Música, Marvão e Ammaia

by | Aug 5, 2026 | A Descoberta

 

Tal como Aníbal Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, seus antecessores na presidência da república, António José Seguro fez questão de ir até Marvão para o Festival Internacional de Música que desde 2014 se realiza naquela vila alentejana no verão.

Como é hábito também, com o presidente estavam como convidados vários membros do corpo diplomático acreditado em Lisboa. As boas vindas no concerto foram dadas por Christoph Poppen, maestro alemão que um dia avistou Marvão numa viagem com a família, visitou logo a vila, e convenceu a mulher, a soprano Juliane Banse, a comprarem ali uma casa. O Festival Internacional de Música de Marvão nasceu do entusiasmo do casal alemão, e da gente da vila, por aliar a magia da música à magia da paisagem.

Vi naquela noite de 31 de julho os embaixadores da China e da Índia, também os do México, das Filipinas e da Tunísia. E a embaixadora australiana. Entre outros. Alguns já conheciam Marvão e o próprio festival. Fizeram duas horas e meia de carro a partir da capital para o prometido momento mágico: ouvir música clássica, numa noite de lua cheia, nas ruínas da cidade romana de Ammaia. Do local do concerto via-se Marvão, num rochedo cujo cume está acima dos 800 metros.

Marvão, cujo nome virá de um emir que dominou a região, foi conquistada por D. Afonso Henriques, mas perdida brevemente no início do reinado de Sancho I por causa de uma contra-ofensiva islâmica que em 1190-1191 praticamente tomou todo o Algarve e o Alentejo. A Reconquista cristã em Portugal só terminou em 1249, já no reinado de Afonso III.

O valor estratégico de Marvão vem pelo menos do tempo dos romanos, e o facto de dominar a fronteira com Espanha mostra como foi decisivo na Idade Média para definir os limites de Portugal, e depois disso para defesa da independência do país.

Mas se o castelo e as muralhas da vila merecem visita, também há que destacar a própria Ammaia. Foi local de concerto, o que lhe restituiu por umas horas a vida que tinha há dois mil anos, quando foi fundada no tempo do imperador Augusto. Enquanto a paz foi a regra na Ibéria, Ammaia prosperou, e as investigações arqueológicas continuam a revelar segredos, como um anfiteatro descoberto há poucos anos. Com o fim do Império Romano, vieram tempos conturbados e a segurança oferecida por Marvão fez com que a população um dia se mudasse lá para cima. 

 

* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.

 

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