Morreu Anita Guerreiro, figura da música portuguesa que viveu alguns anos nos Estados Unidos. Tinha 89 anos e morreu dia 7 de dezembro durante o sono, na Casa do Artista, em Lisboa, onde residia desde 2018 Curiosamente, cruzei-me com Anita em Lisboa, em Angola e nos Estados Unidos.
Alfacinha de gema, Bebiana Guerreiro Rocha Cardinali, de seu verdadeiro nome, nasceu em Lisboa a 13 de novembro de 1936, começando a cantar aos sete anos na coletividade Sport Clube do Intendente e por isso gracejava que era “a miúda do Intendente”, tal como Fernando Farinha tinha sido “o miúdo da Bica” e Tristão da Silva “o miúdo do Alto do Pina”.
Tornou-se conhecida do público através do concurso Tribunal da Canção do programa radiopublicitário Comboio das Seis e Meia ao qual concorreu em 1952 e, foi Marques Vidal, o produtor do programa, quem lhe deu o nome artístico de Anita Guerreiro e a levou para o Café Luso, onde se estreou profissionalmente.
Em 1955 estreou-se no Teatro Maria Vitória, na revista “Ó Zé Aperta o Laço”, seguindo-se apresentações em “Festa é Festa” (1955) e revistas no Coliseu dos Recreios como “Cidade Maravilhosa” (1955) e “Fonte Luminosa” (1956).
Passou por todos os teatros do Parque Mayer (Maria Vitória, Variedades, Capitólio e ABC), mantendo também atividade como fadista e interpretando com sucesso temas como “Cheira Bem, Cheira a Lisboa”, “Sou Tua”, “Lição de Amor” ou “Festa é Festa”.
Estas interpretações conduziram-na ao Prémio Estevão Amarante para Melhor Artista de Revista, em 1970.
Embora com menor divulgação, Anita Guerreiro participou no filme, “Lisbon” (1956) de Ray Milland, onde interpretou o tema “Lisboa Antiga”.
Nesta altura fundou e dirigiu a casa típica Adega da Anita, à entrada do Parque e por onde passaram grandes figuras do fado.
Tive nessa altura oportunidade de entrevistar Anita no programa “Festival da Noite”, que eu apresentava nas madrugadas de domingo na Rádio Voz de Lisboa, mas que deixei em 1961, quando fui mobilizado para Angola, onde tempos depois comecei a chefiar a produção do Rádio Clube do Uige, na cidade de Carmona, atual Uige.
Um dia aparecem no rádio clube para uma entrevista a Anita Guerreiro com novo marido, Pepe Cardinali, cantor e ilusionista, que vinham fazer um espetáculo a Carmona.
Anita tinha-se radicado em Luanda, onde havia meia dúzia de casas onde se cantava o fado, uma delas do Fernando Peyroteu, um dos Cinco Violinos do Sporting, e outra (a Muxima), da Benvinda Correia, que veio morrer a Boston, onde tinha familiares.
Anita permaneceu três anos em Angola e, sempre que ia a Carmona, passava pelo rádio clube.
Em 1973, radiquei-me em New Bedford e um dia aparecem-me Anita e o Pepe. Viviam em East Providence e faziam espetáculos pelas comunidades portuguesas dos Estados Unidos e Canadá. Nessa altura entrevistei Anita em várias ocasiões no Portuguese Channel, o canal de televisão português de New Bedford.
Quando não tinha contratos, Anita cuidava de crianças enquanto as mães trabalhavam e um desses meninos foi o Ricardo Farias, hoje apresentador da TV.
Dez anos depois de se terem fixado nos EUA, Anita e Pepe decidiram regressar a Portugal, mas deixaram um filho e uma filha nos EUA. Fiz nessa altura a última entrevista a Anita e ao Pepe para o Portuguese Channel, a despedirem-se da comunidade de que tinham feito parte.
Surpreendentemente, em Lisboa, aos 60 e tal anos, Anita Guerreiro encontrou nas telenovelas e séries de televisão novo veículo para o seu talento, tendo somado participações em “Vidas de Sal” (1996), “As Aventuras do Camilo” (1997), “Médico de Família” (1998), “Olhos de Água” (2001) ou “Os Batanetes” (2004). Continuava a cantar e até 2019 fez parte do elenco da casa de fados “O Faia”, no Bairro Alto.
Para o Pepe as coisas correram pior, faleceu de Alzheimer e Anita sentiu a sua falta.
Em 2004, ao assinalar 50 anos de carreira, Anita recebeu da Câmara Municipal de Lisboa a Medalha Municipal de Mérito, Grau Ouro, e foi alvo de um espetáculo de homenagem no Teatro Municipal de São Luiz que contou com a presença de vários artistas como Fernanda Baptista, outra figura do teatro de revista e do fado que também viveu em Angola.
Ainda em jeito de comemoração das cinco décadas de carreira, em 2022, a Junta de Freguesia de Arroios deu o nome da fadista a uma galeria para promoção cultural aberta ao público.
A morte de Anita Guerreiro não marca apenas o fim de uma vida, marca também o fim de uma era do teatro de revista em Portugal.
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FIFA recompensou Trump por não ter ganho o Nobel da Paz
O sorteio dos jogos da fase de grupos do Campeonato Mundial de Futebol de 2026 realizou-se dia 5 de dezembro no Kennedy Center, em Washington, nos Estados Unidos, um dos três países organizadores. Os outros dois são o Canadá e o México e daí que, além do presidente Donald Trump, estivessem presentes a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, e o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney.
Antes das bolinhas serem sorteadas (por celebridades desportivas norte-americanas como Shaquille O’Neal e Tom Brady), tivemos atrações musicais (o tenor italiano Andrea Bocelli, Laury Hill, Richie Williams, Nicole Scherzinger e os Village People) e uma inesperada homenagem da FIFA a Donald Trump, atribuindo-lhe o recém-criado Prémio da Paz da FIFA.
Trump andava a bater-se ao Prémio Nobel da Paz de 2025, que acabou sendo atribuído à venezuelana María Corina Machado e que lhe é entregue hoje, 10 de dezembro.
Por coincidência, a FIFA criou o seu Prémio da Paz, distinção anual a ser concedida a personalidades que tenham contribuído para solução de conflitos e Trump foi o primeiro premiado alegadamente por ter parado oito guerras.
Donald Trump recebeu o primeiro Prémio da Paz FIFA, mas ligou tanto à honraria que acabara de receber que, depois de ter agradecido, deixou o palco e esqueceu-se de levar o troféu que havia recebido.
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Trump cogita mudar ‘soccer’ por ‘football’
No seu discurso no Kennedy Center, durante o sorteio dos jogos do Mundial de Futebol, o presidente Donald Trump deu a sua opinião sobre o velho debate relativo ao nome correto para o futebol que nos Estados Unidos é chamado de soccer, enquanto que o rugby passou a ser chamado futebol americano, e sugeriu que ambos deviam mudar de nome, deixando claro que o jogo jogado com os pés é o verdadeiro ‘football’ e como tal a NFL (National Football League) deve procurar outro nome para o futebol americano.
Realmente, para os americanos a palavra futebol designa o futebol americano, um desporto jogado principalmente com as mãos e com uma bola ponteaguda, completamente diferente do que o resto do mundo conhece sob esse mesmo nome e que é o futebol jogado com pés e com uma bola redonda.
Num artigo que se tornou livro, “É Futebol, Não Soccer (E Vice-Versa): Sobre a História, a Emoção e a Ideologia por Trás de um dos Debates Mais Ferozes da Internet”, lançado em 2014, Stefan Szymanski, professor de gestão desportiva da Universidade de Michigan, analisou a complexa etimologia de ‘soccer’ para ajudar a esclarecer a situação.
No início do século XIX, em Inglaterra, o futebol e o rugby eram variações do mesmo desporto, explicou Szymanski. Era um jogo relativamente sem regras e em 1863 a Football Association foi fundada e codificou as primeiras regras formais do futebol. A Rugby Football Union fez o mesmo em 1871, e os desportos separaram-se oficialmente nos seus próprios domínios.
Ainda assim, o estabelecimento das duas associações inglesas levou a que nos anos de 1880 os alunos da Universidade de Oxford, em Londres, diferenciassem o ‘rugby football’ e o ‘association football’, que viriam a tornar-se o rugby e o futebol de hoje, dizendo que o primeiro era ‘rugger’, enquanto o segundo era o ‘assoccer’.
Nos EUA a moda pegou e a United States Football Association, fundada em 1910, converteu-se em United States Soccer Football Association em 1945. Hoje, o termo ‘football’ refere-se ao futebol americano jogado principalmente com as mãos, enquanto o futebol tradicional jogado com os pés é chamado ‘soccer’.
Por isso Trump entende que a NFL (National Football League) precisa rebatizar o futebol americano, considerando que o jogo com a bola redonda, que os americanos chamam de ‘soccer’, é que realmente merece o nome de futebol.
Para Trump, a lógica e a clareza devem ser mais importantes que a história, ainda mais em momento de crescimento do futebol nos EUA e do interesse pelo Mundial da modalidade.
A esse respeito, Gianni Infantino, presidente da FIFA, fez questão de lembrar que, em termos de importância, o Mundial de 2026 será o equivalente a 104 Super Bowls, a finalíssima do campeonato da NFL.
Já agora, recorde-se que o futebol é conhecido por diferentes nomes ao redor do mundo.
Football é o termo mais comum globalmente e é usado no Reino Unido, na maioria da Europa, América do Sul, África e Ásia.
O termo ‘soccer’ é predominantemente usado nos Estados Unidos e, em menor grau, no Canadá.
Em outras línguas, o nome do desporto é uma variação de ‘football’ ou uma palavra local, como: Futebol (Português, Brasil e Portugal), Fútbol (Espanhol), Fussball (Alemão), Calcio (Italiano) e Le Football ou le Foot (Francês).




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