se-ia que vivemos num mundo encantado, de forma invisível. Um encanto silencioso que nos estrutura os sonhos, os medos e as nossas respostas às crises.
A realidade oculta não está distante. Vive por trás daquilo que tomamos por evidente. Reconhecendo esta presença invisível damos o primeiro passo para se compreender com mais profundidade quem somos e como optamos viver.





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